Atlas Mundial da Obesidade 2026: mais crianças com obesidade do que com baixo peso pela primeira vez na história
A World Obesity Federation (WOF) divulgou o Atlas1 Mundial da Obesidade2 2026, relatório que pela primeira vez na história registra um marco preocupante: o número de crianças vivendo com obesidade2 em escala global deve superar o número de crianças com baixo peso.
O documento, que analisa dados de 196 países e apresenta projeções até 2040, evidencia que a obesidade2 infantil deixou de ser um problema circunscrito aos países ricos para se tornar uma epidemia de alcance verdadeiramente global, e crescente especialmente nos países de renda média.
Em 1975, apenas 4% das crianças em idade escolar viviam com obesidade2. Em 2022, essa proporção se aproximava de 20% em diversas regiões do mundo. O Atlas1 2026 traz projeções que apontam para uma continuidade dessa trajetória, com consequências sérias para a saúde3 das próximas gerações.
Os números globais: uma epidemia em aceleração
Em 2025, estimava-se que 177 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com obesidade2 no mundo. Esse número deve chegar a 228 milhões em 2040, com a prevalência4 global subindo de 8,7% para 11,9%. Se forem considerados sobrepeso5 e obesidade2 em conjunto, o quadro é ainda mais expressivo:
- 419 milhões de crianças e adolescentes viviam com excesso de peso em 2025.
- 507 milhões devem ter excesso de peso em 2040 – mais de 1 em cada 4 crianças do mundo.
- Mais de 180 países registraram aumento da obesidade2 infantil desde 2010.
- Apenas 15 países apresentaram redução na prevalência4 nesse período.
O crescimento mais acelerado ocorre nos países de renda média, onde vive a maior parte da população infantil do planeta. Atualmente, dez países concentram mais de 200 milhões de crianças e adolescentes com excesso de peso: China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão, Brasil, Egito, México, Nigéria e República Democrática do Congo.
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Doenças crônicas precoces: a obesidade2 não espera a vida adulta
Um dos achados mais preocupantes do Atlas1 é a demonstração de que os danos à saúde3 associados ao excesso de peso já se manifestam na infância e adolescência. Até 2040, o relatório projeta que:
- 124 milhões de crianças e adolescentes poderão apresentar doença hepática6 esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD)
- 58 milhões terão níveis elevados de triglicerídeos
- 43 milhões apresentarão hipertensão arterial7
- 18 milhões terão hiperglicemia8, precursora do diabetes tipo 29
Além dos impactos metabólicos e cardiovasculares, a obesidade2 infantil está associada a consequências psicossociais relevantes, como estigma, bullying e comprometimento da autoestima, que podem repercutir ao longo de toda a vida.
Brasil: 16,5 milhões de crianças com excesso de peso
O scorecard brasileiro publicado no Atlas1 2026 detalha a dimensão do problema no país. Em 2025, cerca de 16,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos viviam com sobrepeso5 ou obesidade2 no Brasil — 6,6 milhões na faixa de 5 a 9 anos e 9,9 milhões entre 10 e 19 anos. O país figura entre os dez com maior número absoluto de casos no mundo.

Fonte: World Obesity Atlas1 2026 – Scorecard Brasil.
O documento também projeta o impacto futuro sobre as comorbidades10 associadas ao excesso de peso entre crianças e adolescentes brasileiros:
| Indicador de saúde3 | 2025 | 2040 |
| Hipertensão11 atribuída ao IMC12 | 1.399.000 | 1.619.000 |
| Hiperglicemia8 atribuída ao IMC12 | 572.000 | 635.000 |
| Triglicerídeos elevados atribuídos ao IMC12 | 1.875.000 | 2.110.000 |
| MASLD atribuída ao IMC12 | 4.000.000 | 4.651.000 |
Fonte: World Obesity Atlas1 2026 – Scorecard Brasil.
O dado de MASLD é particularmente expressivo: em 2025, 4 milhões de crianças e adolescentes brasileiros já apresentariam a condição, número que pode chegar a 4,65 milhões em 2040. A hipertensão11 atribuída ao excesso de peso já afeta cerca de 1,4 milhão de jovens e deve ultrapassar 1,6 milhão na próxima década e meia.
Fatores de risco no Brasil: bebidas açucaradas, sedentarismo13 e aleitamento inadequado
O Atlas1 avalia sete indicadores de exposição a fatores de risco para a obesidade2. Os dados brasileiros revelam vulnerabilidades importantes em diferentes fases da vida:
- Período pré-natal: 32,9% das mulheres brasileiras entre 15 e 49 anos apresentam exposição agregada ao IMC12 elevado, e 3,7% têm diabetes tipo 29 — fatores que aumentam o risco de obesidade2 nos filhos.
