Restauração da audição por meio de terapia gênica para surdez hereditária dura anos, segundo novos resultados de ensaios clínicos
Uma terapia gênica experimental para uma forma rara de surdez genética restaurou com sucesso a audição em crianças e adultos, com melhorias que duram pelo menos 2,5 anos, de acordo com um estudo publicado na revista Nature.
O estudo, co-liderado por investigadores da Harvard Medical School no Massachusetts Eye and Ear e por pesquisadores do Hospital de Olhos1 e Otorrinolaringologia da Universidade de Fudan, na China, corrigiu mutações no gene OTOF, um dos cerca de 200 genes cujas mutações são conhecidas por causar surdez congênita2.
Pacientes com 18 anos ou menos apresentaram os maiores ganhos em audição e capacidade de reconhecimento da fala. Adultos que receberam a terapia também apresentaram melhorias, embora o efeito tenha sido menor.
No geral, 90% dos participantes tiveram melhora na audição, com metade atingindo níveis normais ao final do estudo, após 2,5 anos.
“O quão bem funcionou é realmente incrível”, disse Zheng-Yi Chen, coautor sênior3 do artigo e professor associado de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça4 e pescoço5 da Harvard Medical School no Massachusetts Eye and Ear. “Após dois anos e meio, mais da metade deles atingiu um nível normal. Eles conseguem ouvir um sussurro. Nesse nível, é melhor que a minha audição.”
Em todo o mundo, cerca de 430 milhões de pessoas são afetadas por perda auditiva grave o suficiente para exigir reabilitação, incluindo 34 milhões de crianças, segundo a Organização Mundial da Saúde6.
Sessenta por cento dos casos de surdez em recém-nascidos têm causas genéticas, sendo a mutação7 no gene OTOF responsável por entre 2% e 8% dos casos. Bebês8 com a mutação7 OTOF nascem completamente surdos, o que afeta a aquisição da fala e pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo9, a menos que recebam um implante10 coclear ainda pequenos.
No momento em que os resultados do estudo foram publicados, não havia medicamentos aprovados para tratar mutações no gene OTOF ou qualquer outra forma de surdez congênita2.
No dia seguinte à publicação, a FDA dos Estados Unidos anunciou a aprovação de uma terapia gênica para o gene OTOF desenvolvida por outra equipe. O Boston Children’s Hospital é um dos centros participantes dos ensaios clínicos11 dessa terapia, desenvolvida pela Regeneron para crianças, assim como de outras terapias genéticas para perda auditiva. A. Eliot Shearer, professor associado de otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça4 e pescoço5 da Harvard Medical School no Boston Children’s Hospital, é um dos principais investigadores desses ensaios.
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“O sucesso da terapia gênica OTOF representa uma mudança de paradigma no tratamento da perda auditiva”, afirmou Yilai Shu, coautor sênior3 do estudo publicado na revista Nature com Chen.
Os ensaios comprovam que abordagens personalizadas de terapia genética podem ser desenvolvidas para surdez congênita2 causada por diferentes mutações genéticas, disse ele.
Embora a mutação7 do gene OTOF seja responsável por uma proporção relativamente pequena de surdez hereditária, Chen, Shu e seus colegas afirmaram que a plataforma desenvolvida em seu trabalho pode ser modificada para corrigir outros genes implicados na surdez. Eles já estão adaptando a técnica para tratar a surdez causada por mutações no gene GJB2, a causa mais comum de perda auditiva genética.
Um ensaio clínico ampliado
Este estudo, que recrutou 42 participantes com idades entre 9 meses e 32 anos em oito locais na China, é o maior ensaio clínico de terapia genética para perda auditiva hereditária até o momento e o de acompanhamento mais longo relatado até agora.
O trabalho se baseia em uma pesquisa publicada em 2024 que testou a terapia em um pequeno grupo de crianças. Esses ensaios resultaram em melhorias rápidas o suficiente para surpreender os pesquisadores e emocionar os pais, que viram seus filhos passarem da surdez completa à capacidade de responder a vozes em apenas algumas semanas.
“À medida que o acompanhamento avança, essas crianças continuam nos surpreendendo”, disse Shu. “Elas progridem de responder a sons, a imitar a fala, a falar em frases curtas e, em seguida, a recitar poemas e até cantar. Elas sempre nos enchem de alegria e encorajamento.”
Este ensaio clínico mais recente incluiu três adultos, dois dos quais apresentaram recuperação auditiva, embora menor do que a observada nos participantes mais jovens.
“É muito encorajador ver melhorias significativas em alguns pacientes adultos”, disse Chen. “Isso sugere que o sistema auditivo humano pode ter mais flexibilidade do que esperávamos.”
A terapia tem como alvo uma condição chamada DFNB9, causada pela mutação7 no gene OTOF. O gene OTOF codifica a proteína otoferlina, ativa em uma estrutura em forma de caracol no ouvido interno12 chamada cóclea. Lá, as ondas sonoras são traduzidas em sinais13 elétricos que, com a ajuda da otoferlina, são transmitidos aos nervos e ao cérebro14. Sem o funcionamento adequado da otoferlina, os impulsos elétricos gerados no ouvido nunca chegam ao cérebro14.
