Novidades da medicina na semana 19 (2026): digitálicos em insuficiência cardíaca, colonoscopia no NordICC e daraxonrasib em câncer pancreático
A semana 19 de 2026 (4 a 10 de maio) trouxe resultados relevantes em cardiologia, oncologia, gastroenterologia, neurologia, endocrinologia e psiquiatria. Entre os destaques estão publicações em revistas científicas como Nature Medicine, JAMA, The Lancet e New England Journal of Medicine, que reacenderam a discussão sobre o papel da digoxina na insuficiência cardíaca1, atualizaram o seguimento do estudo NordICC sobre colonoscopia2 para rastreamento de câncer3 colorretal e apresentaram novos dados do daraxonrasib em câncer3 pancreático RAS-mutado, além de outras novidades.
A seguir, reunimos os principais acontecimentos da semana anterior, organizados por especialidade.
Cardiologia
A Anvisa concedeu, em 4 de maio de 2026, registro ao Beyonttra® (cloridrato de acoramidis)[1], indicado para o tratamento de pacientes com cardiomiopatia amiloide associada à transtirretina (ATTR-CM), nas formas selvagem ou hereditária. A ATTR-CM é uma doença rara, progressiva e potencialmente fatal, causada pela deposição de fibrilas amiloides derivadas da transtirretina no músculo cardíaco4, levando a rigidez ventricular e insuficiência cardíaca1. O acoramidis atua estabilizando a TTR e, segundo a Anvisa, reduziu o risco de mortalidade5 cardiovascular em estudo de fase 3, com eficácia estatisticamente superior ao placebo6 no desfecho primário. O registro foi publicado por meio da Resolução RE nº 1.785/2026.
Também em cardiologia, três trabalhos publicados em 10 de maio trouxeram novos dados sobre o papel da digoxina e dos glicosídeos digitálicos. No estudo DECISION, publicado na Nature Medicine[2], 1.001 pacientes com insuficiência cardíaca1 crônica sintomática7 e fração de ejeção do ventrículo esquerdo ≤50% foram randomizados para digoxina em baixa dose, com alvo sérico de 0,5 a 0,9 ng/mL, ou placebo6. Após mediana de seguimento de 36,5 meses, o estudo mostrou menor número de eventos de piora da insuficiência cardíaca1 ou morte cardiovascular no grupo digoxina, mas a diferença não atingiu significância estatística para o desfecho primário. O tratamento, entretanto, foi bem tolerado e apresentou perfil de segurança considerado consistente com o uso em baixa dose.
Em paralelo, uma metanálise publicada no JAMA[3] avaliou glicosídeos digitálicos em insuficiência cardíaca1 com fração de ejeção reduzida ou levemente reduzida. A análise indicou associação com menor risco do composto de morte cardiovascular ou primeiro evento de piora da insuficiência cardíaca1, principalmente pela redução de eventos de piora da insuficiência cardíaca1, sem benefício claro de mortalidade5. Em conjunto, os achados sugerem que os glicosídeos digitálicos podem permanecer como opção adicional em pacientes selecionados, especialmente quando usados em baixa dose e com monitoramento adequado.
Ainda no JAMA[4], o estudo Dig-RHD avaliou digoxina em pacientes com doença cardíaca reumática sintomática7. O ensaio multicêntrico, randomizado8, duplo-cego e controlado por placebo6 incluiu 1.769 pacientes na Índia, com insuficiência cardíaca1, fibrilação/flutter atrial ou uso prévio de digoxina. O desfecho primário composto de morte por qualquer causa ou insuficiência cardíaca1 nova ou em piora ocorreu em 31,4% dos pacientes no grupo digoxina e 35,5% no grupo placebo6, com HR de 0,82. Os resultados sugerem benefício clínico modesto, mas relevante, em uma população na qual a doença cardíaca reumática ainda representa importante causa de morbidade9 cardiovascular.
