Novidades da medicina na semana 18 (2026): avanços em câncer de mama, esclerose múltipla e miastenia gravis
A semana 18 de 2026 (27 de abril a 3 de maio) trouxe aprovações regulatórias relevantes da FDA, incluindo o primeiro tratamento não antipsicótico para agitação na demência1 por Alzheimer2 e um novo agente para câncer3 de mama4 com mutação5 ESR1, bem como da Anvisa, com novidades em esclerose múltipla6, miastenia7 gravis e diabetes8. No campo da pesquisa, NEJM, JAMA e Nature Medicine publicaram resultados em hemofilia9 A, transplante uterino, sepse10 materna e mieloma11 múltiplo indolente, entre outros assuntos.
A seguir, reunimos os principais acontecimentos da semana anterior, organizados por especialidade.
- Oncologia
- Neurologia
- Psiquiatria
- Pediatria e neonatologia
- Ginecologia e obstetrícia
- Endocrinologia
- Infectologia e pneumologia
- Hematologia
Oncologia
A FDA aprovou, em 1º de maio de 2026, o vepdegestrant (Veppanu)[1] para adultos com câncer3 de mama4 avançado ou metastático ER-positivo, HER2-negativo e com mutação5 ESR1, com progressão da doença após pelo menos uma linha de terapia endócrina. A decisão também incluiu a aprovação do Guardant360 CDx como teste diagnóstico12 complementar. No estudo VERITAC-2, entre pacientes com mutação5 ESR1, a sobrevida13 livre de progressão mediana foi de 5,0 meses com vepdegestrant versus 2,1 meses com fulvestranto, com HR de 0,57; a taxa de resposta objetiva foi de 19% versus 4%.
A FDA também autorizou acesso expandido ao daraxonrasib (RMC-6236)[2], medicamento experimental para pacientes14 com adenocarcinoma15 ductal pancreático metastático previamente tratado. A agência recebeu o pedido em 28 de abril e o liberou em 30 de abril, permitindo o uso em protocolo de acesso expandido para uma população maior de pacientes elegíveis antes da aprovação formal. O fármaco16 é um inibidor de RAS, alvo relevante porque alterações nessa via estão presentes na maioria dos tumores pancreáticos.
Em pesquisa clínica, o New England Journal of Medicine[3] publicou dados sobre o setidegrasib em câncer3 de pulmão17 de células18 não pequenas e adenocarcinoma15 ductal pancreático com mutação5 KRAS p.G12D. O estudo indicou atividade antitumoral e baixa incidência19 de descontinuação por eventos adversos em pacientes previamente tratados, reforçando o avanço dos inibidores direcionados a variantes de KRAS que, até recentemente, eram consideradas de difícil abordagem terapêutica20.
Ainda em oncologia, o New England Journal of Medicine[4] publicou os resultados do estudo de fase 1b Beamion LUNG-1 com zongertinib em primeira linha para câncer3 de pulmão17 de células18 não pequenas avançado com mutação5 HER2. Até recentemente, não havia opções de terapia direcionada de primeira linha para esses pacientes. Na coorte21 de 74 pacientes virgens de tratamento, a taxa de resposta objetiva confirmada foi de 76%, com 11% atingindo resposta completa e 65% resposta parcial; a duração mediana de resposta foi de 15,2 meses e a sobrevida13 livre de progressão mediana de 14,4 meses. Em pacientes com metástases22 cerebrais ativas, 47% apresentaram resposta objetiva intracraniana confirmada, reforçando o potencial do fármaco16 como opção oral em uma população com poucas alternativas duradouras.
Saiba mais sobre "Tratamento do câncer3" e "Como evitar o câncer3".
Neurologia
A Anvisa aprovou o ublituximabe (Briumvi®)[5] para adultos com formas recorrentes de esclerose múltipla6. O medicamento é um anticorpo23 monoclonal anti-CD20, dirigido contra linfócitos B, células18 envolvidas na inflamação24 e na formação de lesões25 no sistema nervoso central26. A decisão amplia as opções terapêuticas no Brasil para uma doença crônica, inflamatória, autoimune27 e neurodegenerativa que afeta cerca de 2,9 milhões de pessoas no mundo e aproximadamente 40 mil no Brasil.
A Anvisa também aprovou o alfaefgartigimode (VYVGART®)[6] como complemento à terapia padrão para adultos com miastenia7 gravis generalizada positivos para anticorpos28 anti-receptor de acetilcolina29. A doença cursa com fraqueza muscular flutuante, frequentemente iniciada por ptose30 e diplopia31, podendo evoluir para acometimento generalizado. A aprovação acrescenta uma alternativa imunomoduladora para pacientes14 com uma condição autoimune27 rara e potencialmente incapacitante.
