Grande estudo associa medicamentos GLP-1 a menor risco de vários tipos de câncer
Pacientes que utilizavam agonistas do receptor de GLP-1 para obesidade1 apresentaram um risco 41% menor de desenvolver cânceres relacionados à obesidade1 em comparação com pacientes tratados apenas com dieta ou exercícios, de acordo com um grande estudo de coorte2 com pareamento por escore de propensão, publicado na revista Annals of Oncology.
Após dois anos de acompanhamento, o grupo que utilizou GLP-1 apresentou uma razão de risco acumulada de 0,59 para oito tipos de câncer3 associados à obesidade1. As análises dos diferentes tipos de câncer3 mostraram um risco consistentemente menor para os usuários de GLP-1, atingindo significância estatística em cinco dos oito cânceres avaliados. A redução do risco ultrapassou 50% para mieloma4 múltiplo, câncer3 de pâncreas5, câncer3 de endométrio6 e câncer3 colorretal. Tanto homens quanto mulheres apresentaram reduções significativas de risco com o uso de medicamentos à base de GLP-1.
Os resultados se somam a um volume crescente de evidências que associam o uso de agonistas de GLP-1 a um menor risco de câncer3, mas este é o primeiro estudo focado especificamente em pacientes que utilizam esses medicamentos para perda de peso, relataram a Dra. Aparna Kamat, do Houston Methodist Hospital, e seus colegas.
“Se pensarmos nas pessoas que realmente estão utilizando medicamentos à base de GLP-1, a maioria delas usa para perda de peso”, disse Kamat. “São pacientes obesos e não diabéticos. Essencialmente, eles recebem a prescrição de agonistas de GLP-1 para emagrecer. Nosso estudo é o primeiro a analisar especificamente essa população.”
Os dois agonistas de GLP-1 mais prescritos no estudo – semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro, Zepbound) – foram associados a um risco de câncer3 significativamente menor, mas a redução foi substancialmente maior nos pacientes que utilizaram tirzepatida em comparação com a semaglutida (69% versus 20%), acrescentou ela.
“É difícil saber o motivo, mas foi uma diferença bastante significativa”, disse Kamat. “A tirzepatida e alguns dos outros agentes mais recentes possuem dupla ação, atuando nos receptores GIP e GLP-1, e também agem sobre alguns receptores de glicocorticoides; portanto, talvez haja um efeito adicional contra a inflamação7.”
Leia sobre "Tratamento da obesidade1: agonistas GLP-1 e novas tecnologias" e "Tratamento do câncer3".
Apenas no último ano, diversos estudos associaram o uso de medicamentos da classe GLP-1 a um menor risco de câncer3 e a melhores desfechos relacionados à doença, incluindo uma análise de 13 tipos de câncer3 associados à obesidade1, que demonstrou uma redução geral mais modesta no risco relativo (17%). Na recente conferência da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), mais de duas dezenas de apresentações abordaram a relação entre o uso de medicamentos GLP-1 e o câncer3; entre elas, um estudo mostrou um risco reduzido de metástase8 para quatro tipos de câncer3 em pacientes que utilizavam agonistas de GLP-1 em comparação com aqueles que faziam uso de outros tipos de medicamentos antidiabéticos.
No artigo publicado por Kamat e colegas, eles relatam que dados recentes mostram que o uso de agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon9 (GLP-1RAs) está associado a uma menor incidência10 de câncer3 em pacientes diabéticos e obesos. No entanto, não houve estudos que investigassem exclusivamente a associação entre os riscos de câncer3 associado à obesidade1 (CAO) e os GLP-1RAs em pacientes obesos não diabéticos.
Foi realizada então uma emulação de ensaio clínico para avaliar a associação entre o uso de GLP-1RA e o risco de 13 tipos de CAO. Utilizando o TriNetX, um banco de dados de abrangência nacional com 113 milhões de pacientes dos EUA, identificou-se adultos obesos não diabéticos sem diagnóstico11 prévio de CAO no período de dezembro de 2014 a junho de 2025.
