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Assistir a vídeos curtos desativa temporariamente as redes de controle cognitivo, aponta estudo

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Assistir a vídeos curtos de preferência pessoal pode silenciar temporariamente regiões cerebrais envolvidas no autocontrole e no monitoramento, e esse efeito pode estar ligado aos níveis de glutamato, uma substância química cerebral. A pesquisa foi publicada na revista NeuroImage.

As plataformas de vídeos curtos baseiam-se em clipes rápidos e engajadores que os usuários podem continuar assistindo ou pular em questão de segundos. Embora essas plataformas possam ser divertidas e inofensivas para muitas pessoas, pesquisadores têm demonstrado interesse crescente em entender por que alguns usuários sentem dificuldade em parar de utilizá-las. Uma explicação possível é que a experiência de visualização, por ser imersiva e prazerosa, pode reduzir a necessidade de monitoramento ativo e de autocontrole.

Leia sobre "Brain rot: impacto dos conteúdos rápidos na saúde1 mental" e "Redes sociais e a síndrome2 FOMO".

O novo estudo concentrou-se em duas regiões cerebrais: o córtex cingulado anterior dorsal e o córtex pré-frontal dorsolateral. O córtex cingulado anterior dorsal auxilia na detecção de conflitos, no monitoramento do comportamento e na decisão sobre quando é necessário um maior esforço mental. O córtex pré-frontal dorsolateral está envolvido na aplicação do controle, como manter o foco ou resistir a distrações. Juntas, essas áreas ajudam as pessoas a regular o comportamento em situações que exigem atenção e autocontrole.

Os pesquisadores também analisaram duas substâncias químicas cerebrais. O glutamato é o principal neurotransmissor excitatório do cérebro3, o que significa que ele ajuda a aumentar a atividade neuronal. O ácido gama-aminobutírico, ou GABA4, é o principal neurotransmissor inibitório do cérebro3, atuando na redução ou regulação da atividade neuronal. A equipe buscou entender se essas substâncias, medidas em estado de repouso, poderiam explicar as diferenças individuais na intensidade da resposta da rede de controle cognitivo5 durante a visualização de vídeos curtos.

Liderados por Tiantian Hong, da Universidade de Zhejiang, na China, os pesquisadores recrutaram 66 jovens adultos. Após excluir participantes devido a movimentos excessivos da cabeça6 ou à baixa qualidade dos exames de química cerebral, a amostra final contou com 56 pessoas, com idade média de cerca de 23 anos. A amostra incluía 19 mulheres.

Inicialmente, os participantes foram submetidos à espectroscopia de ressonância magnética7 de prótons, uma técnica de imagem cerebral utilizada para estimar as concentrações de glutamato e GABA4 no córtex cingulado anterior dorsal. Em seguida, realizaram uma tarefa de visualização de vídeos curtos durante um exame de ressonância magnética7 funcional, que mede alterações na atividade cerebral. Os participantes assistiram a dois blocos de vídeos com duração de seis minutos cada, podendo pressionar um botão para pular para o próximo vídeo sempre que desejassem. Vídeos assistidos até o final foram classificados como “aprovados” (ou de preferência do usuário), enquanto aqueles pulados antes da metade foram classificados como “rejeitados”.

A principal descoberta foi que os vídeos aprovados estavam associados a uma desativação significativa em ambas as regiões de controle cognitivo5. Em outras palavras, quando os participantes assistiam a vídeos que decidiam continuar vendo, a atividade no córtex cingulado anterior dorsal e no córtex pré-frontal dorsolateral caía abaixo do nível basal.

Vídeos de que não gostavam apresentavam um padrão diferente. Durante esses vídeos, a atividade no córtex cingulado anterior dorsal não diferia significativamente do nível basal, enquanto o córtex pré-frontal dorsolateral permanecia suprimido. O córtex visual, responsável pelo processamento de informações visuais, manteve-se ativo tanto nos vídeos de que gostavam quanto naqueles de que não gostavam, sugerindo que os resultados não decorriam simplesmente do fato de os participantes estarem olhando para uma tela.

Hong e seus colegas também constataram que pessoas com níveis mais elevados de glutamato em repouso no córtex cingulado anterior dorsal apresentavam menor supressão de ambas as regiões de controle cognitivo5 durante a visualização dos vídeos. O GABA4 não apresentou associação significativa com a atividade nessas regiões.

Os autores concluíram que a visualização imersiva de vídeos curtos preferidos desativa a rede de controle cognitivo5, e que as diferenças individuais nessa desativação estão ligadas ao metabolismo8 do glutamato.

