Novidades da medicina na semana 23 de 2026: CAR-T no transplante renal, IA na saúde mental e refeições terapêuticas
A semana 23 de 2026 (1º a 7 de junho) reuniu estudos de impacto em saúde1 pública, psiquiatria, pediatria, neurologia, gastroenterologia, nefrologia, reumatologia, hematologia, endocrinologia, oncologia e dermatologia.
Os destaques incluem pesquisas sobre refeições medicamente adaptadas, uso de chatbots de IA por adolescentes para saúde1 mental, estimulação medular após AVC, CAR-T para dessensibilização2 antes de transplante renal3 e novos dados sobre obesidade4 e doença hepática5 esteatótica metabólica. Também houve novidades regulatórias relevantes da Anvisa, com novas indicações terapêuticas para câncer6 de bexiga7, câncer6 de pulmão8 e doença de Crohn9 pediátrica.
A seguir, reunimos os principais acontecimentos da semana anterior, organizados por especialidade.
- Saúde1 pública
- Psiquiatria
- Pediatria
- Neurologia
- Medicina preventiva
- Gastroenterologia
- Nefrologia
- Reumatologia
- Hematologia
- Endocrinologia
- Oncologia
- Dermatologia
Saúde1 pública
Um estudo publicado na Nature Medicine[1] avaliou o impacto de refeições medicamente adaptadas em beneficiários do Medicaid de Massachusetts, EUA, com doenças relacionadas à dieta e insegurança alimentar. A análise incluiu 1.866 pessoas que receberam refeições terapêuticas personalizadas e 1.372 controles, entre 2020 e 2023. O programa, com duração média de 6,7 meses, foi associado a 31% menos hospitalizações, 20% menos visitas ao pronto-socorro e redução de US$ 3.433 nos custos totais de saúde1 por paciente, compensando 98% dos custos do próprio programa. O estudo é observacional, mas reforça a ideia de que intervenções nutricionais estruturadas podem ter impacto clínico e econômico mensurável.
Psiquiatria
O JAMA Pediatrics[2] publicou uma pesquisa nacionalmente representativa sobre o uso de chatbots de IA para aconselhamento em saúde1 mental por adolescentes e adultos jovens nos Estados Unidos. Entre jovens de 12 a 21 anos, 19,2% relataram ter usado chatbots para esse fim em 2025, o equivalente a mais de 8 milhões de pessoas na estimativa ponderada; entre os usuários, 42,8% usavam ao menos mensalmente e 91,7% consideraram as respostas ao menos um pouco úteis. Um ponto de atenção é que 63,3% não haviam contado a ninguém sobre esse uso, o que levanta preocupações sobre segurança, privacidade, qualidade da orientação e integração dessas ferramentas ao cuidado em saúde1 mental.
Pediatria
Um estudo caso-controle publicado no JAMA Network Open[3] avaliou a efetividade da vacinação materna com RSVpreF contra hospitalização por doença respiratória aguda associada ao vírus10 sincicial respiratório em lactentes11. A análise incluiu 274 bebês12 de até 90 dias hospitalizados em um sistema de saúde1 da Pensilvânia, EUA. A vacinação materna foi associada a 67,6% de proteção contra hospitalização por doença respiratória aguda associada ao VSR e 69,0% de proteção contra doença do trato respiratório inferior associada ao VSR, fornecendo evidência clínica inicial de efetividade após o licenciamento da vacina13.
Leia sobre "Principais transtornos mentais", "Depressão em crianças" e "Proteção contra o VSR".
Neurologia
A Nature Medicine[4] publicou um estudo de viabilidade sobre estimulação epidural14 cervical da medula espinhal15 em sete pessoas com hemiparesia16 crônica de membro superior após AVC. Durante quatro semanas de estimulação, não ocorreram eventos adversos graves; com o dispositivo ligado, houve melhora imediata média de 32% na força e de 5,6 pontos no Fugl-Meyer Assessment. Ao fim do estudo, a melhora média em relação à linha de base foi de 6,6 pontos. O estudo é pequeno e preliminar, mas sugere potencial para uma abordagem neuroprostética em pacientes com sequelas17 motoras crônicas pós-AVC.
A Nature Medicine[5] também publicou um estudo sobre alterações de microglia na transição entre acúmulo de beta-amiloide e tau e desenvolvimento de demência18. A análise utilizou transcriptômica espacial e RNA de núcleo único em córtex frontal de octogenários com e sem demência18 e centenários cognitivamente preservados. Os pesquisadores identificaram programas microgliais associados a trajetórias divergentes — progressão para demência18 ou resiliência cognitiva19 apesar de patologia20 amiloide —, ajudando a explicar por que algumas pessoas preservam a cognição21 mesmo com alterações neuropatológicas típicas da doença de Alzheimer22.
