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Enzima CRISPR incomum mata células cancerosas ao despedaçar seu DNA

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Cientistas exploraram uma enzima1 CRISPR peculiar para combater o câncer2 destruindo o DNA das células3 cancerígenas, levando-as à autodestruição.

A enzima1 pode ser programada para reconhecer um RNA mensageiro específico, como aquele produzido por uma célula4 cancerígena. Assim que a enzima1 encontra seu alvo, ela despedaça o genoma da célula4.

Essa abordagem de destruição do DNA, descrita em dois artigos na revista Nature, pode oferecer aos pesquisadores uma maneira de eliminar células3 cancerígenas que expressam proteínas5 mutantes “intratáveis”, ou seja, difíceis de atacar com medicamentos convencionais.

“É como um interruptor molecular de destruição que reconhece um RNA específico”, diz Yang Liu, biólogo molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Utah, em Salt Lake City, EUA, e um dos autores de um dos artigos. “Trata-se, basicamente, de uma quimioterapia6 programável.”

Uma terapia que utiliza essa abordagem para combater cânceres de cabeça7 e pescoço8 causados pelo papilomavírus humano (HPV) já está em fase inicial de desenvolvimento na Akribion Therapeutics, uma empresa de biotecnologia sediada em Zwingenberg, na Alemanha. O objetivo é obter os primeiros dados de ensaios clínicos9 até 2030, afirma o cofundador da empresa, Paul Scholz, que é chefe de pesquisa e desenvolvimento da Akribion e coautor de um dos artigos.

Defensores bacterianos

Os sistemas CRISPR ocorrem naturalmente em bactérias e outros microrganismos, atuando como um mecanismo de defesa imunológica. Alguns sistemas CRISPR utilizam RNAs que direcionam enzimas associadas ao CRISPR (Cas) para atacar trechos de DNA de vírus10 e outros invasores. A enzima1 Cas então corta o DNA, destruindo o invasor. Há mais de uma década, pesquisadores vêm aproveitando e modificando esses sistemas para editar genomas, criando seus próprios RNAs-guia para direcionar as enzimas Cas a locais específicos de edição.

No entanto, nem todas as enzimas Cas são iguais. Há quase dez anos, Ryan Jackson, bioquímico da Universidade Estadual de Utah em Logan, e seus colegas começaram a investigar o mecanismo de uma proteína Cas chamada Cas12a2. A suposição inicial, segundo ele, era de que a enzima1 funcionaria de forma muito semelhante a outras proteínas5 Cas utilizadas na edição genética.

Contudo, uma série de testes laboratoriais fracassou. “Pensamos: ‘Bem, ela não está se comportando como gostaríamos’”, conta Jackson. “Cheguei a acusar meus alunos de contaminarem a proteína.”

Com o tempo, ele e seus colegas, assim como outra equipe, perceberam que a Cas12a2 era diferente. Após reconhecer sequências de RNA que correspondiam ao seu RNA guia, ela entrava em ação desenfreada e degradava indiscriminadamente o DNA, fazendo com que a célula4 infectada parasse de crescer. Na natureza, isso poderia limitar a propagação de uma infecção11 pela população.

“Como diabos a natureza cria um truque desses?”, diz Rene Bernards, geneticista especializado em câncer2 do Instituto do Câncer2 dos Países Baixos, em Amsterdã. “Mas não importa. Podemos fazer bom uso disso.”

Leia sobre "Técnica CRISPR: como funciona" e "Oncogênese - Como se dá o processo de formação do câncer2".

Destruidor direcionado

Agora, duas equipes de pesquisadores fizeram exatamente isso. Ambas voltaram sua atenção para o câncer2 e, especificamente, para tumores impulsionados por proteínas5 mutantes que os cientistas têm dificuldade em atacar por meios convencionais.

Um grupo direcionou sua Cas12a2 para o RNA produzido pelas células3, incluindo aquelas com mutação12 no gene TP53, que está alterado em até metade de todos os casos de câncer2. O outro grupo teve como alvo o RNA produzido a partir de uma versão mutada do gene KRAS. Proteínas5 KRAS mutantes podem levar as células3 a um crescimento descontrolado e são responsáveis por alguns dos tipos de câncer2 mais letais.

Em ambos os casos, a Cas12a2 demonstrou uma especificidade notável, matando seletivamente células3 com as mutações associadas ao câncer2, mesmo quando a mutação12 diferia do RNA normal por apenas uma única letra. A abordagem funcionou em células3 humanas cultivadas em laboratório e, em camundongos vivos, reduziu tumores impulsionados pela mutação12 no TP53 ou causados pelo HPV.

