Cientistas editam genes de embriões humanos com precisão surpreendente
Cientistas da Universidade de Columbia editaram o DNA de embriões humanos em estágio inicial com precisão sem precedentes, um feito que poderia abrir caminho para bebês1 modificados com características específicas.
Essa perspectiva alimenta polêmicas há anos. Por um lado, a tecnologia pode, um dia, permitir que pais corrijam com segurança mutações causadoras de doenças em embriões. Por outro, também pode ser usada para selecionar características desejadas, uma prática que alguns especialistas em ética classificam como nada menos que eugenia.
Dieter Egli, geneticista da Universidade de Columbia que liderou a pesquisa, defendeu a realização de um debate público sobre os prós e contras da alteração do DNA embrionário. “Como cientista, você fornece os dados para a discussão, mas, essencialmente, para por aí e deixa que outros assumam o processo”, disse ele.
Utilizando uma tecnologia mais recente chamada edição de bases, o Dr. Egli e seus colegas conseguiram substituir meticulosamente letras genéticas individuais em sequências de DNA, sem causar os danos frequentemente observados com uma forma anterior de edição genética, o CRISPR.
O Dr. Egli ressaltou que a pesquisa deixou muitas perguntas sem resposta sobre possíveis efeitos colaterais2 prejudiciais. “Não estamos dizendo que isso será usado em clínicas amanhã”, afirmou. Ele e sua equipe publicaram o estudo online como preprint, na plataforma bioRxiv. A pesquisa está passando por revisão para publicação em uma revista científica.
A possibilidade de editar o DNA de embriões humanos tornou-se objeto de sério debate há mais de uma década, após a invenção do CRISPR.
Em 2012, cientistas descobriram como criar moléculas personalizadas capazes de recortar um segmento específico do DNA. O CRISPR rapidamente se tornou uma ferramenta padrão para cientistas, uma maneira barata e fácil de descobrir como os genes funcionam por meio de alterações no genoma.
Várias empresas da área médica surgiram buscando utilizar a tecnologia para tratar doenças hereditárias. Em 2023, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou um tratamento baseado em CRISPR para a anemia falciforme3.
No entanto, os cientistas sabiam que a técnica não era perfeita. Em algumas células4, as moléculas de CRISPR não conseguiam encontrar seus alvos no DNA ou, por vezes, recortavam trechos genéticos incorretos.
Leia sobre "Doenças congênitas5, genéticas e hereditárias", "Genética - conceitos básicos" e "Mutações genéticas".
Essas preocupações não impediram o cientista chinês He Jiankui de usar o CRISPR para alterar o DNA de embriões humanos em 2018. Mais tarde, o Dr. He afirmou que seu objetivo era conferir às crianças resistência genética à infecção6 pelo HIV7. No entanto, especialistas condenaram seu trabalho, classificando-o como imprudente, e as autoridades chinesas o prenderam por três anos.
Em 2020, o Dr. Egli e seus colegas realizaram um experimento para observar como o CRISPR se comporta em embriões humanos. Eles obtiveram esperma8 doado por homens com uma mutação9 no gene EYS, causadora de cegueira hereditária. Os pesquisadores utilizaram esse esperma8 para fertilizar óvulos saudáveis, gerando embriões humanos que possuíam uma cópia funcional do gene EYS e uma cópia defeituosa. Em seguida, empregaram o CRISPR para remover a região mutante do EYS.
Estudos anteriores sugeriam que o embrião poderia reparar o gene utilizando a versão saudável como guia. Apenas alguns embriões realizaram esse reparo com sucesso, passando a ter duas cópias funcionais do EYS. No entanto, o reparo falhou em cerca de metade deles. Em alguns casos, houve a remoção de longos trechos de DNA; em outros, o cromossomo10 inteiro que abriga o gene EYS foi destruído. “As consequências foram absolutamente catastróficas”, disse o Dr. Egli.
Muitos cientistas e bioeticistas viram nesses resultados mais uma prova de que a edição de embriões humanos é arriscada demais para ser sequer considerada, pelo menos por enquanto.
Mas, em 2016, David Liu, geneticista da Universidade de Harvard, e seus colegas combinaram uma das moléculas CRISPR com outros compostos para criar a edição de bases, um novo método de edição genética. Em vez de cortar um segmento de DNA, os editores de bases faziam apenas um pequeno corte em uma das fitas. Eles podiam, então, orientar a célula11 a corrigir a mutação9.
A edição de bases mostrou-se, muitas vezes, superior aos métodos CRISPR anteriores. Em 2025, um bebê foi curado de um distúrbio genético potencialmente letal após receber um conjunto personalizado de moléculas de edição de bases.
O Dr. Egli decidiu testar a técnica em embriões humanos. Para os novos experimentos, ele e seus colegas propuseram-se a alterar dois genes. Um deles, chamado PCSK9, pode apresentar mutações que elevam os níveis de LDL12 no sangue13, e o risco de doenças cardíacas. O outro gene, HBG, regula a produção de hemoglobina14 em fetos.
O Dr. Egli e sua equipe introduziram os editores de bases em óvulos fertilizados e em embriões de duas células4 doados por pais. Os pesquisadores não detectaram nenhum dos danos extensos associados ao CRISPR. Em vez disso, conseguiram alterar com sucesso tanto o gene PCSK9 quanto o HBG. Em alguns experimentos, alteraram ambos os genes simultaneamente no mesmo embrião.
