Gostou do artigo? Compartilhe!

Diabetes materno foi associado ao risco de epilepsia em crianças

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

Um estudo retrospectivo1 canadense, publicado na revista Pediatrics, mostrou que crianças nascidas de mães com qualquer subtipo de diabetes2 apresentaram risco aumentado de epilepsia3.

Em comparação com crianças não expostas, ao longo de 10,2 anos de acompanhamento, o risco de epilepsia3 foi maior para crianças expostas a um dos três tipos de diabetes2 materno durante a gestação, relataram Bénédicte Driollet, PhD, da Universidade McGill, em Montreal, e seus colegas:

“Nosso estudo reforça a hipótese de que fatores pré-natais podem contribuir para o início da epilepsia3 em crianças e que um desses fatores pode ser a exposição ao diabetes2 materno durante a gravidez”, disse Driollet.

As descobertas sugerem que crianças expostas ao diabetes2 materno no útero7 podem se beneficiar de um acompanhamento clínico mais rigoroso para detectar sinais8 precoces de epilepsia3, acrescentou ela.

O risco elevado de epilepsia3 pode refletir a relação entre o diabetes2 materno e complicações na gravidez9, como cesariana, parto prematuro, anomalias congênitas10, pré-eclâmpsia11 ou macrossomia12, que também estão associadas à epilepsia3 na prole.

“Essas complicações podem atuar como potenciais mediadoras na associação entre diabetes2 materno e risco de epilepsia3, embora este estudo não tenha avaliado formalmente as vias de mediação”, escreveram os pesquisadores.

Saiba mais sobre "Diabetes Mellitus13", "Epilepsias - o que são" e "Gravidez9 de risco: quando pode ocorrer".

Poucos estudos examinaram anteriormente o diabetes2 materno e a epilepsia3 infantil, apesar de o diabetes2 ser uma comorbidade14 comum durante a gravidez9.

“Na literatura, o diabetes2 materno tem sido associado a desfechos neurodesenvolvimentais adversos na prole, mas as evidências que o ligam à epilepsia3 permanecem limitadas e inconsistentes”, observou Driollet.

Uma metanálise de 2024, por exemplo, não encontrou nenhuma ligação entre diabetes gestacional6 e epilepsia3 na infância, mas outros estudos corroboraram a associação entre diabetes tipo 15 ou tipo 2 e aumento do risco de epilepsia3, observaram os pesquisadores.

“Até onde sabemos, este estudo foi o primeiro realizado na América do Norte a se interessar pela associação entre o diagnóstico15 de epilepsia3 em crianças e todos os subtipos de diabetes2 materno, pré-gestacional e gestacional, e a avaliar o possível impacto do diabetes2 materno prolongado”, disse Driollet.

“É necessário investigar mais a fundo essa associação, principalmente examinando16 os mecanismos subjacentes, como avaliar o efeito do diabetes2 mediado por diferentes complicações da gravidez9 no risco de epilepsia”, acrescentou.

No artigo publicado, os pesquisadores relatam que as evidências sobre a associação entre diabetes2 materno e distúrbios do neurodesenvolvimento na prole, particularmente epilepsia3, permanecem limitadas e heterogêneas. Além disso, a maioria dos estudos não distinguiu entre os subtipos de diabetes2 – tipo 1 (DM1), tipo 2 (DM2) e diabetes mellitus13 gestacional (DMG) – que têm etiologias distintas. Este estudo, portanto, examinou a associação entre esses subtipos de diabetes2 e epilepsia3 na prole.

Em uma coorte17 retrospectiva de nascimentos de todos os nascidos vivos em hospitais entre 2002 e 2018 em Ontário, a província mais populosa do Canadá, vinculada aos registros populacionais de saúde18 materno-infantil até março de 2020, estimou-se a associação bruta e ajustada entre DM1, DM2 e DMG e epilepsia3 em crianças menores de 18 anos usando modelos de riscos proporcionais de Cox. Examinou-se a robustez dos resultados usando análises quantitativas de viés.

Entre 2.105.553 crianças, 160.644 (7,6%) foram expostas ao diabetes2 materno (0,3% DM1; 1,2% DM2; 6,1% DMG). Durante um acompanhamento mediano de 10,2 anos, foram diagnosticados 17.853 casos de epilepsia3, metade dos quais com diagnóstico15 antes dos 3 anos de idade. Epilepsia3 foi definida como pelo menos um diagnóstico15 de internação hospitalar ou três ou mais diagnósticos ambulatoriais.

Após o ajuste para características socioeconômicas e clínicas maternas, as crianças expostas ao diabetes2 materno apresentaram um risco aumentado de epilepsia3 em todas as subcategorias de diabetes2 em comparação com aquelas não expostas (razão de risco ajustada [aHR] para DM2, 1,40; IC 95%, 1,24-1,58; aHR para DM1, 1,32; IC 95%, 1,03-1,69; e aHR para DMG, 1,14; IC 95%, 1,07-1,22).

O diabetes2 pré-gestacional tendeu a estar associado a epilepsias diagnosticadas em idades mais jovens, enquanto o diabetes gestacional6 pareceu estar ligado a um risco aumentado de epilepsia3 principalmente na adolescência.

Uma duração mais longa de DM1 ou DM2 foi associada a um risco aumentado. “Embora esperássemos diferenças mais acentuadas relacionadas ao diabetes2 materno prolongado, os resultados ainda sugeriram um risco maior de epilepsia3 com exposição mais longa”, observou Driollet. Esses resultados foram consistentes nas análises quantitativas de viés.

