Dermatologistas propõem acabar com o monitoramento laboratorial de rotina durante o tratamento com isotretinoína
Em um texto de opinião publicado no JAMA Dermatology, os autores defendem que o monitoramento laboratorial de rotina durante o tratamento com isotretinoína pode ser dispensado em pacientes saudáveis e sem fatores de risco, com a adoção de uma abordagem orientada por sintomas1 e pelo perfil clínico individual. O conteúdo integra a seção Viewpoint da revista e, portanto, apresenta uma análise argumentativa baseada nas evidências disponíveis.
No texto, os autores relatam que após décadas solicitando exames de sangue2 mensais para pacientes3 em uso de isotretinoína, os dermatologistas frequentemente adotam agora uma abordagem mais simplificada, verificando os níveis de alanina aminotransferase e triglicerídeos no início do tratamento e, posteriormente, uma única vez quando a dose atinge o pico. No entanto, será que a realização de exames laboratoriais de rotina é realmente necessária para todos os pacientes?
Evidências atuais
Diversas publicações recentes sugerem que não. A mais abrangente é uma revisão de 125 artigos demonstrando que os eventos adversos eram raros (<1 em 10.000 indivíduos) e de natureza idiossincrática, acompanhados de sintomas1 sistêmicos4 e/ou associados a uma condição preexistente identificável. Uma metanálise envolvendo 1.574 pacientes pediátricos com menos de 21 anos concluiu que a realização de exames baseada em fatores de risco pode ser mais adequada do que o monitoramento de rotina. Esse entendimento é reforçado por análises retrospectivas, incluindo um estudo de 2.682 exames de sangue2 de 165 crianças e uma revisão de resultados laboratoriais de 1.863 pacientes, que demonstraram a raridade de alterações laboratoriais clinicamente significativas e a segurança geral da isotretinoína.
Saiba mais sobre "Isotretinoína: prós e contras", "Acne5" e "Acne5 na mulher adulta".
O papel do monitoramento hepático
Sob outra perspectiva, vale considerar que o LiverTox, um banco de dados abrangente do National Institutes of Health (NIH), atribui à isotretinoína uma pontuação de probabilidade "D" (causa possível) para lesão6 hepática7 induzida por medicamentos (DILI – drug-induced liver injury). Ao comparar a isotretinoína com outros fármacos presentes nesse banco de dados, observa-se que vários medicamentos de uso comum apresentam maior probabilidade de hepatotoxicidade8 induzida por medicamentos e, ainda assim, não exigem monitoramento laboratorial. Para contextualizar, a pontuação de probabilidade “D” é definida da seguinte forma: “surgiram relatos de casos isolados associando o fármaco9 à lesão6, mas menos de 3 casos foram descritos na literatura, não foi identificado um padrão característico e os relatos de casos podem não ter sido muito convincentes”. Suspeita-se que as alterações nos exames de função hepática7 observadas durante o tratamento com isotretinoína representem, provavelmente, uma adaptação do organismo ao medicamento.
Outros fármacos frequentemente prescritos em dermatologia que possuem pontuação “D” incluem a espironolactona, a ivermectina e o aciclovir10. Compare isso a uma classificação “A”, observada com terbinafina, minociclina e paracetamol, que indica um fármaco9 com histórico bem conhecido e documentado de causar DILI, apresentando um perfil característico e mais de 50 casos relatados. Apesar da pontuação de probabilidade “A” para a terbinafina e de uma incidência11 estimada de DILI variando entre 1 em 50.000 e 1 em 120.000 prescrições, as evidências atuais sustentam uma abordagem de avaliação hepática7 baseada em sintomas1, em vez do monitoramento laboratorial de rotina. Vale ressaltar que, para a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA retirar um medicamento do mercado, a probabilidade de DILI deve ser superior a 1 em 10.000 prescrições, com base em dados de uma série de pelo menos 30.000 pacientes.
Embora, até onde se sabe, não tenha sido realizado nenhum estudo para avaliar a DILI em pacientes tratados com isotretinoína, o fato de apenas um caso de lesão6 hepática7 ter sido possivelmente atribuído à isotretinoína em todo o mundo, apesar de cerca de 10 milhões de pacientes terem recebido o tratamento somente nos EUA, sugere que a probabilidade de DILI associada à isotretinoína é próxima de zero.
O papel do monitoramento de lipídios
No caso dos triglicerídeos, a verificação dos níveis é realizada principalmente para monitorar elevações extremas que poderiam desencadear pancreatite12 aguda. No entanto, uma revisão sistemática concluiu que elevações extremas nos níveis de triglicerídeos eram extremamente raras, ocorrendo em apenas 4 pacientes tratados com isotretinoína, todos com mais de 35 anos de idade.
Um aspecto de maior relevância nesse estudo foi a constatação de que o risco de pancreatite12 idiossincrática associada à isotretinoína pode ser maior do que o risco de pancreatite12 aguda decorrente de hipertrigliceridemia. Entre os casos de pancreatite12 aguda relacionados ao uso de isotretinoína, 80% dos pacientes não apresentavam níveis elevados de triglicerídeos, o que reforça a classificação do fármaco9 como um agente raramente pancreatotóxico, independentemente dos níveis de triglicerídeos.
