Estudo esclarece a ligação entre doença hepática gordurosa e ataques cardíacos
Um grande ensaio clínico multicêntrico constatou que pessoas com esteatose hepática1, comumente chamada de doença hepática2 gordurosa, apresentam, em suas artérias coronárias3, uma quantidade significativamente maior de placas4 com maior risco de ruptura e uma taxa quase duas vezes maior de ataques cardíacos e eventos relacionados em comparação com aquelas sem a condição.
Já se sabe que a doença hepática2 gordurosa aumenta o risco de doenças cardíacas, mas, até agora, os pesquisadores não compreendiam como isso ocorria. As novas descobertas, publicadas na revista Clinical Gastroenterology and Hepatology, revelam um mecanismo biológico específico por trás dessa associação. Os pesquisadores suspeitam que existam outros mecanismos.
O estudo sugere que as tomografias computadorizadas (TC) cardíacas, já utilizadas para avaliar dores torácicas, também poderiam ser empregadas para detectar a esteatose hepática1 e ajudar a identificar pacientes que necessitam de estratégias de prevenção mais agressivas.
Os resultados reforçam a compreensão de que a doença hepática2 gordurosa “não é apenas uma condição do fígado5, mas também um importante marcador de risco para doenças cardíacas”, afirmou o primeiro autor do estudo, Jan Brendel, pesquisador de radiologia da Harvard Medical School (HMS) no Massachusetts General Hospital. “A doença hepática2 gordurosa pode ser detectada em exames de rotina de TC cardíaca e poderia ajudar a orientar tratamentos preventivos mais precoces e direcionados.”
A doença hepática2 gordurosa caracteriza-se pelo acúmulo excessivo de gordura6 nas células7 do fígado5 e afeta cerca de 30% a 40% dos adultos nos Estados Unidos e, segundo estimativas, aproximadamente 30% a 35% dos adultos no Brasil. As novas descobertas reforçam a ideia de uma conexão “fígado-coração”, na qual o excesso de gordura6 e a inflamação8 no fígado5 contribuem para alterações nas artérias9 que podem levar a ataques cardíacos.
Leia sobre "Esteatose hepática1: o que é", "Aterosclerose10" e "Dor no peito11: é sempre um sinal12 de alerta?"
Pesquisadores da HMS no Mass General e seus colaboradores da Duke University, da Oregon Health & Science University, da Tufts University e de instituições europeias basearam-se em dados de 3.637 participantes do ensaio clínico PROMISE, um estudo multicêntrico envolvendo pacientes ambulatoriais clinicamente estáveis que apresentavam dor torácica.
Os pesquisadores analisaram TCs cardíacas de participantes avaliados por dor torácica em 193 centros clínicos na América do Norte. Os exames capturavam tanto as artérias coronárias3 quanto, incidentalmente, partes do fígado5, permitindo que a equipe avaliasse simultaneamente a presença de placas4 coronárias e detectasse a doença hepática2 gordurosa. Pouco mais de 25% dos participantes apresentavam a condição.
Pacientes com doença hepática2 gordurosa apresentavam 24% mais placas4 moles ricas em colesterol13 nas artérias coronárias3 do que aqueles sem a condição, mesmo após ajustes para obesidade14 e fatores de risco cardiovascular convencionais. Esse tipo de placa15, conhecido como placa15 não calcificada, é mais propenso a se romper e desencadear um coágulo16 sanguíneo do que o tipo endurecido e calcificado, sendo considerado o mais perigoso dos dois.
Ao longo de cerca de dois anos de acompanhamento, 4,1% dos participantes com doença hepática2 gordurosa sofreram um evento cardiovascular grave – incluindo morte, ataque cardíaco ou hospitalização por dor torácica causada pela redução do fluxo sanguíneo para o coração17 – em comparação com 2,5% daqueles que não apresentavam a condição.
Após considerar fatores de risco cardiovascular, obesidade14 e a extensão da obstrução das artérias9, a doença hepática2 gordurosa foi associada a um risco 69% maior de um evento cardíaco grave.
O acúmulo dessa perigosa placa15 “mole” explicou cerca de 11% desse risco adicional, sugerindo que esse é um dos mecanismos pelos quais a doença hepática2 gordurosa aumenta o risco cardiovascular. O risco restante parece decorrer de outras vias ainda não identificadas, segundo os autores.