Curiosamente, a conectividade entre o córtex cingulado anterior dorsal e o córtex pré-frontal dorsolateral aumentou durante a visualização de vídeos curtos, especialmente no caso dos vídeos preferidos. Os autores ressaltam que isso não significa necessariamente um maior autocontrole. Em vez disso, sugerem que ambas as regiões podem sofrer uma redução conjunta de atividade durante a visualização de conteúdos preferidos, gerando um padrão mais coordenado de atividade reduzida.

Vale destacar algumas limitações. Por exemplo, o estudo não avaliou detalhadamente o vício ou o uso compulsivo de vídeos curtos, e a classificação de vídeos como “preferidos” baseou-se no fato de os participantes continuarem assistindo a eles, e não em avaliações explícitas feitas após a visualização. Além disso, a amostra do estudo foi composta apenas por jovens adultos, com predominância do sexo masculino, o que limita a possibilidade de generalizar as conclusões.

Saiba mais sobre "O papel dos neurotransmissores", "Neuroplasticidade" e "Os vícios e suas caraterísticas".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Inibição da atividade cerebral durante a visualização de vídeos curtos: perspectivas neuroquímicas

Destaques

  • Vídeos curtos desativam o dACC/dlPFC durante a visualização de conteúdos preferidos.
  • O glutamato no dACC em estado de repouso está associado a uma menor supressão do dACC.
  • A conectividade dACC-dlPFC é fortalecida durante a visualização de vídeos preferidos.
  • O glutamato associa o controle cognitivo5 à vulnerabilidade ao uso excessivo de vídeos curtos.

Resumo

O controle cognitivo5 permite que os indivíduos se adaptem às demandas ambientais em constante mudança. O córtex cingulado anterior dorsal (dACC) e o córtex pré-frontal dorsolateral (dlPFC) são regiões-chave da rede de controle cognitivo5, sendo ativados durante tarefas que exigem esforço cognitivo5. Em contrapartida, a natureza lúdica e habitual do consumo de vídeos curtos para lazer desloca o processamento neural para o engajamento emocional e a gratificação imediata, contribuindo para o uso excessivo e a redução do autocontrole em alguns indivíduos.

Isso levanta uma questão crítica: a visualização de vídeos curtos suprime as regiões de controle cognitivo5 e quais fatores neuroquímicos podem estar na base das diferenças individuais nesse processo? Para abordar essa questão, este estudo pré-registrado utilizou espectroscopia de ressonância magnética7 de prótons (¹H-MRS) para medir as concentrações de glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA4) no dACC em repouso, e empregou ressonância magnética7 funcional (fMRI) para examinar a atividade do dACC e do dlPFC durante a visualização livre de vídeos curtos em 56 adultos jovens.

Verificou-se que tanto o dACC quanto o dlPFC apresentaram desativação significativa em resposta a vídeos preferidos assistidos até o fim, em comparação com vídeos menos preferidos que foram interrompidos precocemente. Além disso, os níveis de glutamato no dACC em repouso associaram-se à magnitude dessa desativação; concentrações mais elevadas de glutamato foram associadas a uma menor supressão da atividade tanto do dACC quanto do dlPFC. Adicionalmente, a conectividade funcional entre o dACC e o dlPFC aumentou durante a visualização dos vídeos, particularmente no caso dos vídeos preferidos.

Ao integrar fMRI e ¹H-MRS, esse estudo fornece evidências inéditas de que a visualização imersiva de vídeos curtos preferidos desativa a rede de controle cognitivo5 e de que as diferenças individuais nessa desativação estão ligadas ao metabolismo8 do glutamato.

Esses achados ampliam a compreensão sobre como o consumo de mídia digital interage com processos neuroquímicos para influenciar a autorregulação. O estudo oferece, assim, novas perspectivas sobre os mecanismos neurais subjacentes ao engajamento com vídeos curtos e traz implicações para a compreensão do uso excessivo de mídia digital.

Veja também sobre "SBP - Manual 'Menos telas, mais saúde1'" e "Os adolescentes e o mundo virtual".

 

Fontes:
NeuroImage, Vol. 327, publicado em 15 de fevereiro de 2026.
PsyPost, notícia publicada em 15 de julho de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Assistir a vídeos curtos desativa temporariamente as redes de controle cognitivo, aponta estudo. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1513055/assistir-a-videos-curtos-desativa-temporariamente-as-redes-de-controle-cognitivo-aponta-estudo.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Síndrome: Conjunto de sinais e sintomas que se encontram associados a uma entidade conhecida ou não.
3 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
4 GABA: GABA ou Ácido gama-aminobutírico é o neurotransmissor inibitório mais comum no sistema nervoso central.
5 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
6 Cabeça:
7 Ressonância magnética: Exame que fornece imagens em alta definição dos órgãos internos do corpo através da utilização de um campo magnético.
8 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
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