Nova diretriz ACC/AHA 2026 sobre dislipidemia: o que mudou e o que você precisa saber
O American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA), junto a outras dez sociedades científicas, publicaram em março de 2026, no jornal científico JACC, a nova diretriz sobre manejo das dislipidemias.
O documento, intitulado formalmente 2026 ACC / AHA / AACVPR / ABC / ACPM / ADA / AGS / AphA / ASPC / NLA / PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia, substitui integralmente a diretriz de 2018 sobre colesterol1 sanguíneo.
Com certo atraso em relação às sociedades europeias – a ESC/EAS já havia atualizado suas recomendações em 2025 – e à Sociedade Brasileira de Cardiologia, que também incorporou conceitos semelhantes no mesmo ano, os norte-americanos formalizaram uma série de mudanças que já vinham sendo discutidas na literatura.
O foco agora vai além do LDL2: a diretriz amplia o escopo para lipoproteínas aterogênicas em sentido mais amplo, com destaque para a Lp(a), a ApoB e o papel crescente da aterosclerose3 subclínica na tomada de decisão clínica.
A mensagem central do documento pode ser resumida em quatro pontos: rastrear mais cedo, checar com regularidade, mirar alvos de LDL2 mais baixos e tratar por mais tempo.
Os destaques da diretriz

1. Tratar mais cedo para reduzir a exposição cumulativa às lipoproteínas aterogênicas
A diretriz reforça que o dano vascular4 associado às lipoproteínas depende tanto do nível quanto da duração da exposição. O aconselhamento sobre hábitos de vida deve começar na juventude, e a farmacoterapia deve ser considerada precocemente em jovens com hipercolesterolemia5 familiar (HF) e em adultos jovens com LDL2-C ≥160 mg/dL6 ou história familiar forte de doença cardiovascular aterosclerótica (DCVA) prematura. Tratar cedo, por mais tempo, é mais eficaz do que tratar intensivamente tarde.
2. Novo cálculo7 de risco: as equações PREVENT substituem as Pooled Cohort Equations
Esta é uma das mudanças mais práticas da diretriz. As antigas Pooled Cohort Equations (PCE), usadas desde 2013, são substituídas pelas equações PREVENT da AHA para estimativa do risco em 10 e 30 anos, aplicáveis a adultos de 30 a 79 anos sem DCVA estabelecida e com LDL2-C entre 70 e 189 mg/dL6.
As novas categorias de risco de DCVA em 10 anos ficam assim:
- Baixo: <3%
- Limítrofe: 3% a <5%
- Intermediário: 5% a <10%
- Alto: ≥10%
Vale notar que a diretriz brasileira usa o corte de 20% para definir alto risco pelo PREVENT, diferindo aqui da americana. O framework proposto para a tomada de decisão é o modelo CPR: Calcular o risco em 10 anos, Personalizar o risco estimado considerando fatores não contemplados nas equações e, se ainda houver incerteza, possivelmente Reclassificar com o escore de cálcio coronário (CAC) e Reavaliar as recomendações de tratamento.
A terapia hipolipemiante pode ser considerada no risco limítrofe (3 a < 5%) e deve ser considerada no risco intermediário (5 a < 10%), após discussão com o paciente.
Saiba mais sobre "Dislipidemia", "Aterosclerose3" e "Doenças cardiovasculares8".
3. As metas absolutas de LDL2-C voltam a guiar o tratamento
A diretriz de 2018 havia se afastado de metas absolutas de LDL2 em favor da redução percentual. A de 2026 reintroduz os dois critérios de forma complementar. As metas variam conforme o nível de risco:
- Prevenção primária em indivíduos em risco limítrofe ou intermediário com estatina iniciada: LDL2-C <100 mg/dL6 e não-HDL9-C <130 mg/dL6
- Prevenção primária em indivíduos em alto risco (≥10%): redução ≥50% no LDL2-C; meta de LDL2-C <70 mg/dL6 e não-HDL9-C <100 mg/dL6
- Prevenção secundária em indivíduos que não estão em risco muito alto: redução de ≥50% no LDL2-C; meta de LDL2-C <70 mg/dL6 e não-HDL9-C <100 mg/dL6
- Prevenção secundária em indivíduos em risco muito alto, em terapia maximamente tolerada: meta de LDL2-C <55 mg/dL6 e não-HDL9-C <85 mg/dL6
A maioria dos pacientes com história de eventos cardiovasculares se enquadrará na categoria de risco muito alto e, portanto, na meta de LDL2-C <55 mg/dL6. A combinação de estatina de alta intensidade com ezetimiba, um anticorpo10 monoclonal anti-PCSK9 ou ácido bempedoico é o caminho para esses pacientes.
4. Lp(a) deve ser medida pelo menos uma vez em todos os adultos
Esta é uma recomendação nova e com grau de evidência COR 1 (forte). Pela primeira vez, a dosagem da lipoproteína(a) é recomendada universalmente para avaliação de risco cardiovascular, e não apenas em situações selecionadas.