Há um longo caminho a percorrer entre esses experimentos e uma terapia pronta para testes em humanos, diz Baojun Wang, biólogo sintético da Universidade de Zhejiang, em Hangzhou, na China. Mas o trabalho representa uma prova de conceito13 “marcante” para uma tecnologia promissora, afirma ele.

Liu diz que as aplicações poderiam ir além do câncer2, abrangendo doenças autoimunes14 e neurológicas. “Muitas coisas poderiam ser alvo dessa técnica”, diz ele, desde que envolvam um RNA específico.

Verificações de segurança

Ainda há barreiras a superar. A Cas12a2 precisa ser transportada para dentro das células3, uma tarefa difícil, pois é uma proteína relativamente grande. Além disso, serão necessários mais testes de segurança para garantir que a Cas12a2 não cause danos ao afetar células3 saudáveis, diz Wang. Nos experimentos realizados até o momento, a enzima1 demonstrou um alto grau de especificidade, eliminando apenas as células3 que produziam o RNA mutante.

Ainda assim, a tecnologia já promete ser mais seletiva do que as diversas quimioterapias comumente utilizadas, que matam quaisquer células3 em rápida divisão no organismo, afirma Jingkun Zeng, biólogo especializado em câncer2 do Gladstone Institutes em São Francisco, Califórnia, e coautor do artigo sobre a estratégia de direcionamento ao TP53. “Nossa tecnologia será muito mais específica”, diz ele.

Outra preocupação é que a enzima1 não eliminou todas as células3 cancerígenas nos experimentos, nem mesmo aquelas cultivadas em laboratório. Isso foi “um tanto desanimador”, diz Bernards. No entanto, ele acrescenta que uma terapia baseada em Cas12a2 poderia ser combinada com outros tratamentos contra o câncer2 para aumentar sua eficácia e reduzir as chances de o tumor15 desenvolver resistência à terapia.

Além disso, as abordagens baseadas em Cas12a2 ainda estão em estágio inicial. “Obviamente, ainda há espaço para aperfeiçoá-las”, diz ele. “Há um grande potencial.”

Confira a seguir os resumos dos artigos publicados.

Atacando mutações específicas do câncer2 por meio da fragmentação da cromatina16 desencadeada por RNA

Mutações genéticas que impulsionam o câncer2 frequentemente ocorrem em proteínas5 supressoras de tumor15, como o fator de transcrição p53, que está alterado em 40–50% dos casos. No entanto, as terapias atuais muitas vezes falham em atingir essas mutações, pois as proteínas5 mutantes tipicamente carecem de sítios de ligação a fármacos bem definidos, e restaurar sua função endógena tem se mostrado um desafio.

Neste estudo, programou-se a Cas12a2, uma nuclease CRISPR guiada por RNA com atividade de clivagem trans-nucleolítica, para eliminar células3 cancerígenas seletivamente, visando transcritos específicos do câncer2.

Essa abordagem limitou o crescimento celular ao induzir a fragmentação trans da cromatina16 e desencadear respostas a danos no DNA e a morte celular. Ao contrário dos métodos existentes, a Cas12a2 guiada por RNA detecta assinaturas de RNA celular, permitindo o direcionamento preciso a mutações consideradas não passíveis de tratamento farmacológico.

A fragmentação da cromatina16 ativada por transcritos oferece uma abordagem inovadora para tratamentos de precisão voltados a alvos que não podem ser abordados por fármacos convencionais.

Veja também sobre "Edição genética", "RNA mensageiro" e "Tratamento do câncer2".

Eliminação celular desencadeada por RNA com CRISPR–Cas12a2

A erradicação seletiva de células3-alvo com base em sua identidade genética ou transcricional continua sendo importante na pesquisa básica, na medicina, na biotecnologia e na agricultura. Para aplicações envolvendo bactérias, as nucleases CRISPR oferecem opções promissoras devido à sua capacidade de realizar contrasseleção guiada por RNA; no entanto, o uso dessas mesmas nucleases para contrasseleção em eucariotos tem se mostrado muito mais restrito.

Neste estudo, demonstrou-se que a Cas12a2, uma nuclease CRISPR do tipo V descoberta recentemente, promove a fragmentação do DNA desencadeada por RNA e possibilita a eliminação programável e específica para uma determinada sequência de células3 de levedura e humanas que expressam um transcrito-alvo.