Medicina preventiva
Um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine[6] avaliou a associação entre treinamento de resistência de longo prazo e mortalidade23. A análise acompanhou mais de 147 mil participantes por até 30 anos e observou que 90 a 119 minutos semanais de exercícios de força se associaram a um risco 13% menor de mortalidade23 por todas as causas, 19% menor de mortalidade23 cardiovascular e 27% menor de mortalidade23 por doenças neurológicas, em comparação à ausência de treinamento de resistência. Como estudo observacional, não prova causalidade, mas reforça o papel do exercício de força como componente da prevenção e do envelhecimento saudável.
Gastroenterologia
O JAMA[7] publicou uma análise de custo-efetividade comparando o rastreamento com teste imunoquímico fecal isolado versus a combinação do teste fecal com antígeno24 fecal para Helicobacter pylori. Com base em ensaio clínico randomizado25 envolvendo 240 mil indivíduos, a estratégia combinada foi econômica em 65,7% das simulações probabilísticas e custo-efetiva nas demais, sugerindo que associar rastreamento de câncer6 colorretal e detecção de H. pylori pode ser uma abordagem eficiente, especialmente em programas populacionais que já utilizam FIT.
A Anvisa aprovou a ampliação de indicação do ustequinumabe (Stelara)[8] para crianças a partir de 2 anos com doença de Crohn9 ativa moderada a grave. O medicamento, um anticorpo26 monoclonal que inibe as interleucinas 12 e 23, já era usado em adultos e passa a oferecer alternativa biológica para uma população pediátrica com doença potencialmente debilitante e opções terapêuticas mais limitadas.
Nefrologia
O New England Journal of Medicine[9] publicou um relato clínico de fase 1 em que células27 CAR-T direcionadas a CD19 e BCMA foram usadas para dessensibilização2 antes de transplante renal3 em dois candidatos altamente sensibilizados, com cPRA ≥99,9%. A estratégia reduziu anticorpos28 anti-HLA e ampliou a compatibilidade para transplante; ambos foram transplantados com sucesso, e um dos pacientes permanecia com enxerto29 funcionante mais de 9 meses após o procedimento. Embora os dados ainda sejam iniciais e envolvam apenas dois pacientes, o estudo representa uma aplicação inédita da terapia CAR-T fora da oncologia para viabilizar transplante de órgão sólido.
Reumatologia
O New England Journal of Medicine[10] publicou o ensaio fase 3 INDIGO, que avaliou obexelimabe em pacientes com doença relacionada à IgG4 ativa. O anticorpo26 monoclonal bifuncional, que inibe células27 B sem provocar depleção30 celular, foi administrado por via subcutânea31 semanal por 52 semanas, com retirada padronizada de corticosteroides na semana 8. O tratamento reduziu significativamente o risco de recaída em comparação ao placebo32 e também reduziu o uso acumulado de glicocorticoides e a toxicidade33 relacionada a corticosteroides, com perfil de segurança semelhante ao placebo32.
Saiba mais sobre "Atividade física", "Prevenção do declínio cognitivo34" e "Doença de Crohn9".
Hematologia
O New England Journal of Medicine[11] publicou o estudo ASCERTAIN-V, que avaliou a combinação totalmente oral de decitabina-cedazuridina com venetoclax em 101 adultos com leucemia35 mieloide aguda recém-diagnosticada, com 75 anos ou mais ou inelegíveis para quimioterapia36 intensiva. A taxa de resposta completa foi de 47%, a taxa de resposta completa ou resposta completa com recuperação hematológica incompleta foi de 63%, e a sobrevida37 global mediana foi de 15,5 meses. Os eventos adversos grau 3 ou superior mais comuns foram anemia38, neutropenia39 e neutropenia39 febril. A publicação reforça a base clínica de um regime totalmente oral para pacientes40 idosos ou frágeis com LMA.
Endocrinologia
O New England Journal of Medicine[12] publicou o estudo fase 3 SYNCHRONIZE-1, que avaliou survodutide, agonista41 duplo dos receptores de glucagon42 e GLP-1, em adultos com obesidade4 ou sobrepeso43 sem diabetes tipo 244. O ensaio incluiu 725 participantes, com IMC45 médio inicial de 37,9 e peso médio de 108,8 kg. Em 76 semanas, a variação média do peso corporal foi de −12,2% com survodutide 3,6 mg, −13,0% com survodutide 6,0 mg e −5,4% com placebo32. A perda de pelo menos 5% do peso ocorreu em 72,6%, 71,9% e 46,3% dos participantes, respectivamente. Os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais, geralmente leves a moderados, ocorrendo em 80,9% no grupo 3,6 mg, 89,7% no grupo 6,0 mg e 47,9% no placebo32.
A Nature Medicine[13] publicou o estudo fase 3 SYNCHRONIZE-MASLD, que avaliou survodutide em adultos com obesidade4 e doença hepática5 esteatótica associada à disfunção metabólica com inflamação46 e/ou fibrose47. O estudo randomizou 216 participantes para survodutide 6,0 mg semanal ou placebo32 e atingiu seus dois desfechos coprimários: redução de pelo menos 30% no conteúdo hepático de gordura48 por MRI-PDFF e redução percentual do peso corporal em 48 semanas. Cerca de seis em cada dez participantes tratados alcançaram normalização da gordura48 hepática5, sugerindo potencial benefício em uma população com risco cardiometabólico e hepático aumentado.
