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Wegovy reduz consumo excessivo de álcool em estudo sobre dependência alcoólica

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Um estudo randomizado1 dinamarquês demonstrou que pessoas com obesidade2 e transtorno por uso de álcool apresentaram menos dias de consumo excessivo de álcool durante o tratamento com semaglutida (Wegovy).

Em conjunto com a terapia cognitivo3-comportamental, adultos que receberam uma dose semanal de 2,4 mg do agonista4 do receptor GLP-1 apresentaram uma redução de 41,1 pontos percentuais nos dias de consumo excessivo de álcool após 26 semanas, em comparação com uma redução de 26,4 pontos percentuais no grupo placebo5 (p = 0,0015), relataram Anders Fink-Jensen, do Copenhagen University Hospital–Bispebjerg and Frederiksberg, e seus colegas.

Os adultos tratados com semaglutida também apresentaram melhorias significativas em diversos desfechos secundários relacionados ao álcool e a sintomas6 somáticos, de acordo com os resultados publicados na revista The Lancet.

“As estimativas do tamanho do efeito são clinicamente significativas no contexto das farmacoterapias já estabelecidas e aprovadas pela FDA dos Estados Unidos para o transtorno por uso de álcool, para as quais os ensaios clínicos7 randomizados indicam que os agentes aprovados pela FDA geralmente conferem efeitos pequenos a moderados na redução de episódios de consumo excessivo de álcool”, escreveram os autores.

Os medicamentos aprovados para o transtorno por uso de álcool (dissulfiram [Antabuse], acamprosato [Campral] e naltrexona) são “amplamente subutilizados”, de acordo com o coautor George Koob, PhD, diretor do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo do NIH (EUA).

“Uma nova opção mais acessível e mais eficaz pode ser um divisor de águas para reduzir a lacuna no tratamento”, disse ele em um comunicado.

Leia sobre "Parar de beber: entendendo o processo e os benefícios" e "Como manter mais baixo o risco do consumo de bebidas alcoólicas".

O estudo contribui para um crescente corpo de pesquisas sobre o papel potencial dos agentes GLP-1 no tratamento da dependência. Um grande estudo observacional com veteranos associou o uso de medicamentos GLP-1 a menores riscos em 42 desfechos, incluindo transtornos por uso de álcool, cannabis e opioides. Outro estudo mostrou que o uso de agonistas do GLP-1 está associado a menores riscos para diversos transtornos por uso de substâncias.

E embora um ensaio randomizado8 anterior, conduzido em ambiente laboratorial, tenha sugerido um benefício da semaglutida para o alcoolismo, o estudo dinamarquês é o primeiro a testar o medicamento em pacientes em busca de tratamento.

“Essas descobertas chegam em um momento em que o otimismo em relação às terapias com incretinas levou à prescrição off-label de terapias com GLP-1 para transtorno por uso de álcool e outros transtornos por uso de substâncias, sem a base de evidências necessária”, observaram os autores do comentário que acompanhou a publicação do estudo, Christian Hendershot, PhD, da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, e Klara Klein, MD, PhD, da Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill.

“Nos últimos meses, houve inúmeros novos registros de ensaios clínicos7, incluindo estudos iniciados por investigadores, patrocinados pelo governo e pela indústria – e, principalmente, programas patrocinados pela indústria dedicados ao transtorno por uso de álcool e comorbidades9 associadas”, acrescentaram.

Além da semaglutida, observaram Hendershot e Klein, outros sete medicamentos e agentes metabólicos baseados no GLP-1 estão atualmente em investigação para o tratamento do transtorno por uso de álcool ou doenças hepáticas10 relacionadas ao álcool: exenatida (Byetta, Bydureon), mazdutida, tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), pemvidutida, brenipatida, cagrilintida e zalfermina.

“A lista em rápida expansão de terapias baseadas no GLP-1 apresenta o potencial de um leque de opções e tratamento individualizado, um cenário análogo ao dos antidepressivos ou das estatinas”, escreveram os editorialistas.

Dito isso, eles pediram um otimismo cauteloso, afirmando que “um sinal11 de eficácia certamente não equivale à efetividade clínica”, razão pela qual mais ensaios confirmatórios são necessários.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Semaglutida administrada uma vez por semana versus placebo5 em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade2 comórbida

O transtorno por uso de álcool é responsável por 5% das mortes em todo o mundo anualmente, e há uma necessidade urgente de novas intervenções terapêuticas. Estudos pré-clínicos e iniciais em humanos indicam que o agonista4 do receptor GLP-1 semaglutida pode reduzir o consumo de álcool. Este estudo avaliou a eficácia da semaglutida administrada uma vez por semana em pacientes em busca de tratamento para transtorno por uso de álcool e obesidade2 comórbida.

