Reparo intrauterino de espinha bífida grave com células-tronco mostra resultados promissores
A espinha bífida1, uma condição congênita2, é frequentemente tratada cirurgicamente ainda no útero3, mas muitas crianças continuam apresentando problemas de mobilidade. A adição de um adesivo composto por células-tronco4 de placentas doadas pode melhorar os resultados a longo prazo, de acordo com um estudo publicado no The Lancet.
O adesivo foi usado para tratar fetos no útero3 com uma forma grave de espinha bífida1, como parte de um estudo pioneiro mundial. A nova abordagem parece ter revertido uma complicação cerebral associada à condição congênita2 com eficácia pelo menos igual à do tratamento padrão, mas espera-se que permita que mais crianças andem a longo prazo.
A mãe de um dos bebês5, que agora tem 4 anos, diz que esperava que seu filho Toby precisasse de uma cadeira de rodas quando foi diagnosticado com a condição ainda no útero3. “Mas Toby é saudável e atingiu todos os marcos do desenvolvimento – ele anda, corre e pula – e não tem problemas com o controle da bexiga6, o que é raro para pessoas com essa condição”, afirma.
A espinha bífida1 – que no Brasil afeta cerca de 1 em cada 4.100 nascimentos – ocorre quando a coluna vertebral7 e a medula espinhal8 do bebê não se desenvolvem completamente no útero3. Na forma mais grave da condição, chamada mielomeningocele9, a medula espinhal8 e o tecido10 circundante se projetam através de uma abertura nas vértebras, o que frequentemente prejudica a mobilidade e o controle intestinal e da bexiga6. A causa da espinha bífida1 é desconhecida, mas a deficiência de ácido fólico durante a gravidez11 aumenta o risco.
Um dos tratamentos padrão envolve uma cirurgia intrauterina que reposiciona a medula espinhal8 e o tecido10 circundante dentro das vértebras, antes de suturar a pele12 para formar uma vedação hermética. “Mas muitas crianças ainda acabam sem conseguir andar e, geralmente, não há melhora no controle intestinal ou da bexiga”, diz Diana Farmer, da Universidade da Califórnia, Davis.
Isso levou Farmer e seus colegas a se perguntarem se a adição de células-tronco4 poderia ajudar, promovendo o crescimento e o reparo do tecido10 espinhal. Para descobrir, eles recrutaram seis mulheres grávidas com fetos com mielomeningocele9.
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Por volta da 24ª semana de gestação, todos os fetos desenvolveram uma complicação comum chamada herniação14 da fossa posterior, na qual ocorre um acúmulo excessivo de líquido no crânio15, empurrando a parte inferior do cérebro16, o cerebelo17, através de um orifício na base do crânio18. A cirurgia padrão geralmente ajuda a reverter a herniação14 da fossa posterior, mas muitas crianças ainda apresentam complicações.
No ensaio clínico mais recente, todos os fetos foram submetidos à cirurgia padrão, mas também receberam um adesivo, medindo alguns centímetros de comprimento, que continha células-tronco4 alogênicas vivas derivadas de placentas doadas, incorporadas em uma matriz de proteínas19 adesivas. Os cirurgiões colocaram esse adesivo sobre a coluna vertebral7 antes que a pele12 fosse suturada ao redor. “As células20 secretam seu suco mágico de células20-tronco”, diz Farmer.
Ao nascer, o local da cirurgia havia cicatrizado bem em todos os bebês5, sem evidências de vazamento de líquido cefalorraquidiano21, infecção22 ou sinais23 de crescimento celular anormal. “Uma das principais preocupações era que a adição de células-tronco4 em um feto24 fizesse com que as células20 crescessem descontroladamente, mas não observamos isso”, diz Farmer. Exames de ressonância magnética25 dos cérebros dos bebês5 também mostraram que o tratamento reverteu completamente a herniação14 da fossa posterior, sem nenhuma evidência de formação de tumor26.
