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GLP-1s podem oferecer benefícios na colite ulcerativa, sugere estudo

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O uso de agonistas do receptor de GLP-1 foi associado a melhores taxas de remissão em pacientes com colite1 ulcerativa, segundo um estudo de coorte2 retrospectivo3 publicado na revista Inflammatory Bowel Diseases.

Entre 300 pacientes com colite1 ulcerativa, o uso de liraglutida (Victoza, Saxenda) ou semaglutida (Ozempic, Wegovy) para indicações metabólicas associou-se a taxas de remissão mais elevadas em comparação com a não utilização, observadas às 4 semanas (34,7% vs. 15,3%), 8 semanas (54,7% vs. 18%) e 12 semanas (66,7% vs. 25,3%), relataram Budoor Alqinai, da West Virginia University nos Estados Unidos, e colegas.

Após ajustes para idade, sexo, escore de Mayo parcial no início do estudo, obesidade4, presença de diabetes5 e categoria de terapia biológica concomitante, o uso de medicamentos GLP-1 esteve forte e independentemente associado à remissão sintomática6.

Ao analisar os dados de acordo com o tipo de medicamento GLP-1 utilizado, observou-se uma vantagem modesta da semaglutida em relação à liraglutida, com taxas de remissão sintomática6 de 72,5% e 60% às 12 semanas, respectivamente.

“Vale ressaltar que a melhora clínica precedeu a perda de peso significativa, o que sugere um possível mecanismo anti-inflamatório independente da perda de peso”, escreveram Alqinai e sua equipe.

“Esses achados de prática clínica real corroboram um possível papel adjuvante” dos agonistas do receptor de GLP-1 no tratamento da colite1 ulcerativa, embora seja necessária a confirmação em estudos prospectivos, incluindo ensaios clínicos7 randomizados e controlados, acrescentaram.

Esses resultados complementam pesquisas anteriores que sugerem que os agonistas de GLP-1 podem oferecer benefícios na doença inflamatória intestinal (DII) que vão além de sua indicação metabólica.

Por exemplo, um estudo recente de prática clínica real demonstrou que o uso de medicamentos GLP-1 estava associado a taxas significativamente menores de dependência de corticosteroides e a menos hospitalizações entre adultos com sobrepeso8 ou obesidade4 e doença de Crohn9. Além disso, um estudo de grande porte baseado em bancos de dados constatou que o uso de medicamentos GLP-1 estava relacionado a melhores desfechos em diversos parâmetros clínicos em pacientes com colite1 ulcerativa e doença de Crohn9.

Segundo estudos pré-clínicos, “a sinalização via GLP-1 reduz a produção de citocinas10 pró-inflamatórias, reforça a função da barreira epitelial e atenua a inflamação11 do cólon12 em modelos experimentais de DII”, explicaram Alqinai e sua equipe. Ademais, “demonstrou-se que a ativação do receptor de GLP-1 promove a cicatrização da mucosa13 por meio da modulação de vias imunológicas e da melhora da permeabilidade14 intestinal”.

Leia sobre "Tratamento da obesidade4: agonistas GLP-1 e novas tecnologias", "Avanços recentes no tratamento do diabetes5" e "Colite1 ulcerativa".

No novo artigo publicado, os pesquisadores relatam que a colite1 ulcerativa permanece associada a uma morbidade15 significativa, apesar dos avanços terapêuticos, e o impacto dos agonistas do receptor do peptídeo 1 semelhante ao glucagon16 (GLP-1 RAs) na atividade da doença na colite1 ulcerativa não está bem definido.

Realizou-se, portanto, um estudo de coorte2 retrospectivo3 utilizando registros eletrônicos de saúde17 de um único sistema de saúde17 acadêmico terciário (2022-2024). Foram incluídos adultos com colite1 ulcerativa que iniciaram o uso de liraglutida ou semaglutida por indicações metabólicas e mantiveram a terapia por ≥12 semanas. Uma coorte18 pareada (na proporção 1:1) de pacientes com colite1 ulcerativa que não recebiam GLP-1 RAs serviu como grupo controle.

O desfecho primário foi a remissão sintomática6 às 12 semanas (escore de Mayo parcial ≤2 com subescore de sangramento retal igual a 0). A regressão logística multivariada avaliou as chances ajustadas de remissão.

Um total de 150 pacientes em uso de GLP-1 RA foi pareado com 150 controles com características basais comparáveis. O uso de GLP-1 RA associou-se a taxas mais elevadas de remissão às 4 semanas (34,7% vs. 15,3%; P = 0,001), 8 semanas (54,7% vs. 18,0%; P <0,001) e 12 semanas (66,7% vs. 25,3%; P <0,001).

As médias dos escores de Mayo parciais melhoraram de 5,8 na linha de base para 2,1 às 12 semanas no grupo de GLP-1 RA, em comparação com 4,6 nos controles (P <0,01). O uso de GLP-1 RA manteve-se independentemente associado à remissão (OR ajustada de 5,90; IC 95%: 3,52-9,86; P <0,001). A semaglutida demonstrou taxas de remissão mais elevadas do que a liraglutida (72,5% vs. 60%; OR 1,77; P = 0,04).

No grupo que utilizou GLP-1 RAs, a perda de peso média foi de 8,2% em 12 semanas, o que Alqinai e sua equipe observaram estar em consonância com o efeito esperado. No entanto, uma análise multivariada com ajuste para idade, sexo, atividade da doença no início do estudo, obesidade4 e presença de diabetes5 demonstrou que a perda de peso não estava associada de forma independente à remissão (OR ajustada de 1,03 por 1% de perda de peso; IC de 95%: 0,95-1,12; P = 0,41).

