Abordagem direcionada pode substituir a quimioterapia em transplantes de células-tronco
O transplante de células-tronco1 (também chamado de transplante de medula óssea2) e a terapia gênica estão entre os tratamentos mais eficazes para doenças do sangue3, como anemia falciforme4, beta-talassemia5, imunodeficiências e alguns tipos de câncer6 no sangue3. Substituir ou corrigir as células-tronco1 formadoras de sangue3 oferece a possibilidade de benefícios duradouros ou até mesmo a cura.
No entanto, antes de receberem essas terapias, os pacientes geralmente precisam passar por quimioterapia7 ou radioterapia8 intensivas, e frequentemente tóxicas, para abrir espaço na medula óssea2 para as novas células-tronco1. Em um estudo liderado por pesquisadores da Harvard Medical School, do Boston Children’s Hospital e do Dana-Farber Cancer6 Institute, publicado na revista Nature, a equipe descreveu uma nova estratégia para tornar os transplantes de células-tronco1 mais seguros, substituindo o tratamento baseado em quimioterapia7 por uma abordagem mais direcionada.
Em vez de utilizar agentes tóxicos que danificam o DNA em todo o organismo, eles empregaram anticorpos9 capazes de reconhecer marcadores específicos nas células-tronco1 formadoras de sangue3 presentes na medula óssea2. Esses anticorpos9 podem ajudar a eliminar as células-tronco1 originais do paciente de maneira mais seletiva e menos arriscada.
O trabalho ainda está em fase pré-clínica, mas limitar ou substituir a quimioterapia7 nos transplantes de células-tronco1 poderia tornar esses tratamentos acessíveis a novos grupos de pacientes.
“Ao evitar a quimioterapia7, podemos viabilizar transplantes de células-tronco1 para doenças menos graves ou para pacientes10 frágeis que, normalmente, estariam doentes demais ou apresentariam riscos elevados demais para o procedimento”, afirmou o primeiro autor do estudo, Gabriele Casirati, instrutor de pediatria da Harvard Medical School no Boston Children’s.
Leia sobre "Hemoglobinopatias11 - como elas são", "Células-tronco1" e "Antígenos12 e anticorpos9 - o que são".
Camuflagem molecular para células13 terapêuticas
O desafio no uso de anticorpos9 é que eles não conseguem distinguir facilmente entre as células-tronco1 originais do paciente e as células-tronco1 terapêuticas infundidas durante o tratamento. Se o anticorpo14 permanecer no organismo, ele pode acabar atacando também as células13 transplantadas. O autor sênior15, Pietro Genovese, professor assistente de pediatria da Harvard Medical School no Boston Children’s, e sua equipe resolveram esse problema conferindo às células-tronco1 terapêuticas uma forma de proteção molecular.
Utilizando ferramentas precisas de edição genômica, eles modificaram um pequeno sítio de reconhecimento, chamado epítopo, na superfície das células-tronco1 do doador. Essa pequena alteração impediu que o anticorpo14 se ligasse às células13 terapêuticas, sem comprometer sua função normal. Em essência, as células-tronco1 editadas receberam uma camuflagem molecular: elas conseguiam se ocultar do anticorpo14, enquanto as células13 não editadas permaneciam vulneráveis.
Os pesquisadores combinaram a edição de epítopos com edições terapêuticas para aumentar a hemoglobina16 fetal, uma forma saudável de hemoglobina16 capaz de compensar a hemoglobina16 adulta defeituosa presente na doença falciforme e na beta-talassemia5.
Os resultados demonstraram que as células-tronco1 protegidas conseguem sobreviver ao tratamento com anticorpos9, integrar-se à medula óssea2 e aumentar sua proporção gradualmente ao longo do tempo. Isso cria uma nova maneira não apenas de abrir espaço para as células13 transplantadas, mas também de favorecer seletivamente as células13 terapêuticas após o transplante.
Tratamentos mais seguros e acessíveis
Este trabalho pode ajudar a viabilizar abordagens de transplante que dispensem a quimioterapia7 ou reduzam a necessidade dela, diminuindo a carga do tratamento para pacientes10 que atualmente enfrentam os riscos de danos ao DNA. Além disso, como o anticorpo14 pode continuar selecionando as células13 protegidas após o transplante, a estratégia poderia ajudar as células-tronco1 terapêuticas a atingir os níveis necessários para proporcionar benefícios clínicos.
