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Dieta cetogênica mostra potencial real para a recuperação da anorexia

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Restringir carboidratos pode parecer uma abordagem improvável para tratar a anorexia nervosa1, mas a dieta cetogênica, mais conhecida como uma dieta da moda para queimar gordura2, mostrou-se promissora no tratamento desse transtorno alimentar em um pequeno estudo, publicado na revista Communications Medicine.

Seguir a dieta, que contém grandes quantidades de gordura2, quantidades moderadas de proteína e pouquíssimos carboidratos, fez com que quase 75% das pessoas com o transtorno deixassem de atender aos critérios diagnósticos no estudo. Acredita-se que isso ocorra porque a dieta restaura o funcionamento adequado da liberação de energia nas células3 cerebrais, processo que está alterado na anorexia4, reduzindo assim a ansiedade e a compulsão por restringir a alimentação.

Simular um estado de inanição restringindo carboidratos em uma condição caracterizada por dietas extremas e que apresenta uma das taxas de mortalidade5 mais altas entre todos os transtornos mentais parece arriscado. No entanto, Guido Frank, da Universidade da Califórnia em San Diego, argumenta que, com a supervisão adequada, essa abordagem poderia eliminar o impulso compulsivo de se privar de comida. “Clinicamente, as pessoas me dizem que é como um vício; elas dizem: ‘Eu sinto uma vontade intensa disso’”, afirma ele. “Talvez, se criarmos esse estado que elas desejam, ao mesmo tempo em que lhes fornecemos comida suficiente, isso possa ser benéfico.”

Frank e sua equipe pediram a 22 mulheres com anorexia4, cujo índice de massa corporal6 (IMC7) havia aumentado o suficiente para situá-las na faixa de peso saudável ou de leve baixo peso, que seguissem uma dieta cetogênica por 14 semanas, sob a supervisão de um nutricionista8, um psiquiatra e um conselheiro de apoio que já havia vivenciado a anorexia4. O peso, o humor e os sintomas9 de anorexia4 das participantes foram monitorados semanalmente por meio de questionários para acompanhar quaisquer alterações na imagem corporal, depressão, ansiedade relacionada à alimentação e medo de ganhar peso.

As 18 mulheres que mantiveram a dieta durante todas as 14 semanas apresentaram uma melhora significativa nos sintomas9 de anorexia4 e nos níveis de depressão, condição que frequentemente acompanha a anorexia4. Treze delas (72%) apresentaram melhora suficiente para deixar de atender aos critérios de diagnóstico10 clínico tanto para anorexia4 quanto para depressão. “O nível de recuperação foi muito superior ao que observamos em outros tratamentos para anorexia”, diz Frank.

O objetivo do estudo não era verificar se a dieta cetogênica faria as participantes ganharem peso; no entanto, todas permaneceram na faixa de IMC7 considerada saudável ou de leve baixo peso e não sofreram recaídas.

Leia sobre "Transtornos alimentares", "Anorexia nervosa1" e "Como funciona o controle do apetite".

As dietas cetogênicas recebem esse nome devido à forma como provocam uma mudança metabólica que evoluiu para nos ajudar a sobreviver a períodos de escassez de alimentos. Como consumidores de vegetais, nosso metabolismo11 funciona principalmente à base de carboidratos, que são decompostos em glicose12 para serem queimados nas mitocôndrias13 das células3, gerando energia.

Quando os carboidratos não estão disponíveis, o organismo se adapta para queimar gordura2, liberando-a de suas reservas e convertendo-a, no fígado14, em moléculas chamadas corpos cetônicos. Essas moléculas podem ser queimadas nas mitocôndrias13 em substituição à glicose12.

Essas dietas foram criadas na década de 1920, não para perda de peso, mas como tratamento para a epilepsia15. Sabia-se que o jejum prolongado, por vários dias, poderia reduzir ou interromper as convulsões, mas, como tratamento, essa prática era insustentável. A dieta cetogênica ofereceu uma solução: restringir os carboidratos a ponto de simular um estado de inanição, ao mesmo tempo em que fornecia gordura2 alimentar suficiente para evitar a perda de peso de quem a seguia.