Uma análise exploratória de um subgrupo de pacientes submetidos a endoscopia19 de acompanhamento em um intervalo de 10 a 14 semanas mostrou que a remissão endoscópica (Subescore Endoscópico de Mayo [MES] ≤1) foi alcançada em 58% dos usuários de GLP-1 RAs, em comparação com 38% dos controles. Observou-se melhora endoscópica (redução de ≥1 ponto no MES em relação à linha de base) em 69% e 47% dos pacientes, respectivamente.

Os medicamentos à base de GLP-1 foram, de modo geral, bem tolerados, apresentando efeitos colaterais20 gastrointestinais comuns, porém predominantemente leves. Aproximadamente 30% dos pacientes relataram náusea21 transitória nas primeiras semanas de tratamento, e 10% relataram episódios ocasionais de vômito22.

Não houve interrupção do uso dos medicamentos devido a efeitos colaterais20 durante o período de observação de 12 semanas, nem foram atribuídos eventos adversos específicos de DII ao uso de medicamentos GLP-1.

Os autores reconheceram as limitações do estudo decorrentes de seu delineamento retrospectivo3 e ressaltaram que, apesar do pareamento 1:1 com base em variáveis prognósticas fundamentais e do ajuste multivariável, não foi possível eliminar totalmente o viés de confusão residual.

O estudo concluiu que a terapia com agonistas do receptor de GLP-1 associou-se a uma melhora significativa na atividade da doença na colite1 ulcerativa e a taxas de remissão mais altas em comparação com controles pareados, observando-se uma vantagem modesta para a semaglutida. Esses achados corroboram um possível papel adjuvante dos GLP-1 RAs na colite1 ulcerativa, particularmente em pacientes com comorbidades23 metabólicas.

Veja também sobre "Doença inflamatória intestinal", "Doença de Crohn9" e "Transplante de fezes ou terapia bacteriana".

 

Fontes:
Inflammatory Bowel Diseases, publicação em 21 de agosto de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 26 de agosto de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. GLP-1s podem oferecer benefícios na colite ulcerativa, sugere estudo. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1515275/glp-1s-podem-oferecer-beneficios-na-colite-ulcerativa-sugere-estudo.htm>. Acesso em: 27 set. 2026.

Complementos

1 Colite: Inflamação da porção terminal do cólon (intestino grosso). Pode ser devido a infecções intestinais (a causa mais freqüente), ou a processos inflamatórios diversos (colite ulcerativa, colite isquêmica, colite por radiação, etc.).
2 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
3 Retrospectivo: Relativo a fatos passados, que se volta para o passado.
4 Obesidade: Condição em que há acúmulo de gorduras no organismo além do normal, mais severo que o sobrepeso. O índice de massa corporal é igual ou maior que 30.
5 Diabetes: Nome que designa um grupo de doenças caracterizadas por diurese excessiva. A mais frequente é o Diabetes mellitus, ainda que existam outras variantes (Diabetes insipidus) de doença nas quais o transtorno primário é a incapacidade dos rins de concentrar a urina.
6 Sintomática: 1. Relativo a ou que constitui sintoma. 2. Que é efeito de alguma doença. 3. Por extensão de sentido, é o que indica um particular estado de coisas, de espírito; revelador, significativo.
7 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
8 Sobrepeso: Peso acima do normal, índice de massa corporal entre 25 e 29,9.
9 Doença de Crohn: Doença inflamatória crônica do intestino que acomete geralmente o íleo e o cólon, embora possa afetar qualquer outra parte do intestino. A doença cursa com períodos de remissão sintomática e outros de agravamento. Na maioria dos casos, a doença de Crohn é de intensidade moderada e se torna bem controlada pela medicação, tornando possível uma vida razoavelmente normal para seu portador. A causa da doença de Crohn ainda não é totalmente conhecida. Os sintomas mais comuns são: dor abdominal, diarreia, perda de peso, febre moderada, sensação de distensão abdominal, perda de apetite e de peso.
10 Citocinas: Citoquina ou citocina é a designação genérica de certas substâncias segregadas por células do sistema imunitário que controlam as reações imunes do organismo.
11 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
12 Cólon:
13 Mucosa: Tipo de membrana, umidificada por secreções glandulares, que recobre cavidades orgânicas em contato direto ou indireto com o meio exterior.
14 Permeabilidade: Qualidade dos corpos que deixam passar através de seus poros outros corpos (fluidos, líquidos, gases, etc.).
15 Morbidade: Morbidade ou morbilidade é a taxa de portadores de determinada doença em relação à população total estudada, em determinado local e em determinado momento.
16 Glucagon: Hormônio produzido pelas células-alfa do pâncreas. Ele aumenta a glicose sangüínea. Uma forma injetável de glucagon, disponível por prescrição médica, pode ser usada no tratamento da hipoglicemia severa.
17 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
18 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
19 Endoscopia: Método no qual se visualiza o interior de órgãos e cavidades corporais por meio de um instrumento óptico iluminado.
20 Efeitos colaterais: 1. Ação não esperada de um medicamento. Ou seja, significa a ação sobre alguma parte do organismo diferente daquela que precisa ser tratada pelo medicamento. 2. Possível reação que pode ocorrer durante o uso do medicamento, podendo ser benéfica ou maléfica.
21 Náusea: Vontade de vomitar. Forma parte do mecanismo complexo do vômito e pode ser acompanhada de sudorese, sialorréia (salivação excessiva), vertigem, etc.
22 Vômito: É a expulsão ativa do conteúdo gástrico pela boca. Pode ser classificado como: alimentar, fecalóide, biliar, em jato, pós-prandial. Sinônimo de êmese. Os medicamentos que agem neste sintoma são chamados de antieméticos.
23 Comorbidades: Coexistência de transtornos ou doenças.
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