Em um estudo anterior publicado na revista Nature, a equipe utilizou o mesmo princípio geral de edição de epítopos para proteger células-tronco1 sanguíneas saudáveis contra imunoterapias potentes contra o câncer6, como células13 CAR-T ou anticorpos9 terapêuticos. Essas terapias atacavam as células13 leucêmicas, preservando as células-tronco1 sanguíneas.
Em conjunto, esses estudos sugerem que a edição de epítopos pode se tornar uma plataforma versátil. Uma aplicação poderia tornar o transplante de células-tronco1 e a terapia gênica mais seguros, enquanto outra poderia ampliar o uso da imunoterapia contra o câncer6, protegendo a formação normal de sangue3 contra danos não intencionais.
“Embora este trabalho ainda esteja em fase pré-clínica, ele aponta para um futuro no qual os pacientes poderão receber terapias curativas com células-tronco1 apresentando menor toxicidade17, menor dependência de quimioterapia7 e maior precisão”, afirmou Genovese. “Essa estratégia oferece uma nova estrutura para tratamentos mais seguros e acessíveis para uma ampla gama de doenças do sangue3.”
Saiba mais sobre "Transplante de medula óssea2: o que é" e "Edição genética - O que é e para o que ela serve".
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Transplante não genotóxico e seleção in vivo por meio de edição de epítopos
Os efeitos de curto e longo prazo do condicionamento genotóxico pré-transplante permanecem como barreiras para a aplicação mais ampla do transplante de células-tronco1/progenitoras hematopoiéticas (HSPCs, do inglês haematopoietic stem/progenitor cell) e de terapias gênicas.
Embora anticorpos9 monoclonais direcionados ao receptor KIT (c-KIT/CD117) tenham sido propostos como alternativas à quimioterapia7 ou à radioterapia8, sua farmacocinética dificulta a aplicação clínica devido ao risco de depleção18 das HSPCs transplantadas.
Neste estudo, para abordar essa questão, identificou-se alterações de aminoácidos no domínio extracelular do KIT que impedem a ligação de dois anticorpos9 monoclonais terapêuticos, os quais, normalmente, prejudicam a sinalização mediada pelo fator de célula-tronco19 (SCF) sem afetar a expressão ou a funcionalidade do KIT.
Utilizou-se a edição de bases de adenina ou a prime editing para introduzir eficientemente essas mutações em HSPCs e combinou-se essas estratégias com a inativação do enhancer eritroide do gene BCL11A, a fim de promover a expressão da hemoglobina16 fetal (HbF), uma abordagem terapêutica20 para diversas hemoglobinopatias11.
Essa estratégia possibilita a coseleção in vivo de células13 geneticamente modificadas, de modo que elas atinjam o limiar necessário para proporcionar benefício terapêutico em pacientes afetados pela doença falciforme e pela β-talassemia5.
Demonstrou-se o enriquecimento progressivo da hematopoiese com edição multiplexada de KIT e BCL11A sob pressão seletiva exercida por um anticorpo14 monoclonal anti-KIT, tanto in vitro quanto in vivo. Observou-se que o tratamento prolongado com regimes anti-KIT leva a um enriquecimento in vivo superior, sem induzir seleção clonal, conforme avaliado por uma biblioteca lentiviral com códigos de barras.
Por fim, ao superar as limitações farmacocinéticas dos anticorpos9 monoclonais, a edição de epítopos viabiliza novos regimes de substituição hematopoiética que não são limitados pela eliminação do enxerto21 decorrente da ação sobre o próprio alvo, permitindo um condicionamento imunológico prolongado que maximiza a eliminação dos nichos hematopoiéticos sem quimiorradioterapia nem necessidade de um período de depuração (wash-out) do anticorpo14 monoclonal.
Fontes:
Nature, publicação em 08 de julho de 2026.
Harvard Medical School, notícia publicada em 17 de julho de 2026.










