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Cientistas descobrem uma possível cura para a hepatite B crônica

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O tratamento com um novo medicamento, o oligonucleotídeo antisense1 experimental bepirovirsen, levou à cura funcional em um a cada cinco pacientes com infecção2 crônica pelo vírus3 da hepatite4 B (HBV), conforme demonstrado pelos estudos de fase III B-Well 1 e B-Well 2, com resultados publicados no The New England Journal of Medicine.

Entre os pacientes que faziam uso de terapia estável com análogos de nucleosídeos ou nucleotídeos, 20% e 19% daqueles tratados com bepirovirsen nos dois estudos, respectivamente, alcançaram a cura funcional na semana 72, em comparação com nenhum paciente no grupo placebo5, relatou o Dr. Seng-Gee Lim, do National University Health System de Singapura, durante a reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Fígado6, em Barcelona.

A diferença de risco observada entre o bepirovirsen e o placebo5 foi de 17,5 pontos percentuais no estudo B-Well 1 (IC de 95%: 14,6-20,3) e de 13,3 pontos percentuais no B-Well 2 (IC de 95%: 10,4-16,1; P <0,001 para ambas as comparações).

Os resultados dos estudos paralelos “mudarão o cenário do tratamento da hepatite4 B”, afirmou Lim durante sua apresentação.

O estudo incluiu pacientes que, ao contrário da maioria dos infectados pela hepatite4 B, não se recuperaram. Em vez disso, o vírus3 – transmitido por fluidos corporais como sêmen7 ou sangue8 – instala-se no fígado6. Infecções9 crônicas podem levar à cirrose10, ao câncer11 de fígado6 e à morte.

Embora a hepatite4 B possa ser prevenida com vacina12, estima-se que cerca de 1,1 milhão de pessoas no Brasil vivam com a forma crônica da infecção2. O tratamento é contínuo, exigindo antivirais e medicamentos que estimulam a resposta imunológica. No entanto, esses tratamentos não conseguem eliminar o vírus3 nem o risco de câncer11 de fígado6. O novo medicamento, o bepirovirsen, tornou o vírus3 indetectável no organismo dos pacientes, o que se chama de cura funcional.

Desenvolvido pela Ionis Pharmaceuticals e pela GlaxoSmithKline, o bepirovirsen impede a replicação do vírus3 e permite que o sistema imunológico13 o ataque. A terapia é administrada por meio de uma injeção14 semanal.

Em um editorial que acompanhou a publicação do estudo, a Dra. Anna Lok, da Universidade de Michigan em Ann Arbor, observou que os resultados dos estudos B-Well foram “notáveis” e “representam um passo importante em direção a uma cura funcional para a infecção2 pelo HBV.”

Embora os estudos mostrem que o bepirovirsen é uma opção atraente para pacientes15 selecionados, acrescentou Lok, os resultados não podem ser generalizados para pacientes15 que não foram incluídos nos ensaios: aqueles com cirrose10, coinfecção pelo HIV16 ou níveis de antígeno17 de superfície da hepatite4 B (HBsAg) superiores a 3.000 UI/mL.

“A durabilidade da perda de HBsAg precisa ser confirmada com um acompanhamento mais longo, e terapias alternativas são necessárias para outros pacientes”, alertou Lok.

Leia sobre "Hepatites18 - o que são" e "Infecção2 crônica pelo vírus3 da Hepatite4 B".

A cura funcional da infecção2 crônica pelo HBV é definida como um nível de DNA do HBV abaixo do limite inferior de quantificação (menos de 20 UI/mL ou não detectado) e a perda de HBsAg (nível inferior a 0,05 UI/mL) por pelo menos 24 semanas após o término da terapia de duração fixa. Alcançar a cura funcional torna desnecessária a continuidade da terapia com análogos de nucleosídeos/nucleotídeos (ANs).

