Transplantes fecais podem aumentar a eficácia dos tratamentos contra o câncer
Para pessoas que não respondem a um tipo de tratamento contra o câncer1, um transplante fecal de alguém que obteve sucesso com o medicamento pode aumentar suas chances de controle da doença. Alterar o microbioma2 intestinal tem efeitos indiretos no sistema imunológico3, o que pareceu ajudar a estabilizar tumores em um pequeno estudo com pessoas com câncer1 renal4.
No estudo, publicado na revista Nature Medicine, adultos com câncer1 renal4 que receberam transplantes de microbiota5 fecal, além dos medicamentos que já utilizavam, apresentaram melhores resultados do que aqueles que receberam um procedimento placebo6 como intervenção adicional.
O transplante de microbiota5 fecal (TMF) é um procedimento seguro que envolve a transferência de amostras de fezes de uma pessoa para o intestino de outra, com a esperança de melhorar a composição do microbioma2 intestinal. Ele é aprovado para o tratamento de infecções7 recorrentes por Clostridioides difficile resistentes a antibióticos no Reino Unido e nos EUA, e tem se mostrado promissor para outras condições, como a síndrome8 do intestino irritável.
No tratamento do câncer1, os medicamentos de imunoterapia conhecidos como inibidores de checkpoint podem ser eficazes, ajudando o sistema imunológico3 a destruir as células9 cancerígenas, mas não funcionam para todos. Estudos anteriores sugerem que pode ser benéfico um TMF de pessoas que respondem a esses medicamentos para pessoas que não respondem ao tratamento. “O microbioma2 é um forte regulador da imunidade10 do hospedeiro, então hipotetizamos que alterá-lo pode aumentar a imunidade10 para ajudar a combater o câncer”, diz Gianluca Ianiro, da Universidade Católica do Sagrado Coração11, em Roma, Itália.
Mas esses estudos geralmente se concentraram no melanoma12, um tipo de câncer1 de pele13, e não compararam os efeitos dos transplantes fecais com um placebo6. Para superar essas limitações, Ianiro e seus colegas recrutaram 45 adultos com câncer1 renal4 que haviam começado a tomar o inibidor de checkpoint pembrolizumabe mais o axitinibe, um medicamento que interrompe o suprimento sanguíneo dos tumores, nos últimos dois meses.
Em seguida, eles designaram aleatoriamente os participantes para receber um transplante de fezes – coletadas de um homem que entrou em remissão do câncer1 após receber inibidores de checkpoint – ou um procedimento placebo6 com solução salina, ambos administrados no intestino grosso14 por meio de um pequeno tubo inserido pelo ânus15.
Três e seis meses após o primeiro transplante, a maioria dos participantes recebeu mais duas doses do tratamento designado – TMF ou solução salina – desta vez em forma de comprimidos orais.
Saiba mais sobre "Tipos de câncer1 dos rins16", "Transplante de fezes ou terapia bacteriana" e "Microbioma2 intestinal humano".
No grupo do TMF, o câncer1 dos participantes permaneceu estável por dois anos, em média, após o primeiro transplante, em comparação com nove meses no grupo placebo6. Além disso, pouco mais da metade dos participantes do grupo do TMF apresentou redução do tamanho dos tumores, em comparação com apenas cerca de um terço no grupo placebo6.
“Isso fortalece significativamente a evidência de que o microbioma2 intestinal pode ser manipulado terapeuticamente para influenciar os resultados da imunoterapia”, afirma Hassane Zarour, da Universidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, EUA.
Ainda não está claro exatamente como o transplante fecal pode ter contribuído para o resultado, mas a análise de amostras de fezes coletadas dos participantes antes e depois do TMF sugere que ele introduziu uma espécie de bactéria17 intestinal chamada Blautia wexlerae, que produz ácidos graxos de cadeia curta conhecidos por promover células9 imunológicas anticancerígenas.