O raciocínio é simples: a Lp(a) é geneticamente determinada, não é modificada por estatinas e identifica um grupo de pacientes com risco residual elevado que passaria despercebido no perfil lipídico11 convencional. Os limiares de risco são:
- ≥125 nmol/L (≥50 mg/dL6): fator intensificador de risco, associado a risco 1,4 vezes maior de DCVA
- ≥250 nmol/L (≥100 mg/dL6): risco estimado pelo menos duas vezes maior
Em indivíduos com HF, DCVA prematura ou Lp(a) elevada, recomenda-se o rastreamento em cascata de familiares de primeiro grau para Lp(a) elevada. Em pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica clínica e Lp(a) elevada que não atingiram as metas de LDL2-C e não-HDL9-C com estatina em dose máxima tolerada, recomenda-se adicionar um anticorpo10 monoclonal anti-PCSK9 com benefício cardiovascular comprovado.
5. ApoB ganha espaço como marcador de risco residual
A dosagem de apolipoproteína B (ApoB) pode ser útil para aprimorar a avaliação de risco e orientar a terapia após o alcance das metas de LDL2-C e não-HDL9-C, principalmente em indivíduos com triglicerídeos elevados (>200 mg/dL6), diabetes12 ou LDL2-C baixo (<70 mg/dL6). A dosagem de ApoB auxilia na identificação de adultos com risco residual elevado relacionado a lipoproteínas, que pode ser subestimado apenas pelo perfil lipídico11 padrão, e pode ser útil no diagnóstico13 de distúrbios lipídicos e lipoproteicos específicos.
6. Melhor estimativa do LDL2 calculado: equações Martin/Hopkins ou Sampson/NIH
A fórmula de Friedewald, usada há décadas, é substituída como método de escolha. As equações de Martin/Hopkins e de Sampson/NIH passam a ser recomendadas para a estimativa do LDL2-C em perfis lipídicos de rotina, por oferecerem maior precisão, especialmente em pacientes com LDL2-C baixo ou triglicerídeos elevados.
Leia sobre "Entendendo o colesterol1 do organismo", "O papel das apolipoproteínas" e "Estatinas: prós e contras".
7. Escore de cálcio coronário (CAC) com papel ampliado
O CAC já tinha lugar na diretriz de 2018, mas apenas como recomendação COR 2a para casos selecionados. Na diretriz 2026, o uso do escore de CAC foi promovido: em adultos de risco intermediário e adultos selecionados de risco limítrofe sem DCVA prévia, o CAC deve ser usado para estratificação de risco adicional e para orientar a decisão de suspender, adiar ou iniciar a terapia (COR 1).
Dois novos pontos práticos merecem atenção:
- CAC = 0 UA: se não houver condições de alto risco concomitantes (HF ou hipercolesterolemia5 grave ≥190 mg/dL6, diabetes12 e idade >40 anos, tabagismo atual, forte histórico familiar de DCVA prematura), é razoável adiar o tratamento e reavaliar com novo CAC em 3 a 7 anos.
- CAC ≥1000 UA: define um grupo de altíssimo risco, similar a pacientes com eventos cardiovasculares prévios, com indicação de redução de ≥ 50% no LDL2-C e meta de LDL2-C <55 mg/dL6 e não-HDL9-C <85 mg/dL6.
8. Populações especiais: diabéticos, doença renal14 crônica, HIV15
A diretriz é explícita: terapia hipolipemiante é recomendada para prevenção primária em adultos de 40 a 75 anos com diabetes12, doença renal14 crônica estágios 3 ou 4, ou infecção16 pelo HIV15 – independentemente do nível de LDL2-C. Após os 75 anos, a farmacoterapia pode ser considerada em conjunto com intervenções no estilo de vida para reduzir o risco de DCVA.
9. Novas terapias incorporadas ao arsenal
O documento formaliza a integração de fármacos mais recentes à estratégia terapêutica17. Inclisiran (agente baseado em siRNA que reduz a síntese hepática18 de PCSK9), ácido bempedoico, evinacumabe (inibidor de ANGPTL3, para hipercolesterolemia5 familiar homozigótica19) e olezarsen (para hipertrigliceridemia severa) aparecem como opções dentro dos algoritmos de tratamento. A combinação dessas terapias com estatinas e ezetimiba é o caminho para pacientes20 que não atingem as metas com as estratégias convencionais.
10. Suplementos alimentares: sem recomendação
De forma direta, a diretriz desaconselha o uso de suplementos dietéticos para reduzir LDL2-C ou triglicerídeos. Óleo de peixe sem prescrição, alho, cúrcuma, arroz vermelho fermentado e similares não têm evidência suficiente de benefício na redução de lipídios ou do risco cardiovascular. Não são recomendados.
Conclusão
A mensagem que a diretriz 2026 deixa para a prática clínica é de clareza estratégica: identificar o risco mais cedo, começar o tratamento antes, manter por mais tempo e usar as ferramentas hoje disponíveis (do escore de CAC aos inibidores de PCSK9) para garantir que os pacientes alcancem e mantenham as metas. A exposição cumulativa ao LDL2 ao longo da vida importa tanto quanto – ou mais do que – o nível pontual no momento do diagnóstico13.
Confira aqui a diretriz completa.
Fonte: JACC, publicação em 13 de março de 2026.