No entanto, as edições ainda não eram perfeitas. Às vezes, as moléculas de edição de bases não conseguiam localizar o DNA-alvo. Como resultado, algumas células4 dos embriões mantinham as versões originais dos genes, enquanto outras sofriam alterações. Esses embriões tornavam-se misturas genéticas, os chamados mosaicos. A presença de células4 com versões diferentes do mesmo gene poderia ter causado problemas de saúde15 caso os embriões tivessem se desenvolvido até o nascimento.
Apesar dessas falhas, os novos resultados foram suficientemente robustos para que a Dra. Paula Amato, especialista em fertilidade da Oregon Health & Science University, que não participou do estudo, considerasse o método “promissor”. Ainda assim, ela ressaltou a importância de examinar os resultados finais quando forem publicados em um periódico científico.
Ana Iltis, bioeticista da Universidade Wake Forest, expressou preocupação de que a avaliação da segurança de embriões submetidos à edição de bases exija um escrutínio muito mais rigoroso do que a simples busca por cromossomos16 danificados. “É possível que alguns dos efeitos potencialmente prejudiciais só se manifestem após o nascimento”, alertou ela.
Nathan Treff, diretor clínico da Nucleus Genomics e coautor do novo estudo, afirmou que a capacidade de corrigir mutações causadoras de doenças em embriões poderia ser uma grande vantagem para quem recorre à fertilização17 in vitro (FIV), permitindo a implantação de embriões que, de outra forma, teriam sido descartados. “Ainda há trabalho a ser feito antes de chegarmos a esse ponto, mas esta pesquisa nos aproxima dele”, disse o Dr. Treff.
A Nucleus Genomics apoiará a próxima etapa da pesquisa do Dr. Egli. Alguns estudos futuros buscarão maneiras de evitar a formação de embriões em mosaico. Os pesquisadores também testarão a edição de bases em embriões que contêm cerca de 100 células4. Clínicas de fertilidade geralmente congelam e analisam embriões nessa fase.
Saiba mais sobre "Edição genética", "Técnica CRISPR" e "Reprodução18 assistida".
Fyodor Urnov, geneticista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que não participou do estudo, afirmou que os resultados estavam alinhados com pesquisas anteriores sobre edição de bases em células4 vivas.
No entanto, a perspectiva de aplicar o método em embriões era, ao mesmo tempo, inédita e arriscada, observou o Dr. Urnov. Na FIV convencional, os embriões passam por triagem para detectar anomalias genéticas. Isso fazia muito mais sentido, argumentou ele, do que recorrer a uma nova técnica que ainda apresenta tantas questões em aberto. “Continuamos fazendo o que realizamos com segurança e eficácia 15 milhões de vezes desde 1978, ou tentamos algo cujos riscos são claros e que nunca poderemos realmente tornar isento de riscos?”, questionou ele.
O Dr. Urnov aventou a hipótese de que o novo método, uma vez aperfeiçoado, atrairia pessoas que não buscam apenas tratar doenças hereditárias, mas sim aprimorar características por meio da engenharia de embriões. “O que eles estão fazendo, na verdade, é fornecer aos ‘aprimoradores de bebês’ um manual de instruções para incursões que ultrapassam os limites éticos”, escreveu o Dr. Urnov em um e-mail.
No entanto, ainda não está definido se seria realmente possível alterar bebês1 dessa maneira. Muitas características humanas são influenciadas por centenas, ou milhares, de genes. O Dr. Egli observou que, quanto maior o número de genes que os cientistas tentam reescrever em um único embrião, maior é o risco de falha.
“Acredito que provavelmente seja possível combinar três ou quatro, talvez até cinco, mas acho que existe um limite”, disse ele. “Onde exatamente está esse limite é algo que ainda precisa ser determinado.”
Confira a seguir o resumo do estudo publicado online.
Edição de bases eficiente e desenvolvimento em embriões humanos sem alterações cromossômicas
Ferramentas baseadas em Cas9 permitem a introdução de lesões19 genéticas para investigar os desfechos do reparo do DNA e editar o genoma em loci relevantes para doenças. Quebras de fita dupla (QFDs) no DNA induzidas por CRISPR/Cas9 resultam frequentemente em aneuploidia20 e grandes deleções, revelando uma deficiência de reparo em embriões humanos em estágio inicial e limitando a aplicação clínica dessa tecnologia.
Neste estudo, avaliou-se os desfechos de reparo de DNA decorrentes de cortes de fita simples (nicks) e incompatibilidades de bases (mismatches) introduzidos por meio de editores de bases em embriões humanos em dois alvos: PCSK9 e HBG.
A edição foi eficiente e, ao contrário das QFDs induzidas por Cas9, não resultou em anormalidades cromossômicas ou grandes deleções. Pequenas inserções ou deleções após a edição de bases foram raras, e a atividade off-target dependeu do RNA guia.
A administração do editor de bases na forma de proteína durante a fertilização17 ou no estágio de pronúcleo permitiu o desenvolvimento normal até o estágio de blastocisto e a obtenção de linhagens de células-tronco21 editadas. Em nítido contraste, a introdução do editor como RNA resultou na interrupção precoce do desenvolvimento embrionário.
Esses resultados demonstraram que, diferentemente das QFDs, cortes de fita simples e incompatibilidades de bases são reparados de forma eficiente em embriões humanos, permitindo alterações específicas no alvo sem consequências genotóxicas.
Veja também sobre "Aconselhamento genético. Quem precisa dele" e "Exame genético".
Fontes:
bioRxiv, publicação em 01 de junho de 2026.
The New York Times, notícia publicada em 04 de junho de 2026.










