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Testes de microbioma intestinal apresentam resultados diferentes ao analisar a mesma amostra de fezes

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Testes de microbioma1 intestinal vendidos diretamente ao consumidor produziram resultados marcadamente diferentes, mesmo ao analisar a mesma amostra de fezes, descobriram pesquisadores.

Amostras fecais idênticas enviadas por meio de 21 kits de teste domiciliar a sete empresas anônimas de testes diretos ao consumidor resultaram em ampla variação na abundância bacteriana reportada e nas avaliações de saúde2 geradas a partir desses dados, relataram Stephanie L. Servetas, PhD, do National Institute of Standards and Technology (NIST) em Maryland, EUA, e seus colegas, em estudo publicado na revista Communications Biology.

Em alguns casos, não houve sequer concordância entre kits produzidos pela mesma empresa. De três amostras idênticas analisadas por um fornecedor, uma foi classificada como “não saudável”, enquanto as outras duas foram rotuladas como “saudáveis”.

Acredita-se que o estudo seja a primeira avaliação sistemática do desempenho analítico desses testes diretos ao consumidor. Suas descobertas levantam questões sobre consistência e confiabilidade em um mercado de testes para o consumidor em rápida expansão, que opera fora da regulamentação tradicional de laboratórios clínicos.

“Não fizemos isso para tentar desacreditar o movimento científico do microbioma”, disse o coautor Scott Jackson, PhD, durante uma coletiva para anunciar as descobertas. “Sou um membro orgulhoso desta comunidade e só quero o melhor para ela. Fizemos isso para realmente destacar o estado atual deste campo e, especificamente, suas aplicações provavelmente de maior relevância, que as terapias e os diagnósticos.”

Leia sobre "Microbioma1 intestinal humano", "Disbiose intestinal3" e "Exame parasitológico de fezes".

Testes de venda direta ao consumidor não são considerados diagnósticos nem regulamentados como tal, mas “obviamente há muita semelhança aqui”, disse ele. “Queremos que a indústria e a comunidade científica façam melhor, e estamos ajudando a impulsionar esse movimento de aprimoramento”, acrescentou Jackson, ex-funcionário do NIST e agora fundador da empresa de consultoria biotécnica NEST.

Quando os pesquisadores compararam, entre as empresas, 18 gêneros microbianos comumente reportados, nenhum fornecedor coincidiu com o perfil de consenso para todos os 18. Em todo o conjunto de dados, foram reportados 1.208 táxons4 únicos, mas apenas três gêneros apareceram nos resultados de todas as empresas.

O gênero Clostridium foi um dos mais variáveis. Enquanto o American Gut Project relatou uma abundância média de Clostridium de pouco mais de 2,5% do microbioma1 intestinal total, uma empresa participante do estudo reportou um nível aproximadamente cinco vezes maior, e outras três não conseguiram detectá-lo em uma ou mais amostras. O gênero inclui espécies associadas a doenças humanas, entre elas Clostridioides difficile, causadora de diarreia5.

Os autores afirmaram que as discrepâncias provavelmente decorrem de diferenças no processamento das amostras, nos métodos de sequenciamento, nos fluxos de trabalho de bioinformática, nos bancos de dados de referência, nos limites de detecção e nos padrões de controle de qualidade. Eles argumentaram que protocolos de amostragem padronizados e parâmetros analíticos de referência são necessários para garantir a reprodutibilidade dos resultados e a confiança dos consumidores.

“Esses testes se popularizaram, em parte porque as pessoas, acredito, estão cada vez mais interessadas em saúde2 e bem-estar, e em parte porque o microbioma1 intestinal tem sido associado – pelo menos no imaginário popular – à ideia de que é possível melhorar uma série de condições por meio de mudanças na dieta e no estilo de vida”, disse a coautora Diane Hoffmann, mestre em ciências e doutora em direito pela Universidade de Maryland, em Baltimore, EUA.

“Houve muita propaganda em torno disso, mas essa propaganda não corresponde às evidências. Esses testes geralmente têm evidências limitadas que os sustentam, especialmente quando se trata de orientar decisões clínicas ou mesmo recomendações dietéticas básicas”, acrescentou. “Portanto, o marketing pode ser questionável e os consumidores podem acabar interpretando mal ou confiando demais em resultados que não são muito confiáveis.”