Oncologia
O JAMA[14] publicou o estudo ALCHEMIST, que avaliou nivolumabe adjuvante versus observação em câncer6 de pulmão8 de células27 não pequenas ressecado. O ensaio incluiu 935 pacientes e, após mediana de seguimento de 72,6 meses, não mostrou melhora significativa da sobrevida37 livre de doença com nivolumabe: 71,3 meses versus 68,8 meses. Também não houve benefício claro em pacientes com PD-L1 ≥50%, e eventos adversos relacionados ao tratamento grau 3 a 5 ocorreram em 25% dos pacientes tratados. O resultado é importante por indicar que o uso adjuvante isolado após terapia padrão não deve ser generalizado nesse cenário.
A Anvisa aprovou nova indicação para enfortumabe vedotina (Padcev)[15] em combinação com pembrolizumabe para pacientes40 com câncer6 de bexiga7 músculo-invasivo inelegíveis à quimioterapia36 contendo cisplatina. A indicação contempla o uso como tratamento neoadjuvante e continuidade após cistectomia radical como tratamento adjuvante, ampliando as opções para pacientes40 com doença potencialmente curável, mas sem condições de receber cisplatina.
A Anvisa também ampliou a indicação do tislelizumabe (Tevimbra)[16] para câncer6 de pulmão8 de células27 não pequenas em primeira linha. A nova indicação inclui adultos com doença escamosa49 localmente avançada não candidata a cirurgia ou quimiorradioterapia à base de platina, ou metastática, em combinação com carboplatina e paclitaxel ou nab-paclitaxel; e pacientes com doença não escamosa49, PD-L1 ≥50%, sem alterações EGFR ou ALK, em combinação com pemetrexede e quimioterapia36 à base de platina.
Dermatologia
O Lancet Child & Adolescent Health[17] publicou o ensaio fase 3 DELTA TEEN, que avaliou delgocitinibe em creme em adolescentes de 12 a 17 anos com eczema50 crônico51 de mãos52 moderado a grave, sem resposta adequada a corticosteroides tópicos. Em 98 participantes, o sucesso terapêutico medido pelo escore IGA-CHE na semana 16 ocorreu em 64% dos pacientes tratados com delgocitinibe, contra 29% no grupo veículo. O estudo é relevante por abordar uma condição com impacto funcional importante e poucas opções específicas para adolescentes.
Veja também sobre "Leucemias", "Tratamento do câncer6" e "Tratamento da obesidade4".
Referências
[1] Medically tailored meals receipt and healthcare utilization and costs in Massachusetts' Medicaid demonstration. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[2] AI Chatbot Use and Disclosure for Mental Health Among US Adolescents and Young Adults. 2026. Disponível em JAMA Pediatrics.
[3] Maternal Respiratory Syncytial Virus10 Prefusion F Vaccination and Acute Respiratory Illness in Infants. 2026. Disponível em JAMA Network Open.
[4] Spinal cord stimulation for upper limb motor function in people with chronic post-stroke hemiparesis: a feasibility trial. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[5] Human microglial transitions at the Aβ–tau inflection point associate with divergent pathways to dementia and resilience. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[6] Long-term resistance training with all-cause and cause-specific mortality: assessing dose-response and joint associations with aerobic physical activity. 2026. Disponível em British Journal of Sports Medicine.
[7] Cost-Effectiveness of Fecal Immunochemical Testing Alone vs Co-Testing With Helicobacter pylori Stool Antigen. 2026. Disponível em JAMA.
[8] Anvisa aprova medicamento para tratamento de crianças com doença de Crohn9. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[9] Kidney Transplantation in Two Highly Sensitized Candidates after CAR T-Cell Therapy. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[10] Obexelimab for the Treatment of IgG4-Related Disease. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[11] All-Oral Treatment of Newly Diagnosed Acute Myeloid Leukemia. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[12] Survodutide Once Weekly for the Treatment of Adults with Obesity. 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[13] Survodutide in adults with obesity and metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease: SYNCHRONIZE-MASLD. 2026. Disponível em Nature Medicine.
[14] Adjuvant Nivolumab vs Observation in Resected Non-Small Cell Lung Cancer6: A Randomized Clinical Trial. 2026. Disponível em JAMA.
[15] Anvisa aprova nova indicação terapêutica53 para medicamento que trata câncer6 de bexiga7. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[16] Anvisa amplia indicação de medicamento para câncer6 de pulmão8. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[17] Delgocitinib cream for adolescents with moderate to severe chronic hand eczema50 (DELTA TEEN). 2026. Disponível em The Lancet Child & Adolescent Health.