Os transplantes fecais também pareceram alterar os níveis de bactérias já presentes no intestino dos receptores. Por exemplo, reduziram os níveis de uma cepa18 de Escherichia coli que promove inflamação19 prejudicial e aumentaram os níveis de Ruminococcus bromii, que estimula o crescimento de outras bactérias que produzem ácidos graxos de cadeia curta.
As descobertas coincidem com outro pequeno estudo divulgado recentemente que mostrou que o TMF pode aumentar substancialmente os efeitos dos inibidores de checkpoint em pessoas com câncer1 de pulmão20 de células9 não pequenas, em comparação com aquelas que receberam apenas imunoterapia.
Esses estudos sugerem que os TMFs também podem funcionar contra outros tipos de tumores que respondem aos inibidores de checkpoint – como aqueles que afetam a bexiga21 e a região da cabeça22 e pescoço23 – mas são necessários grandes estudos randomizados e controlados para confirmar isso, afirma Arielle Elkrief, da Universidade de Montreal, no Canadá, que participou do estudo sobre câncer1 de pulmão20 de células9 não pequenas.
Segundo Ianiro, pesquisas adicionais também são necessárias para determinar exatamente quais cepas24 bacterianas presentes nas fezes são benéficas, o que poderia viabilizar a criação de amostras microbianas artificiais que possam ser produzidas em larga escala para o tratamento do câncer1.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Transplante de microbiota5 fecal associado a pembrolizumabe e axitinibe no carcinoma25 de células9 renais metastático: o estudo randomizado26 de fase 2 TACITO
O carcinoma25 de células9 renais (CCR) é uma neoplasia27 maligna comum, com respostas duradouras limitadas às terapias de primeira linha baseadas em inibidores de checkpoint imunológico (ICI). Evidências emergentes implicam o microbioma2 intestinal na modulação da eficácia dos ICI.
No estudo TACITO, de fase 2a, randomizado28, duplo-cego e controlado por placebo6, conduzido por investigadores, avaliou-se se o transplante de microbiota5 fecal (TMF) de pacientes com resposta completa aos ICI melhora os resultados clínicos em pacientes com CCR metastático (CCRm) sem tratamento prévio, que receberam pembrolizumabe + axitinibe.
O desfecho primário foi a taxa de pacientes livres de progressão da doença em 12 meses após a randomização (sobrevida29 livre de progressão [SLP] em 12 meses). Os desfechos secundários foram a SLP mediana e a sobrevida29 global mediana, a taxa de resposta objetiva (TRO), a segurança e as alterações no microbioma2 após a randomização.
Quarenta e cinco pacientes receberam aleatoriamente TMF de doador (TMF-d) ou TMF placebo6 (TMF-p). Embora o desfecho primário não tenha sido atingido (70% versus 41% para TMF-d versus TMF-p, respectivamente, P = 0,053), o desfecho secundário de SLP mediana foi significativamente maior com TMF-d (24,0 meses no braço TMF-d versus 9,0 meses no braço TMF-p; razão de risco = 0,50, P = 0,035). A TRO foi de 52% dos pacientes no braço TMF-d e de 32% dos pacientes que receberam placebo6.
A análise do microbioma2 confirmou o enxerto30 da cepa18 doadora e o aumento da α-diversidade e maiores alterações no microbioma2 (β-diversidade) em comparação com a composição basal no grupo de tratamento com TMF-d. A aquisição ou perda de cepas24 específicas, mas não o enxerto30 total, foi associada ao desfecho primário.
Esses achados corroboram a segurança e a potencial eficácia do transplante de microbiota5 fecal de doadores selecionados para potencializar o tratamento baseado em inibidores de checkpoint imunológico no carcinoma25 de células9 renais metastático, o que merece investigações adicionais.
Leia sobre "Bactérias do bem - o que elas têm a nos oferecer", "Imunoterapia" e "Conhecendo o sistema imunológico3".
Fontes:
Nature Medicine, publicação em 28 de janeiro de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 29 de janeiro de 2026.