A Nature Medicine[5] publicou ainda os resultados do HF-REVERT, ensaio de fase 2 que avaliou o CDR132L, um oligonucleotídeo antisense10 inibidor do miR-132, em pacientes com infarto11 agudo12 do miocárdio13 recente e disfunção sistólica do ventrículo esquerdo. O estudo randomizou pacientes para CDR132L em duas doses ou placebo6, além da terapia padrão. O tratamento foi bem tolerado, sem sinais14 relevantes de toxicidade15 hepática16, renal17, hematológica ou cardíaca, mas não houve diferença significativa no desfecho primário de variação percentual do índice de volume sistólico final do ventrículo esquerdo aos 6 meses. O estudo representa uma etapa inicial relevante para terapias baseadas em RNA na remodelação cardíaca pós-infarto11, embora ainda sem demonstração de eficácia clínica suficiente para mudança de prática.
No New England Journal of Medicine[6], o ensaio CHIP-BCIS3 avaliou o uso eletivo18 de uma bomba de fluxo microaxial para descarregamento do ventrículo esquerdo durante intervenção coronária percutânea complexa de alto risco. O estudo testou a estratégia conhecida como “PCI protegida” em pacientes com disfunção ventricular importante submetidos a procedimentos coronários complexos. Os resultados questionam o uso rotineiro do suporte circulatório mecânico nesse cenário, ao não demonstrar benefício clínico suficiente para justificar sua aplicação ampla fora de indicações bem selecionadas.
Gastroenterologia
O Lancet[7] publicou, em 9 de maio, o seguimento de 13 anos do estudo NordICC, ensaio populacional, multicêntrico e randomizado8 sobre colonoscopia2 para rastreamento de câncer3 colorretal. A análise incluiu participantes da Noruega, Polônia e Suécia e confirmou que o convite para colonoscopia2 de rastreamento reduziu significativamente a incidência19 de câncer3 colorretal. No entanto, a redução da mortalidade5 específica por câncer3 colorretal não atingiu significância estatística na análise por intenção de rastrear. Os dados prolongam e refinam os achados do seguimento anterior de 10 anos, reforçando que o benefício populacional da colonoscopia2 depende não apenas da eficácia do exame, mas também da adesão ao convite, do risco basal da população e da relação entre prevenção de casos e impacto na mortalidade5.
Leia sobre "Doenças cardiovasculares20", "Insuficiência cardíaca1", "Colonoscopia2" e "Câncer3 colorretal".
Oncologia
A FDA aprovou, em 8 de maio de 2026, o zenocutuzumabe-zbco (Bizengri)[8] para adultos com colangiocarcinoma21 avançado, irressecável ou metastático com fusão do gene NRG1 e progressão durante ou após terapia sistêmica prévia. Segundo a agência, trata-se do primeiro medicamento aprovado para essa população. A eficácia foi avaliada em estudo de braço único22 com 19 pacientes, no qual a taxa de resposta global foi de 36,8%, com duração de resposta variando de 2,8 a 12,9 meses. A aprovação foi a sétima concedida no âmbito do programa Commissioner’s National Priority Voucher.
Também em oncologia, o New England Journal of Medicine[9] publicou os resultados de fase 1/2 do daraxonrasib (RMC-6236) em pacientes com adenocarcinoma23 ductal pancreático avançado, RAS-mutado e previamente tratado. O daraxonrasib é um inibidor oral multisseletivo de RAS(ON), desenhado para atuar sobre proteínas24 RAS ligadas ao GTP. A relevância do alvo é alta no câncer3 pancreático, já que mutações ativadoras em RAS estão presentes em mais de 90% dos adenocarcinomas ductais pancreáticos. No estudo, o fármaco25 demonstrou atividade antitumoral em pacientes previamente tratados, com perfil de segurança compatível com desenvolvimento clínico adicional.
Neurologia
Em 8 de maio, a biofarmacêutica argenx anunciou a expansão da aprovação pela FDA do VYVGART® (efgartigimode alfa-fcab) e do VYVGART Hytrulo® (efgartigimode alfa e hialuronidase-qvfc)[10] nos Estados Unidos para adultos com miastenia26 gravis generalizada independentemente do sorotipo. A nova indicação abrange pacientes anti-AChR positivos, anti-MuSK positivos, anti-LRP4 positivos e triplo soronegativos. A decisão foi baseada no estudo fase 3 ADAPT SERON, que demonstrou melhora clinicamente significativa no escore MG-ADL em comparação com placebo6 na quarta semana, com perfil de segurança consistente com dados prévios. A expansão é relevante porque uma parcela dos pacientes com miastenia26 gravis generalizada não apresenta anticorpos27 anti-AChR detectáveis e historicamente tinha menos evidência específica para terapias-alvo.