Em um ensaio clínico randomizado8, duplo-cego, controlado por placebo5, de centro único, com duração de 26 semanas, participantes em busca de tratamento para transtorno por uso de álcool moderado a grave e obesidade2 comórbida foram designados (1:1) para receber semaglutida (2,4 mg por via subcutânea12) ou placebo5 (solução salina por via subcutânea12) uma vez por semana, além da terapia cognitivo3-comportamental padrão.

O desfecho primário foi a redução no número de dias de consumo excessivo de álcool, avaliada após 26 semanas de intervenção, analisada com um modelo ANCOVA. A análise seguiu o princípio da intenção de tratar, e os dados faltantes foram tratados por meio de imputação múltipla. A segurança foi avaliada em todos os pacientes tratados.

De 10 de junho de 2023 a 4 de fevereiro de 2025, 108 participantes (53 mulheres e 55 homens) foram inscritos, com 54 participantes em cada um dos grupos de tratamento com semaglutida e placebo5, e todos foram incluídos na análise de dados. No geral, 88 participantes (81%) concluíram a intervenção completa.

A semaglutida foi associada a uma redução nos dias de consumo excessivo de álcool (-41,1 pontos percentuais em relação ao valor basal, IC 95% -48,7 a -33,5) em comparação com o placebo5 (-26,4, -34,1 a -18,6; diferença estimada do tratamento -13,7 pontos percentuais, -22,0 a -5,4; p = 0,0015), e teve efeitos substanciais em múltiplos desfechos secundários relacionados ao álcool e somáticos. Os eventos adversos foram transitórios, geralmente efeitos gastrointestinais leves a moderados, e ocorreram com mais frequência no grupo da semaglutida.

O estudo concluiu que a semaglutida demonstrou efeitos terapêuticos robustos em participantes que buscavam tratamento para obesidade2 e transtorno por uso de álcool. Este estudo corrobora achados pré-clínicos e clínicos anteriores que sugerem os agonistas do receptor GLP-1 como um potencial novo alvo terapêutico para o transtorno por uso de álcool.

Veja também sobre "Tratamento da obesidade2: agonistas GLP-1 e novas tecnologias", "Alcoolismo - o que é" e "Os vícios e as suas caraterísticas".

 

Fontes:
The Lancet, Vol. 407, Nº 10540, em 02 de maio de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 04 de maio de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Wegovy reduz consumo excessivo de álcool em estudo sobre dependência alcoólica. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1507085/wegovy-reduz-consumo-excessivo-de-alcool-em-estudo-sobre-dependencia-alcoolica.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Estudo randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle - o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
2 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
3 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
4 Agonista: 1. Em farmacologia, agonista refere-se às ações ou aos estímulos provocados por uma resposta, referente ao aumento (ativação) ou diminuição (inibição) da atividade celular. Sendo uma droga receptiva. 2. Lutador. Na Grécia antiga, pessoa que se dedicava à ginástica para fortalecer o físico ou como preparação para o serviço militar.
5 Placebo: Preparação neutra quanto a efeitos farmacológicos, ministrada em substituição a um medicamento, com a finalidade de suscitar ou controlar as reações, geralmente de natureza psicológica, que acompanham tal procedimento terapêutico.
6 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
7 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
8 Randomizado: Ensaios clínicos comparativos randomizados são considerados o melhor delineamento experimental para avaliar questões relacionadas a tratamento e prevenção. Classicamente, são definidos como experimentos médicos projetados para determinar qual de duas ou mais intervenções é a mais eficaz mediante a alocação aleatória, isto é, randomizada, dos pacientes aos diferentes grupos de estudo. Em geral, um dos grupos é considerado controle – o que algumas vezes pode ser ausência de tratamento, placebo, ou mais frequentemente, um tratamento de eficácia reconhecida. Recursos estatísticos são disponíveis para validar conclusões e maximizar a chance de identificar o melhor tratamento. Esses modelos são chamados de estudos de superioridade, cujo objetivo é determinar se um tratamento em investigação é superior ao agente comparativo.
9 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
10 Hepáticas: Relativas a ou que forma, constitui ou faz parte do fígado.
11 Sinal: 1. É uma alteração percebida ou medida por outra pessoa, geralmente um profissional de saúde, sem o relato ou comunicação do paciente. Por exemplo, uma ferida. 2. Som ou gesto que indica algo, indício. 3. Dinheiro que se dá para garantir um contrato.
12 Subcutânea: Feita ou situada sob a pele; hipodérmica.
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