Modernizando a abordagem
Diante dessas informações, qual seria uma abordagem razoável? Primeiramente, ao aconselhar pacientes em uso de isotretinoína, os médicos devem deixar claro que o risco de efeitos adversos hepáticos ou pancreáticos significativos é baixo. Os prescritores devem investigar o histórico de doença hepática7, incluindo fatores de risco para doença hepática7 esteatótica associada à disfunção metabólica (síndrome metabólica13, pré-diabetes14 ou diabetes15, ou esteatose hepática16 em exames de imagem anteriores), ou o uso concomitante de substâncias hepatotóxicas, e solicitar exames laboratoriais basais para pacientes3 que apresentem quaisquer fatores de risco. Essa decisão exige uma conversa franca com os pacientes sobre o histórico médico e o consumo de álcool, inclusive na população pediátrica; tal diálogo pode ser desafiador e, por vezes, requer que os pais se retirem da sala para facilitar a discussão.
Para pacientes3 sem fatores de risco, recomenda-se adotar a abordagem de monitoramento hepático baseado em sintomas1, conforme discutido anteriormente para a terbinafina. Os pacientes devem ser orientados a interromper o uso da isotretinoína e buscar avaliação médica caso surjam sinais17 ou sintomas1 de hepatite18, como icterícia19, dor abdominal, sintomas1 semelhantes aos da gripe20, mal-estar geral, urina21 escura ou prurido22 intenso.
Quanto aos triglicerídeos, as diretrizes mais recentes da American Heart Association e do American College of Cardiology recomendam a realização de um único perfil lipídico23 entre os 9 e 11 anos de idade para rastreamento de dislipidemia familiar, e a repetição do exame a cada 5 anos para indivíduos com mais de 19 anos. Assim, se os pacientes já tiverem realizado o rastreamento lipídico com seu médico, a repetição do exame como parte do monitoramento laboratorial de rotina é desnecessária, podendo-se adotar o monitoramento baseado em sintomas1. Para pacientes3 pediátricos saudáveis que não tenham realizado exames laboratoriais prévios, recomenda-se seguir a abordagem baseada em sintomas1 e dispensar os exames laboratoriais basais, a menos que estejam presentes os fatores de risco mencionados anteriormente. Essa recomendação está alinhada às diretrizes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) para o início do uso de contraceptivos orais, medicamentos que, da mesma forma, são conhecidos por causar dislipidemia.
Alerta-se todos os pacientes para que interrompam imediatamente o uso de isotretinoína e busquem atendimento médico caso apresentem dor abdominal intensa, a fim de descartar pancreatite12 aguda; em casos de pancreatite12, os médicos devem determinar se a etiologia24 está relacionada à isotretinoína ou a outros fatores desencadeantes.
Os benefícios desse monitoramento baseado em sintomas1 podem incluir reduções significativas na ansiedade relacionada à saúde25 e nos custos. No que diz respeito à ansiedade relacionada à saúde25, pacientes e pais podem considerar inseguro um medicamento que exija monitoramento sanguíneo de rotina, além de poderem ter receio do procedimento de coleta de sangue2. Qualquer preocupação com alterações laboratoriais leves e transitórias também seria diminuída. Além disso, o custo é uma questão cada vez mais problemática com os planos de saúde25 de alta franquia. Profissionais de saúde25 têm a responsabilidade de gerir melhor os recursos de saúde25 e, quando a evidência justifica, aproveitar oportunidades para economizar, especialmente quando os esforços reduzem a sobrecarga financeira para os pacientes e para o sistema como um todo.
Alguns podem considerar essas recomendações precipitadas ou imprudentes, especialmente sob uma perspectiva médico-legal, apesar das evidências crescentes. A abordagem simplificada para o monitoramento laboratorial durante o uso de isotretinoína, aprovada por 22 especialistas em acne5 em um estudo de consenso Delphi, representou uma mudança monumental em direção à realização racional de exames. Eles basearam-se em estudos anteriores que fundamentaram suas recomendações e incluíram um consultor em hepatologia no processo, embora se possa argumentar que um painel composto por especialistas em hepatobiliarologia com direito a voto teria sido o cenário ideal. Esse ímpeto de simplificação, aliado a dados mais recentes, motiva os autores a se juntarem a outros especialistas para recomendar uma abordagem ainda mais minimalista.
Leia sobre "Acne5: como melhorar o aspecto da pele26", "Exames laboratoriais básicos de sangue2" e "Exames do fígado27 ou Provas de função hepática7".
Próximos passos
À medida que nos aproximamos de meio século desde a primeira aprovação da isotretinoína nos EUA, observa-se que, durante a maior parte desse tempo, os dermatologistas solicitaram monitoramento laboratorial de forma quase automática. Os protocolos simplificados representaram um grande avanço, mas, dadas as considerações mencionadas, acredita-se que a realização de exames pode ser ainda mais restrita.
Os autores do texto não são os primeiros a propor essa ideia; no entanto, ao combinar evidências atualizadas com o contexto da importância do tema e uma estrutura racional para orientar a conduta, eles esperam que os médicos ganhem confiança para dar os próximos passos rumo ao fim do monitoramento laboratorial de rotina para a isotretinoína.
Nesse processo, pesquisas futuras deverão avaliar os desfechos clínicos dos pacientes para determinar se estão alinhados com as evidências existentes. Caso esses estudos sejam consistentes com a literatura atual, os dados obtidos poderão embasar um novo refinamento das diretrizes de uso da isotretinoína.
Fonte: JAMA Dermatology, publicação em 08 de julho de 2026.