Os pesquisadores afirmaram que a DFNB9 era um alvo atraente para terapia porque é causada por uma mutação7 em um único gene, simplificando o reparo. Além disso, embora a mutação7 interrompa a sinalização entre o ouvido e o cérebro14, as células15 da cóclea permanecem intactas e prontas para funcionar assim que a conexão for restaurada.
Para tratar a condição, a equipe injeta um vírus16 neutralizado contendo uma cópia normal do gene OTOF no fluido do ouvido interno12. O vírus16 viaja até a cóclea e expressa o gene OTOF nas células15 ciliadas da cóclea. Isso estimula a produção normal de otoferlina e restaura a conexão entre a cóclea e os nervos que levam ao cérebro14.
Resultados promissores
Entre os participantes do estudo que responderam ao tratamento, alguns relataram ouvir sons em apenas duas semanas. A melhora foi rápida nas primeiras seis semanas, estabilizando-se por volta da 26ª semana, com a recuperação da audição mantida por 2,5 anos.
Embora metade tenha atingido níveis normais de audição nesse ponto, muitos daqueles que não atingiram apresentaram melhora significativa, disse Chen, embora aparelhos auditivos ou outros auxílios possam ser necessários para o funcionamento diário.
O fato de o efeito ter durado tanto tempo é importante, disse Chen, porque experimentos iniciais em laboratório com camundongos mostraram que o efeito diminuía com o tempo. Outra descoberta fundamental, segundo ele, foi que o tratamento é seguro, não causando eventos adversos graves entre os participantes e nenhuma toxicidade17 relacionada à dose entre os grupos que receberam três doses diferentes.
Embora a pesquisa continue, Chen afirmou que a equipe, cujo trabalho é apoiado pelos governos chinês e de Xangai e pela Universidade de Fudan, está começando a explorar os requisitos regulatórios para que o tratamento seja aprovado para uso clínico. Esse esforço começará na China. A expectativa é que a expansão para outros países, incluindo os Estados Unidos, ocorra em seguida.
Os cientistas continuarão acompanhando os participantes do estudo por cinco anos, disse Chen. Várias questões importantes permanecem sem resposta, incluindo por que 10% dos participantes não responderam ao tratamento e por que os adultos não responderam tão bem quanto os jovens.
“Estamos trabalhando nessa área há décadas e não havia nada, nada, nada”, disse Chen. “Então o tratamento surgiu, funcionou muito bem e agora mais ensaios clínicos11 estão a caminho. Estamos ansiosos para ver o que o futuro reserva para os pacientes.”
Leia sobre outras terapias genéticas para surdez: "Regeneron - DB-OTO" e "Eli Lilly - AK-OTOF"
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Estudo multicêntrico de terapia gênica para surdez relacionada ao gene OTOF com acompanhamento de até 2,5 anos
A surdez autossômica18 recessiva tipo 9, causada por mutações no gene OTOF, é caracterizada por surdez congênita2 grave a completa. Embora a terapia gênica tenha demonstrado benefícios em um pequeno número de pacientes, sua segurança e eficácia em faixas etárias mais amplas e períodos de acompanhamento mais longos, bem como os preditores de resultados do tratamento, permanecem incertos.
Neste estudo multicêntrico de braço único, conduzido em oito centros, 42 participantes (com idades entre 0,8 e 32,3 anos) receberam o vírus16 adeno-associado (AAV) sorotipo 1 carregando um transgene codificador de OTOF humano (AAV1-hOTOF) em três grupos de dose do vetor, com acompanhamento de até 2,5 anos.
O desfecho primário foi a toxicidade17 limitante da dose em até 6 semanas. O desfecho secundário avaliou a eficácia e os eventos adversos.
Nenhuma toxicidade17 limitante da dose foi observada. Os eventos adversos de grau 3 incluíram diminuição da contagem de neutrófilos19.
A audição foi recuperada em 90% dos participantes tratados com AAV1-hOTOF, com melhora gradual e estável no limiar da resposta auditiva do tronco encefálico20, de mais de 97 ± 1 dB de nível auditivo normalizado na linha de base para 54 ± 3, 51 ± 3, 50 ± 3 e 42 ± 5 dB de nível auditivo normalizado em 1, 1,5, 2 e 2,5 anos, respectivamente. A audiometria21 comportamental melhorou de mais de 96 ± 3 dB de nível auditivo na linha de base para 37 ± 5 dB de nível auditivo em 2,5 anos.
Os participantes com idades entre 0,5 e 18 anos apresentaram melhora auditiva maior do que os adultos. Um número mais elevado de emissões otoacústicas por produto de distorção presentes no início do estudo, ou a presença de variantes bialélicas não truncantes em OTOF, associou-se a melhor recuperação auditiva. Os participantes com recuperação auditiva demonstraram melhora gradual na percepção da fala.
O estudo concluiu que o AAV1-hOTOF é bem tolerado e eficaz em uma população de pacientes mais ampla, com benefícios terapêuticos sustentados por até 2,5 anos.
Veja também sobre "Mutações genéticas", "Deficiência auditiva" e "Implante10 coclear ou ouvido biônico".
Fontes:
Nature, publicação em 22 de abril de 2026.
Harvard Medical School, notícia publicada em 23 de abril de 2026.