O estudo concluiu que o diabetes2 materno, particularmente o DM1 e o DM2, está associado a um risco aumentado de epilepsia3 na prole, sendo que uma duração mais longa da doença não mostrou uma amplificação significativa desse risco. Essas descobertas sugerem que exposições metabólicas e inflamatórias pré-natais podem contribuir para o desenvolvimento da epilepsia3.

As limitações do estudo incluíram a falta de informações sobre os subtipos de epilepsia3. Além disso, os pesquisadores reconheceram que o estudo se baseou em dados administrativos referentes a internações hospitalares e faturamento de consultas médicas.

Leia também sobre "Complicações do diabetes19" e "Avanços recentes no tratamento do diabetes2".

 

Fontes:
Pediatrics, Vol. 157, Nº 3, em março de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 04 de fevereiro de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Diabetes materno foi associado ao risco de epilepsia em crianças. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1500632/diabetes-materno-foi-associado-ao-risco-de-epilepsia-em-criancas.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Retrospectivo: Relativo a fatos passados, que se volta para o passado.
2 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
3 Epilepsia: Alteração temporária e reversível do funcionamento cerebral, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Quando restritos, a crise será chamada crise epiléptica parcial; quando envolverem os dois hemisférios cerebrais, será uma crise epiléptica generalizada. O paciente pode ter distorções de percepção, movimentos descontrolados de uma parte do corpo, medo repentino, desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente e até perder a consciência - neste caso é chamada de crise complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Existem outros tipos de crises epilépticas.
4 Diabetes tipo 2: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada tanto por graus variáveis de resistência à insulina quanto por deficiência relativa na secreção de insulina. O tipo 2 se desenvolve predominantemente em pessoas na fase adulta, mas pode aparecer em jovens.
5 Diabetes tipo 1: Condição caracterizada por altos níveis de glicose causada por deficiência na produção de insulina. Ocorre quando o próprio sistema imune do organismo produz anticorpos contra as células-beta produtoras de insulina, destruindo-as. O diabetes tipo 1 se desenvolve principalmente em crianças e jovens, mas pode ocorrer em adultos. Há tendência em apresentar cetoacidose diabética.
6 Diabetes gestacional: Tipo de diabetes melito que se desenvolve durante a gravidez e habitualmente desaparece após o parto, mas aumenta o risco da mãe desenvolver diabetes no futuro. O diabetes gestacional é controlado com planejamento das refeições, atividade física e, em alguns casos, com o uso de insulina.
7 Útero: Orgão muscular oco (de paredes espessas), na pelve feminina. Constituído pelo fundo (corpo), local de IMPLANTAÇÃO DO EMBRIÃO e DESENVOLVIMENTO FETAL. Além do istmo (na extremidade perineal do fundo), encontra-se o COLO DO ÚTERO (pescoço), que se abre para a VAGINA. Além dos istmos (na extremidade abdominal superior do fundo), encontram-se as TUBAS UTERINAS.
8 Sinais: São alterações percebidas ou medidas por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida.
9 Gravidez: Condição de ter um embrião ou feto em desenvolvimento no trato reprodutivo feminino após a união de ovo e espermatozóide.
10 Congênitas: 1. Em biologia, o que é característico do indivíduo desde o nascimento ou antes do nascimento; conato. 2. Que se manifesta espontaneamente; inato, natural, infuso. 3. Que combina bem com; apropriado, adequado. 4. Em termos jurídicos, é o que foi adquirido durante a vida fetal ou embrionária; nascido com o indivíduo. Por exemplo, um defeito congênito.
11 Pré-eclâmpsia: É caracterizada por hipertensão, edema (retenção de líquidos) e proteinúria (presença de proteína na urina). Manifesta-se na segunda metade da gravidez (após a 20a semana de gestação) e pode evoluir para convulsão e coma, mas essas condições melhoram com a saída do feto e da placenta. No meio médico, o termo usado é Moléstia Hipertensiva Específica da Gravidez. É a principal causa de morte materna no Brasil atualmente.
12 Macrossomia: Refere-se de forma imprecisa aos bebês com peso igual ou superior a 4 quilos. Mães diabéticas podem ter filhos macrossômicos.
13 Diabetes mellitus: Distúrbio metabólico originado da incapacidade das células de incorporar glicose. De forma secundária, podem estar afetados o metabolismo de gorduras e proteínas.Este distúrbio é produzido por um déficit absoluto ou relativo de insulina. Suas principais características são aumento da glicose sangüínea (glicemia), poliúria, polidipsia (aumento da ingestão de líquidos) e polifagia (aumento da fome).
14 Comorbidade: Coexistência de transtornos ou doenças.
15 Diagnóstico: Determinação de uma doença a partir dos seus sinais e sintomas.
16 Examinando: 1. O que será ou está sendo examinado. 2. Candidato que se apresenta para ser examinado com o fim de obter grau, licença, etc., caso seja aprovado no exame.
17 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
18 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
19 Complicações do diabetes: São os efeitos prejudiciais do diabetes no organismo, tais como: danos aos olhos, coração, vasos sangüíneos, sistema nervoso, dentes e gengivas, pés, pele e rins. Os estudos mostram que aqueles que mantêm os níveis de glicose do sangue, a pressão arterial e o colesterol próximos aos níveis normais podem ajudar a impedir ou postergar estes problemas.
Gostou do artigo? Compartilhe!