- Aleitamento materno14 inadequado: 51,7% dos bebês15 entre 1 e 5 meses não são amamentados de forma adequada — uma das janelas mais importantes de proteção contra obesidade2 futura.
- Bebidas açucaradas: crianças de 6 a 10 anos consomem em média 150 a 200 ml diários — quantidade associada ao aumento do risco metabólico.
- Atividade física: 84% dos adolescentes entre 11 e 17 anos não atingem as recomendações mínimas de atividade física — o que pode aumentar o risco de obesidade2.
Em contrapartida, o país apresenta desempenho positivo no programa de alimentação escolar: 100% das crianças em idade escolar recebem alguma forma de refeição escolar, com metas nutricionais e relacionadas à obesidade2 estabelecidas, e política de compras de alimentos saudáveis de caráter obrigatório.
Saiba mais sobre "Sedentarismo13", "Os perigos dos sucos em caixinhas" e "Tipos de exercícios físicos".
Políticas públicas: avanços e lacunas
O Atlas1 avalia também o desempenho dos países em sete indicadores de política pública. O Brasil apresenta um panorama misto. Há diretrizes nacionais de atividade física para todas as faixas etárias (inclusive menores de 5 anos e de 5 a 19 anos), políticas para reduzir a exposição de crianças ao marketing de alimentos e implementação razoável do Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno (83 de 100 pontos).
Por outro lado, o país ainda não conta com políticas de promoção de atividade física especificamente voltadas para a educação infantil, uma lacuna relevante considerando que os primeiros anos de vida são determinantes para a formação de hábitos saudáveis.
No cenário global, apenas 73 países possuem políticas para limitar o marketing de alimentos para crianças, e mais de 100 países sequer reportam a implementação dessas medidas, evidenciando que a resposta regulatória segue aquém da velocidade da epidemia.
Obesidade2, pobreza e ambiente alimentar
Um dos aspectos centrais do Atlas1 é a desmistificação da obesidade2 como problema de países ricos ou de escolhas individuais. A maior parte das crianças com obesidade2 hoje vive em países de renda média e, dentro desses países, a prevalência4 tende a ser mais alta em famílias de menor renda.
O fenômeno é explicado por determinantes estruturais: alimentos ultraprocessados mais baratos e acessíveis, custo mais elevado de frutas e hortaliças, ausência de espaços seguros para atividade física em áreas periféricas, longas jornadas de trabalho dos responsáveis e exposição intensa ao marketing de produtos alimentares de baixo valor nutricional. Fome, deficiência nutricional e obesidade2 hoje coexistem nos mesmos países, nas mesmas comunidades e, frequentemente, dentro das mesmas famílias.
O que os especialistas recomendam
Diante do cenário projetado, o Atlas1 da Obesidade2 reforça a necessidade de ações integradas em múltiplos níveis. Entre as intervenções com maior evidência de impacto estão:
- Taxação de bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados.
- Restrição da publicidade de alimentos para crianças em todos os meios, incluindo plataformas digitais.
- Rotulagem nutricional frontal clara, de fácil compreensão.
- Promoção do aleitamento materno14 exclusivo nos primeiros seis meses de vida.
- Ampliação de programas de alimentação escolar saudável e de qualidade.
- Criação de ambientes urbanos que estimulem a atividade física desde a infância.
- Monitoramento sistemático do estado nutricional de crianças e adolescentes.
Uma urgência16 clínica e de saúde3 pública
O Atlas1 Mundial da Obesidade2 2026 deixa pouco espaço para complacência. A velocidade com que a obesidade2 infantil avança, especialmente em países como o Brasil, impõe desafios concretos para clínicos, pediatras, nutricionistas e gestores de saúde3. A hipertensão11, a hiperglicemia8, a MASLD e a dislipidemia deixaram de ser condições exclusivamente adultas.
No consultório, isso significa incorporar de forma sistemática a avaliação do estado nutricional, dos hábitos alimentares e do nível de atividade física desde as primeiras consultas pediátricas. No plano sistêmico17, significa exigir que as políticas públicas acompanhem a urgência16 que os dados impõem.
Como alerta o próprio Atlas1: sem ação decisiva, milhões de crianças entrarão na vida adulta já convivendo com doenças crônicas evitáveis, pressionando sistemas de saúde3 já sobrecarregados e comprometendo o bem-estar das próximas gerações.
Confira aqui o Atlas1 Mundial da Obesidade2 2026 na íntegra.
Fonte: World Obesity Federation, publicação em março de 2026.