Para criar um material de referência padronizado, os pesquisadores homogeneizaram fezes de um único doador, prepararam suspensões de 100 mg/mL, liofilizaram o material e o armazenaram a -80 °C para manter a consistência. Essas amostras idênticas foram então enviadas a empresas que oferecem fluxos de trabalho baseados em sequenciamento do gene 16S rRNA ou em sequenciamento metagenômico shotgun6 de genoma total.

“O objetivo deste material é realmente mostrar o quão reprodutíveis são os resultados, seja entre empresas ou dentro de uma mesma empresa”, disse a microbiologista Servetas, do NIST. “Mas ele não será capaz de nos dizer quem chegou mais perto da resposta correta.”

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Avaliando o desempenho analítico de serviços de teste de microbioma1 intestinal vendidos diretamente ao consumidor

O interesse do consumidor na saúde2 do microbioma1 pessoal deu origem a inúmeros serviços de teste de microbioma1 vendidos diretamente ao consumidor, apesar das dúvidas quanto à sua validade analítica e clínica, bem como à segurança para o consumidor.

Esses testes situam-se na fronteira entre dispositivos médicos mais rigorosamente regulamentados e produtos de saúde2 e bem-estar geral minimamente regulamentados; uma distinção que pode não ser facilmente percebida pelos consumidores.

Para avaliar o estado atual do setor, avaliou-se o desempenho de sete serviços de teste de microbioma1 intestinal vendidos diretamente ao consumidor, usando um material fecal humano padronizado, desenvolvido pelo NIST.

Os resultados revelam discrepâncias importantes, tanto dentro de cada provedor de serviços quanto entre eles. Significativamente, descobriu-se que a variabilidade entre os provedores estava na mesma escala que a variabilidade biológica entre diferentes doadores.

As diferenças observadas foram atribuídas à variabilidade metodológica e à falta de controle de qualidade suficiente. Além disso, destacou-se que o desempenho analítico é um pré-requisito para fazer recomendações clínicas sólidas.

Esses resultados demonstram a necessidade de padrões para garantir a validade analítica e a confiança do consumidor.

Veja também sobre "O que é transplante de fezes ou terapia bacteriana" e "As relações entre intestino e cérebro7".

 

Fontes:
Communications Biology, publicação em 26 de fevereiro de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 26 de fevereiro de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Testes de microbioma intestinal apresentam resultados diferentes ao analisar a mesma amostra de fezes. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1501665/testes-de-microbioma-intestinal-apresentam-resultados-diferentes-ao-analisar-a-mesma-amostra-de-fezes.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Microbioma: Comunidade ecológica de microrganismos comensais, simbióticos e patogênicos que compartilham nosso espaço corporal. Microbioma humano é o conjunto de microrganismos que reside no corpo do Homo sapiens, mantendo uma relação simbiótica com o hospedeiro. O conceito vai além do termo microbiota, incluindo também a relação entre as células microbianas e as células e sistemas humanos, por meio de seus genomas, transcriptomas, proteomas e metabolomas.
2 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
3 Disbiose intestinal: Definida como o desequilíbrio da flora intestinal, entre os microrganismos benéficos e patogênicos, que resulta em uma situação desfavorável à saúde do indivíduo.
4 Táxons: Táxon (no plural “taxaâ€) é a unidade taxonômica associada à classificação científica de seres vivos. Reino, ordem, gênero e espécie são exemplos de taxa.
5 Diarréia: Aumento do volume, freqüência ou quantidade de líquido nas evacuações.Deve ser a manifestação mais freqüente de alteração da absorção ou transporte intestinal de substâncias, alterações estas que em geral são devidas a uma infecção bacteriana ou viral, a toxinas alimentares, etc.
6 Shotgun: Em metagenômica, o sequenciamento por shotgun é feito da mesma forma que em genomas de culturas clonadas. Porém, o material genético original não é de apenas um organismo, mas de uma comunidade. Dependendo da amostra, o DNA fornece apenas um fragmento do genoma dos organismos daquele ambiente.
7 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
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