Na área de AVC isquêmico28 agudo12, o JAMA publicou dois ensaios em 8 de maio. No primeiro[11], pacientes com oclusão proximal29 da artéria cerebral média30, admitidos em centros capacitados para tratamento endovascular entre 4,5 e 24 horas do início dos sintomas31, foram randomizados para tenecteplase intravenosa antes da terapia endovascular ou terapia endovascular isolada. A adição da tenecteplase não melhorou significativamente os desfechos funcionais em 90 dias em comparação com o tratamento endovascular isolado.
No segundo ensaio[12], pacientes com AVC isquêmico28 agudo12 sem oclusão de grande ou médio vaso, sem fonte cardioembólica e com resposta clínica inadequada à tenecteplase intravenosa foram randomizados para tirofiban intravenoso adjuvante ou placebo6. O tirofiban aumentou a proporção de pacientes com excelente desfecho funcional aos 90 dias, definido por escore 0 ou 1 na escala de Rankin modificada, sugerindo possível papel em um subgrupo específico de pacientes sem indicação de trombectomia e com resposta insuficiente à trombólise32.
Saiba mais sobre "Câncer3 de pâncreas33", "Tratamento do câncer3" e "Acidente vascular cerebral34".
Endocrinologia
O Lancet[13] publicou os resultados do SURMOUNT-MAINTAIN, ensaio multicêntrico, duplo-cego, randomizado8 e controlado por placebo6 que avaliou estratégias de manutenção da perda de peso com tirzepatida em adultos com obesidade35 nos Estados Unidos. O estudo mostrou que a continuidade da tirzepatida na dose máxima tolerada preservou melhor a redução ponderal36 e os benefícios cardiometabólicos associados, enquanto a redução para 5 mg pode representar alternativa à interrupção completa em alguns pacientes. Os achados reforçam a obesidade35 como condição crônica, frequentemente dependente de tratamento sustentado, e contribuem para a discussão sobre individualização da dose no manejo de longo prazo.
Psiquiatria
O JAMA[14] publicou estudo de coorte37 populacional sobre mortalidade5 em sobreviventes de overdose por opioides atendidos em pronto-socorro. A mortalidade5 em 1 ano após o atendimento por overdose foi de 8,6%, e 21,2% dos indivíduos tiveram novo evento de overdose no período. Os dados reforçam o alto risco após uma overdose não fatal e a importância de estratégias de continuidade do cuidado, prevenção de recorrência38 e acesso a tratamentos baseados em evidência para transtorno por uso de opioides.
No JAMA Network Open[15], um ensaio randomizado8 avaliou psilocibina no transtorno por uso de cocaína. Em uma população descrita pelos autores como vulnerável e sub-representada, a intervenção foi considerada aparentemente segura e associada a sinais14 de eficácia, embora os próprios achados indiquem a necessidade de estudos adicionais para replicação, ampliação da amostra e definição mais robusta do papel terapêutico da psilocibina nesse contexto.
Dois trabalhos do JAMA Psychiatry abordaram intervenções em depressão. Uma revisão sistemática com metanálise[16] avaliou infusões intravenosas de ketamina e concluiu que o tratamento, em dose única ou repetida, foi eficaz na redução rápida de sintomas31 suicidas e depressivos em episódio depressivo maior na fase aguda, embora os desfechos de longo prazo permaneçam menos estabelecidos.
Outra revisão sistemática com metanálise[17] comparou antipsicóticos atípicos como tratamento adjuvante no transtorno depressivo maior. Os autores observaram diferenças entre os fármacos em termos de eficácia e aceitabilidade, sugerindo que a escolha do antipsicótico adjuvante deve considerar simultaneamente benefício sintomático39, tolerabilidade e risco de descontinuação. A lumateperona apresentou o maior tamanho de efeito para eficácia, seguida pelo aripiprazol; o aripiprazol apresentou a maior aceitabilidade geral, seguido pela cariprazina.
