Psilocibina pode prevenir efeitos colaterais comuns e debilitantes da quimioterapia
A psilocibina pode prevenir um efeito colateral1 debilitante da quimioterapia2: danos aos nervos que causam dormência3, formigamento ou dor persistentes nas mãos4 e nos pés. Em testes realizados com amostras de nervos de camundongos e humanos, a substância psicodélica pareceu preservar o suprimento de energia nas terminações nervosas, algo frequentemente comprometido pela quimioterapia2, resultando em menos danos e menos complicações.
As descobertas foram publicadas na revista Science. Segundo os pesquisadores, esta é a primeira vez que se demonstra que uma terapia previne esse efeito colateral1 comum, para o qual não existem tratamentos eficazes e que pode limitar o acesso a medicamentos contra o câncer5.
“Se essas descobertas puderem ser replicadas em ensaios clínicos6, as implicações poderão ser significativas”, afirma Maria Maiaru, da Universidade de Reading, no Reino Unido, que não participou da pesquisa. “Os pacientes poderiam evitar problemas sensoriais duradouros e dores crônicas que frequentemente persistem mesmo após o tratamento bem-sucedido do câncer5.”
Além disso, “se for possível prevenir danos aos nervos, menos pacientes precisarão de redução de dose ou interrupção da quimioterapia2, o que pode melhorar os resultados do tratamento contra o câncer”, diz ela.
No entanto, pacientes com câncer5 não devem consumir psilocibina, o composto psicodélico dos cogumelos alucinógenos, sem supervisão médica. “Por favor, não tomem psilocibina em casa para tratar dores relacionadas à quimioterapia”, alerta Moran Amit, membro da equipe de pesquisa e integrante do MD Anderson Cancer5 Center da Universidade do Texas, em Houston, EUA. “Não há comprovação de segurança ou eficácia em pacientes submetidos à quimioterapia2. A substância pode interagir de forma perigosa com medicamentos oncológicos.”
A neuropatia periférica7 induzida pela quimioterapia2 (NPIQ) afeta, em algum grau, cerca de 75% dos pacientes com câncer5 submetidos a esse tipo tratamento, afirmou Patrick Dougherty, também do MD Anderson Cancer5 Center da Universidade do Texas, em uma coletiva de imprensa. Geralmente, ela é tratada com duloxetina, um antidepressivo que proporciona alívio moderado da dor. Contudo, até então, nenhum medicamento havia demonstrado capacidade de prevenir a NPIQ, ressaltou Amit durante a coletiva.
A NPIQ ocorre quando os medicamentos quimioterápicos penetram nas células nervosas8 e interferem nos mecanismos associados aos microtúbulos. Essas estruturas se assemelham a trilhos ferroviários e geralmente transportam mitocôndrias9 do corpo principal dos neurônios10, próximo à medula espinhal11, até as terminações nervosas na pele12. As mitocôndrias9 fornecem energia para manter essas terminações nervosas; no entanto, a interrupção desse transporte faz com que elas se desgastem e se retraiam, causando problemas como formigamento.
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Os pesquisadores investigaram se a psilocibina, substância que comprovadamente altera o metabolismo13 e o crescimento dos nervos, poderia preservar essas terminações nervosas.
Para isso, estudaram um grupo de camundongos com tumores abdominais. Metade deles recebeu duas doses de psilocibina (cada uma equivalente a uma dose de 25 miligramas para humanos) via injeção14 abdominal, com intervalo de uma semana entre elas. Os demais receberam injeções de solução salina. Em seguida, todos receberam injeções diárias de cisplatina, um tipo de quimioterapia2 que frequentemente causa NPIQ, durante uma semana.
Após receberem a cisplatina, os camundongos foram submetidos a testes de sensibilidade à dor, nos quais eram tocados por um fino filamento plástico para avaliar sua reação. Os animais que receberam psilocibina antes da cisplatina reagiram de forma semelhante a um terceiro grupo de camundongos com câncer5 que não recebeu nem cisplatina nem psilocibina. Já os camundongos que receberam cisplatina sem psilocibina mostraram-se muito mais sensíveis ao toque do filamento.
Para entender como a psilocibina exerce esse efeito, a equipe analisou amostras de nervos dos camundongos. A análise revelou que, após a substância psicodélica ser metabolizada em seu princípio ativo, a psilocina, ela ativa um receptor chamado 5-HT2A, confirmando descobertas de estudos anteriores. Além disso, constatou-se que esse receptor envia sinais15 moleculares que impedem a interrupção do transporte mitocondrial causada pela quimioterapia2.
Por fim, os pesquisadores confirmaram os resultados em neurônios10 humanos tratados com psilocibina ou solução salina antes da administração de cisplatina. “A psilocibina pareceu ajudar os nervos a resistir aos efeitos tóxicos da quimioterapia2 e a manter o funcionamento normal”, afirma Maiaru.
Ainda não se sabe se a psilocibina também poderia tratar ou reverter a neuropatia periférica7 já estabelecida, uma vez que o estudo avaliou seu uso como estratégia preventiva.
Agora, a equipe planeja iniciar um ensaio clínico randomizado16 e controlado em novembro de 2026. O estudo envolverá cerca de 80 pessoas com câncer5 de mama17, colorretal ou de cabeça18 e pescoço19, testando duas doses de psilocibina antes da quimioterapia2. A previsão é que os resultados sejam obtidos em cerca de cinco anos.