A perda de HBsAg está associada a melhores desfechos clínicos em comparação com a supressão isolada do DNA do HBV; no entanto, o tratamento com ANs ou interferon peguilado raramente resulta na perda de HBsAg. Após 8 a 10 anos de terapia com ANs, apenas cerca de 3% dos pacientes alcançam a perda de HBsAg. Estima-se que 8% a 11% dos pacientes tratados com interferon peguilado alcancem a perda de HBsAg três anos após o tratamento.

Os ensaios duplo-cegos B-Well 1 e B-Well 2, que possuíam desenhos idênticos, incluíram pacientes de 29 países, recrutando adultos com infecção2 crônica pelo HBV que estavam em terapia estável com ANs há pelo menos seis meses. Os participantes apresentavam níveis de HBsAg entre 100 e 3.000 UI/mL, níveis de DNA do HBV abaixo de 90 UI/mL e níveis de alanina aminotransferase (ALT) não superiores ao dobro do limite superior da normalidade. Os critérios de exclusão incluíam cirrose10 e coinfecção pelos vírus3 da hepatite4 C, hepatite4 D ou HIV16.

Nos dois estudos, a idade média variou de 49 a 50 anos; 69% a 73% eram homens, 67% a 70% eram asiáticos, 24% a 27% eram brancos, 4% a 5% eram negros e 5% a 12% eram hispânicos ou latinos.

Os pacientes foram randomizados na proporção de 2:1 para receber injeções subcutâneas semanais de 300 mg de bepirovirsen ou placebo5, da semana 1 à semana 24. Todos os pacientes receberam terapia com AN da semana 1 à semana 48. Aqueles que atingiram níveis de DNA do HBV abaixo do limite inferior de quantificação, perda de HBsAg e valores de ALT não superiores a duas vezes o limite superior da normalidade entre as semanas 24 e 48 interromperam a terapia com AN. Em ambos os estudos, 24% dos pacientes nos grupos tratados com bepirovirsen interromperam a terapia com AN na semana 48, enquanto nenhum paciente do grupo placebo5 o fez.

O desfecho primário do estudo foi a cura funcional na semana 72, 24 semanas após a interrupção de todo o tratamento contra o HBV pelos pacientes elegíveis.

Entre os pacientes com níveis mais baixos de HBsAg (100 a 1.000 UI/mL), 25% e 28% dos pacientes tratados com bepirovirsen nos estudos B-Well 1 e B-Well 2, respectivamente, alcançaram a cura funcional, em comparação com nenhum paciente do grupo placebo5 (P <0,001 em ambos os estudos).

As taxas de cura funcional diminuíram à medida que os níveis de HBsAg aumentaram. Entre aqueles com níveis mais elevados de HBsAg (>1.000 a ≤3.000 UI/mL), a cura funcional foi alcançada por 10% e 5% dos pacientes tratados com bepirovirsen nos estudos B-Well 1 e B-Well 2, respectivamente, enquanto nenhum paciente do grupo placebo5 com níveis mais elevados de HBsAg em qualquer um dos estudos alcançou a cura funcional.

Em uma análise combinada de ambos os estudos, 91% dos pacientes tratados com bepirovirsen e 73% dos pacientes do grupo placebo5 relataram eventos adversos até a semana 72, sendo que 7% e 4%, respectivamente, relataram eventos adversos graves. Eventos adversos de grau 3 ou superior ocorreram em 16% dos participantes dos grupos que receberam bepirovirsen e em 3% dos grupos que receberam placebo5 durante os períodos de tratamento dos estudos; o aumento nos níveis de ALT foi o evento adverso de grau 3 mais comum associado ao bepirovirsen (6%). Três por cento dos pacientes tratados com bepirovirsen interromperam o tratamento devido a eventos adversos.

Lim observou que 24% dos pacientes nos grupos que receberam bepirovirsen apresentaram elevação dos níveis de ALT para mais de três vezes o limite superior da normalidade. Aqueles que apresentaram esses aumentos tiveram 85% de chance de perda do HBsAg. Já os pacientes com níveis de ALT abaixo desse limiar tiveram apenas 35% de chance de perda do HBsAg.