A FDA aprovou uma nova indicação para a combinação de dextrometorfano e bupropiona (Auvelity®)[7] no tratamento da agitação associada à demência1 por doença de Alzheimer2 em adultos, tornando-se o primeiro medicamento aprovado para essa condição que não pertence à classe dos antipsicóticos. A agitação é um sintoma32 comum e angustiante em pacientes com demência1 de Alzheimer2, caracterizada por atividade motora excessiva ou agressão verbal ou física, com impacto importante na qualidade de vida de pacientes e cuidadores. A aprovação se baseou em dois ensaios randomizados: o primeiro mostrou superioridade da dextrometorfano-bupropiona em relação ao placebo33 na melhora do escore total do Cohen-Mansfield Agitation Inventory em cinco semanas; o segundo, um estudo de retirada, demonstrou maior tempo até recidiva34 da agitação nos pacientes que mantiveram o tratamento ativo em comparação ao placebo33. O fármaco16 recebeu designação de terapia inovadora e revisão prioritária.
Psiquiatria
A FDA anunciou novas medidas para acelerar o desenvolvimento de terapias psicodélicas e relacionadas para transtornos mentais graves[8]. A agência emitiu vouchers de prioridade nacional para empresas que estudam psilocibina em depressão resistente ao tratamento e transtorno depressivo maior, além de metilona para TEPT, e autorizou o início de estudo clínico de fase 1 com noribogaína para transtorno por uso de álcool. A FDA ressaltou que a autorização de estudo não significa aprovação do medicamento, mas sinaliza maior prioridade regulatória para terapias com potencial em condições psiquiátricas de difícil tratamento.
Pediatria e neonatologia
Um ensaio clínico randomizado35 publicado no JAMA[9] avaliou a abordagem de tratamento farmacológico baseado em sintomas36 para recém-nascidos com síndrome37 de abstinência neonatal por opioides, dentro do modelo Eat, Sleep, Console. Entre 383 lactentes38 no grupo principal, o tempo até a prontidão médica para alta foi 2,3 dias menor com a estratégia baseada em sintomas36 em comparação ao desmame opioide programado, sem diferença nos desfechos de segurança até os 3 meses de idade.
Leia sobre "Doenças nervosas degenerativas39" e "Principais transtornos mentais".
Ginecologia e obstetrícia
Um estudo piloto publicado na Nature Medicine[10] avaliou uma terapia de aférese para remover seletivamente sFlt-1 em gestantes com pré-eclâmpsia40 muito precoce. Em 16 pacientes, o procedimento foi considerado seguro na avaliação inicial, reduziu os níveis de sFlt-1 e sugeriu possível prolongamento da gestação: as pacientes tratadas permaneceram grávidas por mediana de 10 dias após a admissão, contra 4 dias em um grupo não tratado fora do estudo. Os achados ainda exigem ensaios controlados maiores, mas apontam para uma possível terapia direcionada em uma condição cujo tratamento definitivo continua sendo o parto.
O JAMA[11] publicou atualização do programa de transplante uterino do Baylor University Medical Center, considerado o maior do mundo no tema. Entre 2016 e março de 2026, 44 mulheres foram submetidas ao transplante; até abril de 2026, 33 haviam realizado pelo menos uma transferência embrionária, totalizando 90 transferências de embrião único, com 31 mulheres atingindo gravidez41 clínica e 47 gestações no total. Ocorreram 31 nascidos vivos em 27 mulheres (23 com um neonato42 e 4 com dois neonatos43 cada), todos por cesariana. Os dados, divulgados durante o encontro anual da ACOG, reforçam a viabilidade do transplante uterino como opção reprodutiva em centros multidisciplinares para mulheres com infertilidade44 por fator uterino absoluto, como na síndrome37 de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser ou após histerectomia45.
Ainda em obstetrícia, o New England Journal of Medicine[12] publicou o ensaio APT-Sepsis (Active Prevention and Treatment of Maternal Sepsis), conduzido em maternidades de Malaui, Uganda e Paquistão. A intervenção integrada, que combina melhoria da higiene das mãos46, prevenção e manejo de infecções47 e o pacote FAST-M de cuidado da sepse10, esteve associada a redução de 32% nas mortes maternas relacionadas a infecção48 e em complicações graves. O estudo é considerado uma evidência prática e robusta para uma das principais causas evitáveis de mortalidade49 materna no mundo, com potencial de incorporação por sistemas de saúde50 de baixa e média renda.
