Metanálise comparou benefícios e malefícios de 19 medicamentos para obesidade
O número crescente de novos medicamentos para obesidade1 é uma notícia bem-vinda para médicos e para o mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo que vivem com obesidade1 ou sobrepeso2, uma vez que ampliam as opções de tratamento.
Além de proporcionar uma perda de peso clinicamente significativa, a nova geração de medicamentos para obesidade1 também pode reduzir o risco cardiovascular em pessoas com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida e melhorar outras condições associadas à obesidade1.
Com o aumento do número de novos fármacos, os médicos precisam agora escolher o tratamento adequado para cada paciente, individualizando o equilíbrio entre benefícios e efeitos adversos.
Em um estudo publicado no The BMJ, Nong e colaboradores apresentam um resumo atualizado das evidências sobre os benefícios e malefícios comparativos dos medicamentos para obesidade1. Eles sintetizaram dados de 262 ensaios clínicos3 que avaliaram 19 medicamentos para obesidade1, com períodos de acompanhamento variando de 12 a 172 semanas.
Essa metanálise em rede, que abrange medicamentos para obesidade1 aprovados pelos principais órgãos reguladores ou que aguardam aprovação, vai além da perda de peso, apresentando dados sobre 24 desfechos clínicos, incluindo alterações na massa gorda4 e na massa magra5, qualidade de vida, eventos cardiovasculares, progressão da doença renal6, efeitos adversos e mortalidade7 por todas as causas.
Após um ano, as maiores reduções de peso, em comparação com intervenções no estilo de vida isoladamente e considerando evidências de certeza moderada a alta, foram observadas com tirzepatida (-14,9%) e cagrilintida-semaglutida (CagriSema; -14,8%). Em seguida apareceram semaglutida oral (-10,9%), orforglipron (-9,9%), semaglutida subcutânea8 (-9,8%) e fentermina-topiramato (-8,1%). Outros medicamentos ainda em desenvolvimento, como retatrutida, ecnoglutida e mazdutida, também apresentaram grandes reduções de peso, mas as evidências disponíveis para esses fármacos foram classificadas como de baixa ou muito baixa certeza.
Os tratamentos com maior efeito sobre o peso, porém, tenderam também a apresentar mais efeitos adversos e interrupções do tratamento. Eventos gastrointestinais foram particularmente frequentes com naltrexona-bupropiona, semaglutida oral, orforglipron e tirzepatida, enquanto o risco de fadiga9 aumentou principalmente com naltrexona-bupropiona, orforglipron e CagriSema.
Para os desfechos cardiovasculares, a semaglutida subcutânea8 foi o único medicamento associado, com evidência de certeza moderada ou alta, à redução da mortalidade7 por todas as causas e do risco de infarto do miocárdio10. O risco de insuficiência cardíaca11 foi menor tanto com semaglutida subcutânea8 quanto com tirzepatida. No entanto, a aparente superioridade da semaglutida nesses desfechos provavelmente reflete, ao menos em parte, a maior quantidade e qualidade das evidências disponíveis para o medicamento, e não necessariamente uma superioridade biológica em relação às demais opções.
Nenhum dos medicamentos reduziu de forma convincente o risco de insuficiência renal12, e nenhum apresentou melhora clinicamente importante da qualidade de vida de acordo com os limites utilizados no estudo.
Leia sobre "Tratamento da obesidade1: agonistas GLP-1 e novas tecnologias", "Repercussões cardíacas da obesidade1" e "O que significa o ganho de peso para o organismo".
Os resultados da análise, entretanto, devem ser interpretados considerando as limitações das evidências disponíveis. Embora alguns estudos tenham acompanhado os participantes por mais de três anos, a duração mediana do acompanhamento foi de apenas 26 semanas, e poucos ensaios ultrapassaram dois anos. Vale ressaltar, ainda, que a metanálise em rede não teve acesso a dados individuais que modificam a eficácia de medicamentos específicos, como por exemplo, sexo, diabetes tipo 213 e adesão ao tratamento.
Especialistas também ressaltaram que muitos estudos de medicamentos para perda de peso não foram desenhados especificamente, nem tiveram duração suficiente, para avaliar desfechos como infarto do miocárdio10, insuficiência cardíaca11 e mortalidade7. Assim, a ausência de evidências de benefício para determinados medicamentos não significa necessariamente evidência de ausência desses benefícios.
Os autores destacam que a escolha do tratamento para obesidade1 deve considerar não apenas a magnitude esperada da perda de peso, mas também os possíveis efeitos adversos, a carga do tratamento, os custos, a disponibilidade dos medicamentos e as preferências do paciente. Dessa forma, não há, nesse momento, um ‘melhor’ medicamento para todos os desfechos, o que enfatiza a necessidade do tratamento individualizado da obesidade1.