Pesquisas posteriores sugerem que a epilepsia15 e muitos transtornos de saúde16 mental, incluindo a anorexia4, estão associados a problemas na liberação de energia a partir da glicose12 no cérebro17; nesse contexto, os corpos cetônicos podem aliviar tais problemas ao fornecer uma fonte de energia alternativa.

Sahib Khalsa, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que pesquisa e trata transtornos alimentares, faz um alerta importante para quem cogita experimentar a dieta cetogênica para tratar a anorexia4: “É fundamental distinguir entre o acompanhamento rigoroso feito por um psiquiatra especializado em transtornos alimentares, um nutricionista8 e uma equipe de tratamento, e a tentativa de realizar isso por conta própria.” Segundo ele, enquanto não houver mais dados provenientes de grandes ensaios clínicos18 randomizados e controlados, é prematuro alterar a abordagem padrão de tratamento da anorexia4, que geralmente envolve terapia e suporte nutricional.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Impacto nos sintomas9 e segurança da terapia cetogênica em adultos com anorexia nervosa1: um estudo de viabilidade

A anorexia nervosa1 é um transtorno psiquiátrico grave caracterizado por restrição alimentar e peso corporal significativamente baixo. Mesmo após a restauração do peso, sintomas9 centrais, como insatisfação com a imagem corporal, medo intenso de comer e preocupação com a forma e o peso do corpo, frequentemente persistem, contribuindo para um alto risco de recaída.

Este estudo avaliou a viabilidade e a segurança de uma terapia dietética cetogênica voltada à manutenção do peso, administrada ao longo de 14 semanas em mulheres adultas com anorexia nervosa1 que apresentavam leve baixo peso ou peso normal restaurado. O estudo também examinou se a terapia cetogênica poderia reduzir os sintomas9 do transtorno alimentar. Vinte e duas mulheres participaram, e dezoito (82%) concluíram o estudo.

Uma análise de covariância multivariada (MANCOVA) de medidas repetidas (análise por intenção de tratar; comorbidades19 e uso de medicamentos incluídos no modelo) revelou efeitos globais significativos do tratamento (λ de Wilk = 0,165; F = 2,383; p <0,001) e uma redução, ao longo do tempo, nas pontuações de sintomas9 das subescalas do Eating Disorder Examination Questionnaire (EDE-Q) – Restrição, Preocupação com a Alimentação, Preocupação com a Forma e Preocupação com o Peso –, bem como nas pontuações de depressão.

Ao final do estudo, 72% das participantes apresentavam pontuações no EDE-Q e de depressão dentro da faixa de normalidade. No acompanhamento de três meses, 39% das participantes que concluíram o estudo mantinham a terapia dietética cetogênica; destas, 28% apresentaram aumento na pontuação global do EDE-Q. Por outro lado, entre aquelas que não mantiveram a terapia, 64% apresentaram elevação nas pontuações do EDE-Q. A terapia dietética cetogênica não provocou agravamento dos sintomas9 nem perda de peso clinicamente significativa.

O estudo concluiu que a terapia dietética cetogênica é bem tolerada e demonstra eficácia potencial na redução dos sintomas9 centrais da anorexia nervosa1 em adultos com leve baixo peso ou peso normal restaurado. Esses achados embasam a realização de novas pesquisas sobre a terapia dietética cetogênica como uma possível intervenção para essa população.

Veja também sobre "Dieta cetogênica", "Restrição calórica e longevidade", "Desnutrição20: o que é" e "Macronutrientes21 - quais são eles".