Como a doença hepática2 gordurosa pode ser detectada incidentalmente nas mesmas tomografias computadorizadas usadas para avaliar a doença arterial coronariana, os resultados apoiam o uso dessa informação, quando presente, para ajudar a incorporar a avaliação do fígado5 aos exames de imagem cardíaca de rotina. Os autores ressaltam, no entanto, que não recomendam a solicitação de tomografias apenas para investigar a presença de gordura6 no fígado5.
Os pesquisadores afirmam que estudos futuros devem examinar se tratamentos como as estatinas (para reduzir o colesterol13) ou medicamentos mais recentes para perda de peso e diabetes18, conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1 (como os comercializados como Zepbound e Wegovy), podem retardar ou reverter o acúmulo perigoso de placas4 em pacientes com doença hepática2 gordurosa.
Serão necessários ensaios clínicos19 randomizados para determinar se combater a gordura6 no fígado5 ou a placa15 de alto risco realmente reduz a probabilidade de ataques cardíacos e eventos relacionados.
Veja também sobre "Doenças cardiovasculares20" e "Calcificação21 das artérias9".
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Esteatose hepática1 está associada a um risco cardiovascular aumentado devido à composição adversa da placa15 coronária
A esteatose hepática1 tem sido associada a eventos cardiovasculares adversos maiores, independentemente de outros fatores de risco cardiovascular e da gravidade da doença arterial coronariana. No entanto, a relação entre esteatose hepática1, composição da placa15 coronariana e eventos cardiovasculares adversos maiores permanece incerta.
Um laboratório central de análise avaliou participantes do estudo Prospective Multicenter Imaging Study for Evaluation of Chest Pain (PROMISE) que foram randomizados para o braço de tomografia computadorizada22. A esteatose hepática1 foi avaliada por meio de tomografia computadorizada22 sem contraste, utilizando métodos padrão de atenuação hepática2 e esplênica23. A angiotomografia coronariana foi utilizada para quantificar o volume e a carga (percentual do volume do vaso) de placas4 totais, calcificadas, não calcificadas e de baixa atenuação.
Análises de regressão multivariada e de mediação avaliaram as relações entre esteatose hepática1, componentes da placa15 e eventos cardiovasculares adversos maiores (óbito24, infarto do miocárdio25, hospitalização por angina26 instável). A mediana de acompanhamento foi de 25 meses (intervalo interquartil: 18-33 meses).
Entre 3.637 pacientes (idade: 60,6 ± 8,2 anos; 51,4% do sexo feminino), 25,5% apresentavam esteatose hepática1; esses pacientes eram ligeiramente mais jovens, mais frequentemente do sexo masculino, apresentavam mais fatores de risco cardiovascular e uma taxa mais elevada de eventos cardiovasculares adversos maiores (4,1% vs. 2,5%) (todos P <0,05).
Após ajuste para fatores de risco clínicos, a esteatose hepática1 associou-se a uma maior carga de placa15 não calcificada (β: 0,15%; intervalo de confiança de 95%: 0,04-0,27; P = 0,008). A esteatose hepática1 associou-se a um risco aumentado de eventos cardiovasculares adversos maiores, independentemente do escore de risco para doença cardiovascular aterosclerótica, obesidade14, estenose27 obstrutiva e carga de placa15 não calcificada (razão de risco ajustada: 1,69; intervalo de confiança de 95%: 1,12-2,54; P = 0,012), ao passo que a carga de placa15 não calcificada mediou 11% da associação entre esteatose hepática1 e eventos cardiovasculares adversos maiores.
O estudo concluiu que a esteatose hepática1 associou-se a uma maior carga de placa15 não calcificada e a um risco aumentado de eventos cardiovasculares adversos maiores, sendo que a carga de placa15 não calcificada foi responsável por uma parcela dessa associação, o que sugere uma ligação entre esteatose hepática1 e aterosclerose10 coronariana vulnerável. Estes achados corroboram a avaliação integrada do risco cardiometabólico em pacientes submetidos à angiotomografia coronariana.
Fontes:
Clinical Gastroenterology and Hepatology, publicação em 20 de maio de 2026.
Harvard Medical School, notícia publicada em 28 de maio de 2026.