“Claramente, essas exacerbações são importantes do ponto de vista da eficácia”, disse Lim. “Provavelmente, tratou-se de um efeito relacionado à eficácia do fármaco19.”

As limitações do estudo incluíram o número relativamente pequeno de pacientes de alguns grupos raciais e étnicos, como negros e hispânicos ou latinos, o que poderia restringir a generalização dos resultados. Além disso, a estratificação central dos estudos pode ter levado a diferenças nos níveis basais médios de HBsAg entre os diferentes países.

A GlaxoSmithKline solicitou à Food and Drug Administration dos EUA a aprovação para comercializar o medicamento. Espera-se uma decisão até 26 de outubro.

Veja também sobre "Hepatite4 B", "Hepatite fulminante20" e "Exames do fígado6".

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Resultados de fase 3 do tratamento com bepirovirsen para infecção2 crônica pelo vírus3 da hepatite4 B

O tratamento com bepirovirsen, um oligonucleotídeo antisense1 direcionado a transcritos do vírus3 da hepatite4 B (HBV), tem o potencial de resultar em cura funcional, definida pela manutenção, por pelo menos 24 semanas, de níveis de DNA do HBV abaixo do limite inferior de quantificação e pela perda do antígeno17 de superfície da hepatite4 B (HBsAg) após terapia de duração fixa.

Em dois ensaios clínicos21 replicados e duplo-cegos (B-Well 1 e B-Well 2), adultos com infecção2 crônica pelo HBV sem cirrose10 foram randomizados, na proporção de 2:1, para receber bepirovirsen por via subcutânea22 (dose semanal de 300 mg) ou placebo5 durante 24 semanas. Todos os pacientes estavam em tratamento estável com análogos de nucleosídeos ou nucleotídeos (AN) e apresentavam níveis de HBsAg entre >100 e 3000 UI/mL. Os pacientes elegíveis interromperam a terapia com AN na 48ª semana. O desfecho primário foi a cura funcional na 72ª semana.

A porcentagem de pacientes que alcançaram cura funcional na 72ª semana foi significativamente maior com bepirovirsen do que com placebo5, tanto no estudo B-Well 1 (127 de 650 pacientes [20%] vs. nenhum de 328 pacientes) quanto no estudo B-Well 2 (106 de 570 pacientes [19%] vs. nenhum de 286 pacientes).

Em uma análise combinada na 72ª semana, eventos adversos foram relatados em 91% dos pacientes nos grupos tratados com bepirovirsen e em 73% daqueles nos grupos placebo5; eventos adversos graves foram relatados em 7% e 4% dos pacientes, respectivamente. Durante o período de tratamento, eventos adversos de grau 3 ou superior foram relatados em 16% dos pacientes que receberam bepirovirsen e em 3% daqueles que receberam placebo5; aumentos nos níveis de alanina aminotransferase foram os eventos adversos de grau 3 mais comuns com o uso de bepirovirsen (ocorrendo em 6% dos pacientes).

Em dois estudos de fase 3 envolvendo pacientes com infecção2 crônica pelo HBV, relatou-se cura funcional após a descontinuação da terapia com AN em um número significativamente maior de pacientes tratados com bepirovirsen do que naqueles que receberam placebo5.