“Minha opinião pessoal é que isso melhorará os resultados a longo prazo em comparação com a abordagem padrão, com base em evidências de estudos com animais”, diz Panicos Shangaris, do King’s College London.
Os pesquisadores esperam avaliar isso em um ensaio clínico no qual 35 fetos com mielomeningocele9 receberão o adesivo de células-tronco4, e seus resultados serão comparados com um estudo anterior que utilizou a cirurgia convencional, diz Farmer.
Mas Shangaris afirma que uma comparação melhor, que tem maior probabilidade de levar à aprovação do tratamento, seria comparar as duas abordagens em um ensaio clínico direto que avalie sua segurança e eficácia em fetos aleatoriamente designados para cada intervenção.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Viabilidade e segurança da terapia celular para reparo intrauterino de mielomeningocele9 (Ensaio Clínico CuRe): um estudo de fase 1, de braço único, inédito em humanos.
O estudo MOMS (Management of Myelomeningocele Study) estabeleceu o benefício do reparo intrauterino da mielomeningocele9, com uma menor necessidade de colocação de derivação ventriculoperitoneal. No entanto, embora tenha havido alguma melhora na função motora, mais da metade dos pacientes não conseguiu deambular27 de forma independente.
Células-tronco4 mesenquimais28 derivadas da placenta (CTMPs) vivas, semeadas em uma matriz extracelular, mostraram-se promissoras na recuperação da função neurológica no modelo fetal ovino de mielomeningocele9. O objetivo deste estudo foi avaliar a segurança desse novo produto de células-tronco4 vivas para auxiliar no reparo pré-natal da mielomeningocele9.
Neste estudo de fase 1, o primeiro em humanos, de dose única e braço único, gestantes com fetos diagnosticados com mielomeningocele9 foram recrutadas de forma escalonada na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), em Sacramento (CA, EUA). Os critérios de elegibilidade foram idade gestacional de 19 a 26 semanas, limite superior do defeito da mielomeningocele9 entre T1 e S1, herniação14 da fossa posterior demonstrada por ressonância magnética25 e cariótipo normal.
O reparo intrauterino da mielomeningocele9 foi realizado com uma dose única de CTMPs humanas alogênicas semeadas em uma matriz extracelular (Cook Biodesign Dural Graft [da empresa Cook Biotech]) e aplicadas topicamente. As CTMPs foram geradas a partir de placentas doadas coletadas de pacientes que consentiram no UC Davis Medical Center, e as células20 foram testadas quanto à identidade, esterilidade29 e viabilidade 72 horas antes da cirurgia.
Os desfechos primários de segurança incluíram a avaliação do local de reparo da mielomeningocele9 quanto à cicatrização, vazamento de líquido cefalorraquidiano21, infecção22 e crescimento anormal inesperado ou formação de tumor26.
Entre 21 de junho de 2021 e 5 de dezembro de 2022, seis mulheres com fetos com idades gestacionais entre 24+5 semanas e 25+5 semanas foram incluídas no estudo. Os recém-nascidos nasceram com uma idade gestacional mediana de 34+5 semanas (variação de 33+2 semanas a 36+6 semanas) por cesariana.
Ao nascer, todos os bebês5 apresentavam um local de reparo intacto, sem evidências de vazamento de líquido cefalorraquidiano21, infecção22 ou crescimento anormal de tecido10. Após o tratamento, as ressonâncias magnéticas mostraram reversão da herniação14 da fossa posterior e nenhuma evidência de formação tumoral. Não ocorreram eventos adversos mediados por células20.
Este tratamento inédito em humanos, composto por células-tronco4 alogênicas vivas, não apresentou efeitos adversos relacionados às células20. A terapia foi considerada suficientemente segura para prosseguir com o recrutamento não escalonado de 35 pacientes em um ensaio clínico de fase 1/2a.
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Fontes:
The Lancet, Vol. 407, Nº 10531, em 28 de fevereiro de 2026.
New Scientist, notícia publicada em 26 de fevereiro de 2026.