Confira a seguir o resumo do artigo publicado.
Efeitos comparativos de medicamentos para adultos com sobrepeso2 ou obesidade1: revisão sistemática e metanálise em rede
O objetivo do estudo foi fornecer um resumo atualizado das evidências sobre os benefícios e danos comparativos de medicamentos para adultos com sobrepeso2 ou obesidade1, visando embasar a tomada de decisão de formuladores de políticas, pagadores, profissionais de saúde14 e pacientes.
O desenho do estudo foi uma revisão sistemática e metanálise em rede de 24 desfechos, utilizando modelos frequentistas de efeitos aleatórios e modelos bayesianos de dose-resposta, a abordagem GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development, and Evaluation) e a ferramenta Cochrane Risk of Bias 2.
As fontes de dados foram Medline, Embase e Cochrane Library, com buscas realizadas até 12 de novembro de 2025.
A seleção de estudos incluiu ensaios clínicos3 randomizados com duração de 12 semanas ou mais, comparando um ou mais medicamentos com modificação do estilo de vida, placebo15 ou outro medicamento.
Esta metanálise em rede incluiu 262 ensaios (99.791 participantes) avaliando 19 medicamentos, com acompanhamento variando de 12 a 172 semanas.
Em comparação com a modificação do estilo de vida isolada, após um ano, evidências de certeza moderada a alta demonstram perda de peso substancial com tirzepatida (diferença média de -14,9%; intervalo de confiança de 95%: -16,0% a -13,9%), cagrilintida-semaglutida (CagriSema; -14,8%; -16,9% a -12,7%), semaglutida oral (-10,9%; -12,7% a -9,1%), orforglipron (-9,9%; -12,4% a -7,5%), semaglutida subcutânea8 (-9,8%; -10,6% a -9,1%) e fentermina-topiramato (-8,1%; -9,7% a -6,5%).
Agentes emergentes (ecnoglutida, mazdutida, retatrutida) podem produzir reduções semelhantes ou maiores (13,1% a 14,6%; certeza muito baixa a baixa).
Evidências de certeza moderada a alta indicam que a descontinuação do tratamento devido a eventos adversos foi mais frequente com orforglipron, naltrexona-bupropiona, liraglutida, fentermina-topiramato, CagriSema e semaglutida oral (razões de risco entre 1,9 e 4,2); os eventos gastrointestinais foram mais frequentes com naltrexona-bupropiona, semaglutida oral, orforglipron e tirzepatida (razões de risco entre 3,1 e 4,2).
O risco de fadiga9 aumentou, particularmente com naltrexona-bupropiona (razão de risco 8,9; aumento absoluto de 331 por 1.000 pessoas em um ano), orforglipron (3,4; 100 a mais por 1.000) e CagriSema (3,2; 92 a mais por 1.000).
A tirzepatida foi o fármaco16 que mais reduziu a massa gorda4 (25,7%), mas também o que mais reduziu a massa magra5 (8,3%).
A semaglutida subcutânea8 foi o único fármaco16 associado à redução da mortalidade7 por todas as causas (razão de risco 0,81; intervalo de confiança de 95%: 0,72 a 0,93) e do infarto do miocárdio10 (0,72; 0,61 a 0,85), sendo essas estimativas baseadas principalmente em estudos de desfechos cardiovasculares em populações de alto risco. A semaglutida subcutânea8 (0,43; 0,21 a 0,84) e a tirzepatida (0,49; 0,27 a 0,88) reduziram o risco de insuficiência cardíaca11.
Nenhum fármaco16 reduziu de forma convincente a insuficiência renal12 ou melhorou a qualidade de vida (43 estudos com 45.663 participantes) além das diferenças mínimas importantes estabelecidas (todas as diferenças de média <5 pontos; diferença mínima importante de 10).
Exceto por reduções de peso maiores em estudos de maior duração (observadas com a semaglutida subcutânea8), as análises de subgrupos quanto às doses dos fármacos e às principais características dos pacientes não identificaram diferenças confiáveis nos efeitos relativos do tratamento.
O estudo concluiu que os medicamentos para obesidade1 produzem perda de peso variável em um ano, sendo que benefícios maiores são geralmente acompanhados por maiores riscos de efeitos adversos e descontinuação. A maioria dos agentes não melhora a qualidade de vida de forma significativa, e poucos demonstram benefícios cardiovasculares.
As decisões na prática clínica devem considerar o equilíbrio entre benefícios e danos, no contexto da tomada de decisão compartilhada.
Veja também sobre "Composição corporal - Como avaliar e como melhorar", "Dificuldades para emagrecer" e "Riscos da gordura17 visceral elevada".
Fontes:
The BMJ, publicação em 08 de julho de 2026.
The BMJ, editorial publicado em 08 de julho de 2026.