Endocrinologia
A Anvisa aprovou nova indicação para semaglutida oral (Rybelsus®)[13] para redução do risco de eventos cardiovasculares em adultos com diabetes tipo 251. A aprovação se baseou no estudo SOUL, ensaio fase 3b com 9.650 participantes e seguimento médio de 4 anos, no qual a semaglutida oral reduziu em 14% o risco relativo de morte cardiovascular, infarto52 e AVC em comparação com placebo33, além do tratamento padrão.
Infectologia e pneumologia
O New England Journal of Medicine[14] publicou estudo sobre o MiniDock MTB, uma ferramenta diagnóstica para tuberculose53 pulmonar que usa amostras por swab. A proposta responde à necessidade de testes mais adequados para centros periféricos, onde o diagnóstico12 rápido e operacionalmente simples continua sendo um dos principais gargalos para reduzir a transmissão e a mortalidade49 por tuberculose53.
Hematologia
A Nature Medicine[15] publicou resultados do estudo fase 2 CAR-PRISM, que avaliou ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel) em mieloma11 múltiplo indolente de alto risco. Em 20 pacientes tratados até fevereiro de 2026, o estudo atingiu os desfechos pré-especificados, sem toxicidades limitantes de dose; os eventos adversos incluíram citopenias transitórias grau 3/4 em 90% e síndrome37 de liberação de citocinas54 grau 1/2 em todos os pacientes. Os achados reforçam a hipótese de intervir mais precocemente em pacientes com alto risco de progressão para mieloma11 múltiplo sintomático55.
O New England Journal of Medicine[16] publicou os resultados do estudo de fase 3 FRONTIER2, que avaliou denecimig (Mim8) em adolescentes e adultos com hemofilia9 A com ou sem inibidores do fator VIII. O Mim8 é um anticorpo23 biespecífico que mimetiza o fator VIII ativado, desenvolvido para profilaxia de sangramentos; no estudo, pacientes com 12 anos ou mais foram randomizados para receber Mim8 subcutâneo56 uma vez por semana ou uma vez por mês. A profilaxia com Mim8 foi superior tanto à terapia sob demanda quanto à profilaxia com concentrado de fator de coagulação57 na redução da taxa anualizada de sangramentos tratados, independentemente do status de inibidor. O resultado posiciona o denecimig como possível alternativa terapêutica20 de administração mensal subcutânea58 para uma doença hereditária rara, em que reduzir a frequência de aplicações tem impacto direto na qualidade de vida.
Veja também sobre "Distúrbios da coagulação57 sanguínea" e "Tuberculose53 - tratando direito tem cura".
Referências
[1] FDA approves vepdegestrant for ER-positive, HER2-negative, ESR1-mutated advanced or metastatic breast cancer3. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[2] FDA permits expanded access to investigational pancreatic cancer3 drug. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[3] Setidegrasib in Advanced Non–Small-Cell Lung Cancer3 and Pancreatic Cancer3. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[4] First-Line Zongertinib in Advanced HER2-Mutant Non–Small-Cell Lung Cancer3. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[5] Esclerose múltipla6 tem novo tratamento aprovado pela Anvisa. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[6] Anvisa aprova registro de mais um produto para miastenia7 gravis. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[7] FDA Approves First Non-Antipsychotic Drug to Treat Agitation Associated with Dementia. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[8] FDA accelerates action on treatments for serious mental illness following Executive Order. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[9] Symptom-Based Dosing for Neonatal Opioid Withdrawal: The OPTimize NOW Randomized Clinical Trial. 2026. Disponível em JAMA.
[10] Targeted removal of soluble Fms-like tyrosine kinase 1 in very preterm preeclampsia: a pilot trial. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[11] Birth After Uterus Transplant. 2026. Disponível em JAMA.
[12] A Multicomponent Intervention to Improve Maternal Infection Outcomes. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[13] Anvisa aprova Rybelsus® (semaglutida oral) da Novo Nordisk para redução do risco cardiovascular em adultos. 2026. Disponível em Novo Nordisk Brasil.
[14] Pulmonary Tuberculosis Detection with MiniDock MTB Using Swab Samples. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[15] Ciltacabtagene autoleucel in high-risk smoldering multiple myeloma: the CAR-PRISM phase 2 trial. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[16] Mim8 Bispecific Antibody Prophylaxis in Hemophilia A with or without Inhibitors. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).










