Mudança na identidade do ovário após a menopausa pode contribuir para a inflamação
Acreditava-se que, depois que os ovários1 haviam passado pela transição para a menopausa2, esses órgãos então retraídos e com cicatrizes3 permaneciam inertes no organismo. No entanto, a descoberta de que os ovários1 de camundongos idosos são infiltrados por células4 do sistema imunológico5 sugere que o órgão pode estar associado a uma inflamação6 sistêmica após a menopausa2.
“Presumíamos que o órgão já tivesse cumprido sua função após a fase reprodutiva”, diz Francesca Duncan, da Universidade Northwestern, em Illinois. “O que descobrimos foi extremamente surpreendente.”
Duncan e seus colegas já haviam publicado um estudo que analisou a composição proteica de ovários1 de mulheres na pós-menopausa2, com idades entre 50 e 75 anos. Eles esperavam que todos os ovários1 fossem bastante semelhantes, mas Duncan constatou que suas “assinaturas moleculares mudavam drasticamente ao longo das décadas, o que nos indicou que esse órgão não é estático; ele sofre alterações com o passar do tempo”.
Para compreender melhor esse processo, Duncan e sua equipe estudaram mais detalhadamente os ovários1 de camundongos. Em um novo estudo publicado na revista Molecular Human Reproduction, eles analisaram o tecido7 e a expressão gênica nos ovários1 de animais jovens (2 meses de idade), em idade reprodutiva avançada (18 meses) e na fase pós-reprodutiva (24 meses).
Camundongos não apresentam ciclo menstrual como os humanos; o revestimento do útero8 é reabsorvido, e não eliminado na forma de menstruação9. Eles também não passam pela menopausa2 da mesma maneira que nós, mas suas reservas de óvulos se esgotam com a idade e seus ciclos tornam-se irregulares. “Quando falamos em menopausa2, referimo-nos ao declínio da fertilidade e da função hormonal relacionado à idade, e os camundongos passam exatamente por isso”, afirma Duncan.
Leia sobre "Climatério10 e menopausa2: como são", "Conhecendo o sistema imunológico5" e "Alguns conceitos ligados à reprodução11 humana".
Alguns resultados eram esperados: os ovários1 mais velhos haviam perdido os folículos produtores de óvulos, por exemplo, e apresentavam mais cicatrizes3. Além disso, houve uma redução na atividade de genes envolvidos na reprodução11 e na produção de hormônios como o estradiol (uma forma de estrogênio). Contudo, a equipe também observou que genes ligados à inflamação6 e à atividade imunológica tornaram-se progressivamente mais ativos, e que o número de células4 do sistema imunológico5 nos ovários1, incluindo células4 T e macrófagos12, aumentou com a idade.
Mais pesquisas são necessárias para descobrir o que isso pode significar para a saúde13 imunológica e para a saúde13 geral, mas Duncan suspeita que isso represente uma mudança de identidade para os ovários1, em vez de eles se tornarem uma “superpotência imunológica”. “Os ovários1 estão perdendo, de certa forma, a assinatura reprodutiva e assumindo uma assinatura imunológica, mas não acho que isso seja necessariamente algo bom.”
Tecidos em processo de envelhecimento sofrem “inflammaging” (inflamação6 associada ao envelhecimento), um estado de inflamação6 crônica de baixo grau. Células4 do sistema imunológico5 estão fortemente envolvidas nesse processo, o que leva Duncan a suspeitar que, na fase pós-reprodutiva, os ovários1 contribuem para isso liberando moléculas sinalizadoras inflamatórias. “É possível que essa mudança pós-reprodutiva não signifique nada, mas também é possível que esteja enviando esses sinais14 e se comunicando com outras partes do corpo”, diz ela.
Duncan ressalta que o estudo foi realizado apenas em camundongos, mas Diana Laird, da Universidade da Califórnia em São Francisco, suspeita que mudanças imunológicas semelhantes ocorram em humanos, dadas as semelhanças reprodutivas entre as duas espécies. “Ambos os organismos interrompem os ciclos quando sua reserva de oócitos (células germinativas15 femininas imaturas) cai abaixo de um limite crítico, e outras alterações, incluindo fibrose16 e aumento da inervação, são compartilhadas”, afirma ela.
Não está claro por que camundongos em envelhecimento teriam desenvolvido essa mudança de assinatura, diz Duncan, mas, se a mesma alteração ocorrer em humanos, pode ter sido vantajoso adquirir uma reserva de células4 imunológicas em uma época em que poucas pessoas chegavam à velhice. No entanto, isso pode levar à inflamação6 e até mesmo a doenças autoimunes17 na vida moderna.
As descobertas levantam questões sobre a importância dos ovários1 no período pós-menopausa2. Quando saudáveis, eles geralmente são mantidos no organismo, pois continuam a liberar hormônios como os andrógenos18, que ajudam a preservar a densidade mineral óssea e a libido19. Contudo, Laird afirma que o estudo reforça as evidências crescentes de que alterações imunológicas nos ovários1 podem estar por trás do aumento da inflamação6 causadora de problemas como a artrite reumatoide20 na pós-menopausa2. “Os resultados são um chamado para a realização de estudos detalhados e funcionais sobre os componentes celulares e moleculares do ovário21 pós-reprodutivo”, diz ela.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
O ovário21 pós-reprodutivo transita de um órgão reprodutivo para um órgão com características imunológicas
O envelhecimento reprodutivo em fêmeas caracteriza-se pelo esgotamento irreversível dos folículos ovarianos; no entanto, a estrutura e a função do ovário21 pós-reprodutivo permanecem pouco definidas. Por meio de análises histológicas22 e transcriptômicas em massa de ovários1 de camundongos fêmea reprodutivamente jovens (2 meses), reprodutivamente velhas (18 meses) e pós-reprodutivas (24 meses), mapeou-se como a identidade ovariana evolui após o esgotamento folicular.
Como esperado, observaram-se perda folicular, remodelação do estroma23 e aumento da deposição de colágeno24 nos grupos de animais reprodutivamente velhos e pós-reprodutivos. As análises transcriptômicas revelaram uma transição da funcionalidade reprodutiva para uma assinatura de dominância imunológica com o avanço da idade. Correspondentemente, os ovários1 pós-reprodutivos apresentaram maior infiltração de células4 T, macrófagos12 e células gigantes multinucleadas25.
Embora os ovários1 de animais velhos e na fase pós-reprodutiva tenham diferido substancialmente dos ovários1 jovens, eles também exibiram diferenças transcriptômicas distintas entre si, indicando que o ovário21 continua a sofrer alterações moleculares após a senescência reprodutiva.
Por fim, alterações dependentes da idade em fatores ovarianos que se prevê serem secretados sugerem que o ovário21 pós-reprodutivo pode ser uma fonte de mediadores de sinalização pró-inflamatória, com potencial para modular tecidos extra-ovarianos.
Essas descobertas desafiam a suposição de que o ovário21 pós-reprodutivo é inerte, indicando, em vez disso, que ele adquire uma identidade imunológica com potencial influência endócrina e parácrina no envelhecimento de todo o organismo.
Veja também sobre "O processo de envelhecimento", "Menopausa2 precoce e menopausa2 tardia" e "Riscos e benefícios da retirada dos ovários1".
Fontes:
Molecular Human Reproduction, Vol. 32, Nº 2, em 10 de junho de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 07 de julho de 2026.