Ainda em psiquiatria, o JAMA Network Open[18] publicou ensaio randomizado8 sobre prescrição de antidepressivos guiada por genótipo40 em pacientes com depressão. A estratégia não melhorou o controle dos sintomas31 depressivos aos 3 meses em comparação ao cuidado usual, mas foi associada a maiores taxas de remissão aos 6 meses. O resultado sugere possível benefício tardio, mas ainda exige interpretação cautelosa quanto à magnitude clínica e à aplicabilidade rotineira da farmacogenômica na escolha de inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
Veja também sobre "Tratamento da obesidade35: agonistas GLP-1 e novas tecnologias", "Principais transtornos mentais" e "Tipos de depressão".
Pesquisa médica
O Lancet[19] publicou uma auditoria sobre referências fabricadas na literatura biomédica. Os autores analisaram mais de 2,4 milhões de artigos da coleção PubMed Central Open Access, publicados entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2026, e avaliaram mais de 97 milhões de referências com identificadores recuperáveis. Após filtros para erros de grafia e verificação em bases como PubMed, Crossref, OpenAlex e Google Scholar, foram identificadas 4.046 referências fabricadas em 2.810 artigos. O estudo chama atenção para um problema crescente de integridade científica, especialmente em um período de aumento do uso de ferramentas generativas na produção textual acadêmica.
Referências
[1] Anvisa aprova registro de medicamento para doença cardíaca. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[2] Low-dose digoxin in patients with heart failure with reduced or mildly reduced ejection fraction: a randomized controlled trial (DECISION). 2026. Disponível em Nature Medicine.
[3] Efficacy and Safety of Digitalis Glycosides in Heart Failure: A Meta-Analysis. 2026. Disponível em JAMA.
[4] Digoxin in Patients With Symptomatic Rheumatic Heart Disease: A Randomized Clinical Trial (Dig-RHD). 2026. Disponível em JAMA.
[5] The microRNA inhibitor CDR132L in patients with reduced left ventricular ejection fraction after myocardial infarction: a randomized phase 2 trial (HF-REVERT). 2026. Disponível em Nature Medicine.
[6] Left Ventricular Unloading in High-Risk Percutaneous Coronary Intervention (CHIP-BCIS3). 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[7] Long-term effects of colonoscopy screening on colorectal cancer3 incidence and mortality: a multicountry, population-based randomised controlled trial (NordICC). 2026. Disponível em The Lancet.
[8] FDA approves zenocutuzumab-zbco for advanced, unresectable or metastatic cholangiocarcinoma. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[9] Daraxonrasib in Previously Treated Advanced RAS-Mutated Pancreatic Cancer3. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[10] argenx Announces U.S. FDA Approval Expanding VYVGART and VYVGART Hytrulo for Use in All Adult Patients Living with gMG. 2026. Disponível em argenx.
[11] Intravenous Tenecteplase Prior to Endovascular Treatment for Ischemic Stroke at 4.5 to 24 Hours. 2026. Disponível em JAMA.
[12] Intravenous Tirofiban After Tenecteplase in Acute Ischemic Stroke. 2026. Disponível em JAMA.
[13] Tirzepatide for maintenance of bodyweight reduction in people with obesity in the USA (SURMOUNT-MAINTAIN): a multicentre, double-blind, randomised, placebo6-controlled trial. 2026. Disponível em The Lancet.
[14] One-Year Mortality Among Opioid Overdose Survivors. 2026. Disponível em JAMA.
[15] Psilocybin in the Treatment of Cocaine Use Disorder. 2026. Disponível em JAMA Network Open.
[16] Ketamine Infusions and Rapid Reduction of Suicidal and Depressive Symptoms in Major Depressive Episode. 2026. Disponível em JAMA Psychiatry.
[17] Adjunctive Antipsychotics in Major Depressive Disorder. 2026. Disponível em JAMA Psychiatry.
[18] Genotype-Guided Antidepressant Prescribing for Patients With Depression: A Randomized Clinical Trial. 2026. Disponível em JAMA Network Open.
[19] Fabricated citations: an audit across 2·5 million biomedical papers. 2026. Disponível em The Lancet.