 

Fontes:
Communications Medicine, publicação em 03 de junho de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 03 de junho de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Dieta cetogênica mostra potencial real para a recuperação da anorexia. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1512085/dieta-cetogenica-mostra-potencial-real-para-a-recuperacao-da-anorexia.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Anorexia nervosa: Distúrbio alimentar caracterizado por uma alteração da imagem corporal associado à anorexia.
2 Gordura: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Os alimentos que fornecem gordura são: manteiga, margarina, óleos, nozes, carnes vermelhas, peixes, frango e alguns derivados do leite. O excesso de calorias é estocado no organismo na forma de gordura, fornecendo uma reserva de energia ao organismo.
3 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
4 Anorexia: Perda do apetite ou do desejo de ingerir alimentos.
5 Mortalidade: A taxa de mortalidade ou coeficiente de mortalidade é um dado demográfico do número de óbitos, geralmente para cada mil habitantes em uma dada região, em um determinado período de tempo.
6 Índice de massa corporal: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
7 IMC: Medida usada para avaliar se uma pessoa está abaixo do peso, com peso normal, com sobrepeso ou obesa. É a medida mais usada na prática para saber se você é considerado obeso ou não. Também conhecido como IMC. É calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. Existe uma tabela da Organização Mundial de Saúde que classifica as medidas de acordo com o resultado encontrado.
8 Nutricionista: Especialista em nutricionismo, ou seja, especialista no estudo das necessidades alimentares dos seres humanos e animais, e dos problemas relativos à nutrição.
9 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
10 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
11 Metabolismo: É o conjunto de transformações que as substâncias químicas sofrem no interior dos organismos vivos. São essas reações que permitem a uma célula ou um sistema transformar os alimentos em energia, que será ultilizada pelas células para que as mesmas se multipliquem, cresçam e movimentem-se. O metabolismo divide-se em duas etapas: catabolismo e anabolismo.
12 Glicose: Uma das formas mais simples de açúcar.
13 Mitocôndrias: Organelas semi-autônomas que se auto-reproduzem, encontradas na maioria do citoplasma de todas as células, mas não de todos os eucariotos. Cada mitocôndria é envolvida por uma membrana dupla limitante. A membrana interna é altamente invaginada e suas projeções são denominadas cristas. As mitocôndrias são os locais das reações de fosforilação oxidativa, que resultam na formação de ATP. Elas contêm RIBOSSOMOS característicos, RNA DE TRANSFERÊNCIA, AMINOACIL-T RNA SINTASES e fatores de alongação e terminação. A mitocôndria depende dos genes contidos no núcleo das células no qual se encontram muitos RNAs mensageiros essenciais (RNA MENSAGEIRO). Acredita-se que a mitocôndria tenha se originado a partir de bactérias aeróbicas que estabeleceram uma relação simbiótica com os protoeucariotos primitivos.
14 Fígado: Órgão que transforma alimento em energia, remove álcool e toxinas do sangue e fabrica bile. A bile, produzida pelo fígado, é importante na digestão, especialmente das gorduras. Após secretada pelas células hepáticas ela é recolhida por canalículos progressivamente maiores que a levam para dois canais que se juntam na saída do fígado e a conduzem intermitentemente até o duodeno, que é a primeira porção do intestino delgado. Com esse canal biliar comum, chamado ducto hepático, comunica-se a vesícula biliar através de um canal sinuoso, chamado ducto cístico. Quando recebe esse canal de drenagem da vesícula biliar, o canal hepático comum muda de nome para colédoco. Este, ao entrar na parede do duodeno, tem um músculo circular, designado esfíncter de Oddi, que controla o seu esvaziamento para o intestino.
15 Epilepsia: Alteração temporária e reversível do funcionamento cerebral, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Quando restritos, a crise será chamada crise epiléptica parcial; quando envolverem os dois hemisférios cerebrais, será uma crise epiléptica generalizada. O paciente pode ter distorções de percepção, movimentos descontrolados de uma parte do corpo, medo repentino, desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente e até perder a consciência - neste caso é chamada de crise complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Existem outros tipos de crises epilépticas.
16 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
17 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
18 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
19 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
20 Desnutrição: Estado carencial produzido por ingestão insuficiente de calorias, proteínas ou ambos. Manifesta-se por distúrbios do desenvolvimento (na infância), atrofia de tecidos músculo-esqueléticos e caquexia.
21 Macronutrientes: Os macronutrientes fornecem as calorias aos alimentos. São eles: carboidratos, proteínas e lipídeos.
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