Já foi demonstrado que a psilocibina alivia sintomas20 de depressão e ansiedade em pessoas com câncer5. Embora não seja um psicodélico, a cannabis também é aprovada no Reino Unido para o tratamento da dor crônica associada ao câncer5. A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA também aprovou dois medicamentos compostos por substâncias químicas semelhantes às presentes na cannabis para aliviar náuseas21 e vômitos22 decorrentes da quimioterapia2.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Psilocibina previne a neuropatia periférica7 induzida pela quimioterapia2 por meio da preservação do tráfego mitocondrial
A neuropatia periférica7 induzida pela quimioterapia2 (NPIQ) é uma complicação comum, incapacitante e frequentemente irreversível do tratamento do câncer5, que afeta muitos pacientes submetidos a regimes baseados em platina ou taxanos. Os pacientes apresentam dor, sensibilidade ao frio, dormência3 e comprometimento da sensibilidade tátil, sintomas20 que podem persistir por anos e frequentemente forçam a redução da dose ou a interrupção de uma terapia que, de outra forma, salvaria vidas.
A condição decorre de lesões23 nos nervos sensoriais, disfunção mitocondrial, perda de terminações nervosas na pele12 e alterações desadaptativas nos circuitos centrais de processamento da dor. Apesar do enorme impacto clínico, não existe nenhuma estratégia preventiva comprovada.
A psilocibina é um composto de ocorrência natural encontrado em certas espécies de cogumelos que ativa os receptores de serotonina 2A. Esses receptores têm sido associados à plasticidade neuronal e à regulação mitocondrial, o que indica que a psilocibina poderia proteger o sistema nervoso24 sensorial contra lesões23 induzidas pela quimioterapia2. Visto que os danos aos nervos, uma vez estabelecidos, são frequentemente irreversíveis, a prevenção é uma abordagem mais viável do que o tratamento.
Portanto, investigou-se se a administração de psilocibina antes da quimioterapia2 poderia prevenir o desenvolvimento da neuropatia25, utilizando uma combinação de modelos comportamentais em camundongos, eletrofisiologia, imagem de células26 vivas, perfil molecular e análise de tecidos humanos para definir os mecanismos subjacentes.
Em modelos de camundongos, apenas duas doses de psilocibina administradas antes da quimioterapia2 preveniram o desenvolvimento de hipersensibilidade à dor causada por quimioterápicos neurotóxicos. Essa proteção se manteve ao longo de até seis ciclos consecutivos de quimioterapia2 e durante um período de acompanhamento de 8 meses. Um aspecto fundamental é que a psilocibina também protegeu camundongos portadores de tumores sem reduzir o crescimento tumoral ou alterar os níveis de citocinas27 imunes.
Utilizando ferramentas farmacológicas altamente seletivas, demonstrou-se que a ativação do receptor de serotonina 2A é necessária e suficiente para essa neuroproteção e que o efeito não depende das propriedades alucinógenas da psilocibina – um agonista28 não alucinógeno do receptor de serotonina 2A conferiu proteção equivalente.
Em termos mecanísticos, a psilocibina atuou por meio de duas vias complementares: perifericamente, preservou a estrutura e o suprimento energético das terminações nervosas sensoriais distais29, protegendo a função tátil e mantendo a densidade de fibras nervosas na pele12; centralmente, normalizou a atividade elétrica cortical alterada pela quimioterapia2.
Por meio de imagens em tempo real de mitocôndrias9 em nervos periféricos humanos recém-isolados de pacientes cirúrgicos e em neurônios10 sensoriais derivados de células-tronco30 humanas, constatou-se que a psilocibina preservou o transporte ativo de mitocôndrias9 ao longo dos axônios31, o processo pelo qual as fibras nervosas distribuem energia para suas terminações mais distantes e vulneráveis. A quimioterapia2 interrompeu esse transporte e esgotou a energia nas terminações nervosas distais29; a psilocibina preveniu ambos os efeitos.
Estudos moleculares associaram essa proteção a uma cascata de sinalização, a via TrkB-Akt-PAK5-MAP2-KIF5B, que sustenta o transporte mitocondrial ao longo dos axônios31 sensoriais. Neurônios10 sensoriais de doadores humanos e biópsias32 de pele12 de pacientes confirmaram, de forma independente, que essa rede envolvendo o receptor de serotonina 2A e o transporte mitocondrial é conservada em tecidos humanos.
Veja também sobre "Quimioterapia2: o que é", "Dormência3 ou formigamento - por que aparece?" e "Neuropatia periférica7".
O estudo concluiu que a psilocibina previne a neuropatia periférica7 induzida pela quimioterapia2 (NPIQ) ao ativar receptores de serotonina 2A em neurônios10 sensoriais periféricos, preservando o transporte axonal de mitocôndrias9 e o suprimento local de energia necessário para a sobrevivência33 das terminações nervosas. Esse mecanismo de neuroproteção periférica, até então desconhecido para a psilocibina, atua em conjunto com a preservação da função cortical central.
Visto que não existe atualmente nenhum tratamento preventivo34 eficaz e que a psilocibina possui um perfil de segurança clínica estabelecido, essas descobertas posicionam a psilocibina, e agonistas de receptores de serotonina 2A relacionados que não apresentam efeitos alucinógenos, como uma estratégia profilática pioneira em sua classe, justificando a realização de avaliações clínicas para prevenir uma das toxicidades mais comuns e subtratadas associadas à terapia contra o câncer5.
Fontes:
Science, Vol. 393, Nº 6815, em 03 de setembro de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 03 de setembro de 2026.