A ativação da Cas12a2 provoca extensas quebras de DNA de fita dupla in trans, levando à morte celular. A eliminação das células3 pode ser desencadeada por uma ampla gama de transcritos-alvo, sem que tenha sido observada ativação fora do alvo.

Explorando essa abordagem, eliminou-se seletivamente células3 que abrigam o papilomavírus humano, células3 que não foram submetidas com sucesso à edição genética ou células3 que codificam uma mutação12 pontual oncogênica prevalente no gene KRAS.

Essas descobertas ampliam o conjunto de ferramentas CRISPR, permitindo a eliminação seletiva de células eucarióticas17 com base em seu perfil transcricional.

 

Fontes:
Estudo 1 – Nature, publicação em 08 de junho de 2026.
Estudo 2 – Nature, publicação em 06 de maio de 2026.
Nature, notícia publicada em 24 de julho de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Enzima CRISPR incomum mata células cancerosas ao despedaçar seu DNA. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1513695/enzima-crispr-incomum-mata-celulas-cancerosas-ao-despedacar-seu-dna.htm>. Acesso em: 30 ago. 2026.

Complementos

1 Enzima: Proteína produzida pelo organismo que gera uma reação química. Por exemplo, as enzimas produzidas pelo intestino que ajudam no processo digestivo.
2 Câncer: Crescimento anormal de um tecido celular capaz de invadir outros órgãos localmente ou à distância (metástases).
3 Células: Unidades (ou subunidades) funcionais e estruturais fundamentais dos organismos vivos. São compostas de CITOPLASMA (com várias ORGANELAS) e limitadas por uma MEMBRANA CELULAR.
4 Célula: Unidade funcional básica de todo tecido, capaz de se duplicar (porém algumas células muito especializadas, como os neurônios, não conseguem se duplicar), trocar substâncias com o meio externo à célula, etc. Possui subestruturas (organelas) distintas como núcleo, parede celular, membrana celular, mitocôndrias, etc. que são as responsáveis pela sobrevivência da mesma.
5 Proteínas: Um dos três principais nutrientes dos alimentos. Alimentos que fornecem proteína incluem carne vermelha, frango, peixe, queijos, leite, derivados do leite, ovos.
6 Quimioterapia: Método que utiliza compostos químicos, chamados quimioterápicos, no tratamento de doenças causadas por agentes biológicos. Quando aplicada ao câncer, a quimioterapia é chamada de quimioterapia antineoplásica ou quimioterapia antiblástica.
7 Cabeça:
8 Pescoço:
9 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
10 Vírus: Pequeno microorganismo capaz de infectar uma célula de um organismo superior e replicar-se utilizando os elementos celulares do hospedeiro. São capazes de causar múltiplas doenças, desde um resfriado comum até a AIDS.
11 Infecção: Doença produzida pela invasão de um germe (bactéria, vírus, fungo, etc.) em um organismo superior. Como conseqüência da mesma podem ser produzidas alterações na estrutura ou funcionamento dos tecidos comprometidos, ocasionando febre, queda do estado geral, e inúmeros sintomas que dependem do tipo de germe e da reação imunológica perante o mesmo.
12 Mutação: 1. Ato ou efeito de mudar ou mudar-se. Alteração, modificação, inconstância. Tendência, facilidade para mudar de ideia, atitude etc. 2. Em genética, é uma alteração súbita no genótipo de um indivíduo, sem relação com os ascendentes, mas passível de ser herdada pelos descendentes.
13 Prova de conceito: Prova de conceito (PoC ou Proof of Concept) é um termo utilizado para denominar um modelo prático que possa provar o conceito (teórico) estabelecido por uma pesquisa ou artigo técnico. Ela pode ser considerada uma implementação, em geral resumida ou incompleta, de um método ou de uma ideia, realizada com o propósito de verificar se o conceito ou a teoria em questão é susceptível de ser explorado de maneira útil.
14 Autoimunes: 1. Relativo à autoimunidade (estado patológico de um organismo atingido por suas próprias defesas imunitárias). 2. Produzido por autoimunidade. 3. Autoalergia.
15 Tumor: Termo que literalmente significa massa ou formação de tecido. É utilizado em geral para referir-se a uma formação neoplásica.
16 Cromatina: Também conhecida como cariotina. É a substância constituinte do cromossomo da célula eucarionte e composta de ADN, ARN e proteínas.
17 Células Eucarióticas: Células dos organismos superiores, contendo um núcleo verdadeiro delimitado por uma membrana nuclear.
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