 

Fontes:
The New England Journal of Medicine, Vol. 394, N° 24, em junho de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 28 de maio de 2026.
The New York Times, notícia publicada em 28 de maio de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Cientistas descobrem uma possível cura para a hepatite B crônica. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1510625/cientistas-descobrem-uma-possivel-cura-para-a-hepatite-b-cronica.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Antisense: Antisense refere-se a sequências curtas de DNA e RNA denominadas oligonucleotídeos, os quais são projetados para serem complementos de uma sequência genética específica. Ao ligarem-se à sequência genética, vão alterar a expressão do gene à qual pertence esta sequência.
2 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
3 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
4 Hepatite: Inflamação do fígado, caracterizada por coloração amarela da pele e mucosas (icterícia), dor na região superior direita do abdome, cansaço generalizado, aumento do tamanho do fígado, etc. Pode ser produzida por múltiplas causas como infecções virais, toxicidade por drogas, doenças imunológicas, etc.
5 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
6 Fígado: Órgão que transforma alimento em energia, remove álcool e toxinas do sangue e fabrica bile. A bile, produzida pelo fígado, é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.
7 Sêmen: Sêmen ou esperma. Líquido denso, gelatinoso, branco acinzentado e opaco, que contém espermatozoides e que serve para conduzi-los até o óvulo. O sêmen é o líquido da ejaculação. Ele é composto de plasma seminal e espermatozoides. Este plasma contém nutrientes que alimentam e protegem os espermatozoides.
8 Sangue: O sangue é uma substância líquida que circula pelas artérias e veias do organismo. Em um adulto sadio, cerca de 45% do volume de seu sangue é composto por células (a maioria glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas). O sangue é vermelho brilhante, quando oxigenado nos pulmões (nos alvéolos pulmonares). Ele adquire uma tonalidade mais azulada, quando perde seu oxigênio, através das veias e dos pequenos vasos denominados capilares.
9 Infecções: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
10 Cirrose: Substituição do tecido normal de um órgão (freqüentemente do fígado) por um tecido cicatricial fibroso. Deve-se a uma agressão persistente, infecciosa, tóxica ou metabólica, que produz perda progressiva das células funcionalmente ativas. Leva progressivamente à perda funcional do órgão.
11 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
12 Vacina: Tratamento à base de bactérias, vírus vivos atenuados ou seus produtos celulares, que têm o objetivo de produzir uma imunização ativa no organismo para uma determinada infecção.
13 Sistema imunológico: Sistema de defesa do organismo contra infecções e outros ataques de micro-organismos que enfraquecem o nosso corpo.
14 Injeção: Infiltração de medicação ou nutrientes líquidos no corpo através de uma agulha e seringa.
15 Para pacientes: Você pode utilizar este texto livremente com seus pacientes, inclusive alterando-o, de acordo com a sua prática e experiência. Conheça todos os materiais Para Pacientes disponíveis para auxiliar, educar e esclarecer seus pacientes, colaborando para a melhoria da relação médico-paciente, reunidos no canal Para Pacientes . As informações contidas neste texto são baseadas em uma compilação feita pela equipe médica da Centralx. Você deve checar e confirmar as informações e divulgá-las para seus pacientes de acordo com seus conhecimentos médicos.
16 HIV: Abreviatura em inglês do vírus da imunodeficiência humana. É o agente causador da AIDS.
17 Antígeno: 1. Partícula ou molécula capaz de deflagrar a produção de anticorpo específico. 2. Substância que, introduzida no organismo, provoca a formação de anticorpo.
18 Hepatites: Inflamação do fígado, caracterizada por coloração amarela da pele e mucosas (icterícia), dor na região superior direita do abdome, cansaço generalizado, aumento do tamanho do fígado, etc. Pode ser produzida por múltiplas causas como infecções virais, toxicidade por drogas, doenças imunológicas, etc.
19 Fármaco: Qualquer produto ou preparado farmacêutico; medicamento.
20 Hepatite fulminante: Alteração aguda e grave da função hepatocelular secundária à toxicidade hepatocitária ou colestase. Refere-se a insuficiência hepática aguda complicada por encefalopatia. Tem um início rápido e segue um curso curto e severo. Pode ser desencadeada por causas tóxicas e não tóxicas, como o uso de acetaminofeno, metotrexate, alopurinol, dentre outros medicamentos.
21 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
22 Subcutânea: Feita ou situada sob a pele; hipodérmica.
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