Pacientes com prescrição de GLP-1RA foram pareados na proporção de 1:1, por meio de escore de propensão, com pacientes que receberam aconselhamento sobre dieta ou exercícios, sendo a análise validada pelo método de ponderação pelo inverso da probabilidade de tratamento.
O desfecho primário comparou a incidência10 cumulativa de CAOs entre os grupos de tratamento. O desfecho secundário analisou a incidência10 de câncer3 segundo sexo (feminino, masculino), índice de massa corporal12 (<40, ≥40 kg/m²), raça (branca, negra) e medicamento (semaglutida, tirzepatida).
A coorte13 incluiu 229.467 pacientes; 86.422 (37,7%) receberam GLP-1RAs, enquanto 143.045 (62,3%) receberam aconselhamento sobre dieta ou exercícios. Após o pareamento por escore de propensão 1:1, a coorte13 do estudo passou a incluir 161.798 pacientes: 80.899 usuários de GLP-1RA versus 80.899 pacientes que receberam aconselhamento sobre dieta ou exercícios. A idade média dos pacientes era de 47,2 anos (desvio padrão de 14,8).
Com um acompanhamento mediano de 2 anos (intervalo interquartil de 1 a 2 anos), a análise de pareamento por escore de propensão demonstrou uma incidência10 significativamente menor de qualquer tipo de CAO entre os usuários de GLP-1RA (razão de risco de 0,59; intervalo de confiança de 95%: 0,53-0,67).
Análises secundárias mostraram que, em todos os subgrupos, exceto no de raça negra, o uso de GLP-1RA esteve associado a uma menor incidência10 cumulativa de CAOs. A análise de ponderação pela probabilidade inversa de tratamento confirmou esses achados.
Os homens, que representavam uma proporção menor das coortes, apresentaram uma redução de risco substancialmente maior (68% versus 35% para as mulheres). Analisou-se também a incidência10 específica por localização para oito dos 13 tipos de câncer3, demonstrando um risco consistentemente menor na coorte13 que utilizou medicamentos da classe GLP-1:
- Mieloma4 múltiplo: 17 vs. 46 (HR 0,37; IC 95% 0,21-0,64)
- Câncer3 de pâncreas5: 14 vs. 35 (HR 0,40; IC 95% 0,22-0,74)
- Câncer3 de endométrio6: 35 vs. 83 (HR 0,42; IC 95% 0,28-0,63)
- Câncer3 colorretal: 45 vs. 91 (HR 0,49; IC 95% 0,35-0,71)
- Câncer3 de tireoide14: 48 vs. 77 (HR 0,62; IC 95% 0,43-0,89)
- Câncer3 renal15: 46 vs. 64 (HR 0,72; IC 95% 0,49-1,05)
- Câncer3 de ovário16: 17 vs. 23 (HR 0,74; IC 95% 0,39-1,38)
- Câncer3 de mama17: 208 vs. 251 (HR 0,83; IC 95% 0,69-0,996)
O estudo concluiu que o uso de GLP-1RA associou-se a uma incidência10 de curto prazo significativamente menor de CAOs entre pacientes obesos não diabéticos, com resultados consistentes observados nos subgrupos, à exceção da raça. São necessários estudos prospectivos para confirmar a causalidade.
Durante o congresso da ASCO, pesquisadores anunciaram o início de um estudo prospectivo18 sobre a prevenção do câncer3 de mama17 com agonistas de GLP-1. Será que Kamat consideraria incluir pacientes em um estudo desse tipo?
“Com base em todos os estudos de que dispomos atualmente, não podemos afirmar com certeza que existe uma relação de causa e efeito”, disse ela. “Mas, no caso de pacientes que, por exemplo, precisam perder peso ou são diabéticos e candidatos ao uso de agonistas de GLP-1, acredito firmemente que a discussão deve abordar também a possível prevenção do câncer3. Desde que as indicações e os critérios de inclusão sejam razoáveis, creio que provavelmente veremos cada vez mais pessoas analisando essa questão, pois as associações são bastante impressionantes.”
Veja também sobre "Câncer3 - informações importantes" e "O que significa o ganho de peso para o organismo".
Fontes:
Annals of Oncology, Vol. 37, Nº 8, em agosto de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 08 de junho de 2026.










