Novidades da medicina nas semanas 20 e 21 de 2026: aprovação do Enhertu, ctDNA no câncer de bexiga e prevenção da COVID-19
As semanas 20 e 21 de 2026 (11 a 24 de maio) reuniram aprovações regulatórias importantes e publicações de impacto em oncologia, hematologia, infectologia, nefrologia, reumatologia, dermatologia, pneumologia e endocrinologia.
Entre os destaques, a FDA aprovou novas indicações para o trastuzumabe deruxtecana no câncer1 de mama2 HER2-positivo inicial, autorizou o atezolizumabe como tratamento adjuvante guiado por DNA tumoral circulante no câncer1 de bexiga3 músculo-invasivo e aprovou o primeiro regime totalmente oral para leucemia4 mieloide aguda recém-diagnosticada em pacientes sem indicação de quimioterapia5 intensiva. A Anvisa registrou o ustequinumabe biossimilar Yesintek e o depemoquimabe, biológico semestral para asma6 tipo 2 e rinossinusite crônica com pólipos7 nasais.
Nas revistas científicas, o New England Journal of Medicine trouxe estudos sobre ensitrelvir na profilaxia pós-exposição à COVID-19, telitacicepte na nefropatia8 por IgA e brepocitinibe na dermatomiosite; a Nature Medicine publicou dados sobre favipiravir na febre9 de Lassa e semaglutida após cirurgia bariátrica10; e o Lancet destacou a manutenção de perda de peso com tirzepatida.
A seguir, reunimos os principais acontecimentos das duas semanas, organizados por especialidade.
Oncologia
Em 15 de maio, a FDA aprovou o trastuzumabe deruxtecana (T-DXd, Enhertu®)[1] em duas novas indicações para adultos com câncer1 de mama2 HER2-positivo em estágio inicial. A primeira contempla o uso neoadjuvante de T-DXd seguido de taxano, trastuzumabe e pertuzumabe (THP) em doença estágio II ou III; a segunda é para pacientes11 com doença invasiva residual após tratamento neoadjuvante anti-HER2. No DESTINY-Breast11, a resposta patológica completa foi de 67,3% com T-DXd seguido de THP, contra 56,3% no grupo doxorrubicina/ciclofosfamida seguido de THP. No DESTINY-Breast05, a sobrevida12 livre de doença invasiva em 3 anos foi de 92,4% com T-DXd adjuvante, contra 83,7% com T-DM1. A aprovação desloca o agente, já consolidado em doença avançada, para o cenário curativo do câncer1 de mama2 HER2-positivo inicial.
Também em 15 de maio, a FDA aprovou atezolizumabe (Tecentriq®) e atezolizumabe com hialuronidase-tqjs (Tecentriq Hybreza®)[2] como tratamento adjuvante para adultos com câncer1 de bexiga3 músculo-invasivo após cistectomia, quando houver doença residual molecular detectada por DNA tumoral circulante. A decisão foi acompanhada da autorização do Signatera CDx como diagnóstico13 complementar. No estudo IMvigor011, com 250 pacientes, o atezolizumabe reduziu o risco de recorrência14 ou morte em comparação ao placebo15, com HR de 0,64 para sobrevida12 livre de doença, e também mostrou benefício em sobrevida12 global, com HR de 0,59. A aprovação inaugura uma estratégia adjuvante guiada por ctDNA nesse contexto.
Em 13 de maio, a FDA concedeu aprovação acelerada ao sonrotoclax (Beqalzi™)[3], inibidor de BCL-2, para adultos com linfoma16 de células17 do manto recidivado ou refratário após pelo menos duas linhas de tratamento, incluindo um inibidor de BTK. A decisão se baseou no estudo BGB-11417-201, com 103 pacientes, no qual a taxa de resposta global foi de 52%, com mediana de duração da resposta de 15,8 meses. Eventos adversos graves ocorreram em 37% dos pacientes, sendo pneumonia18 o mais comum.
Hematologia
A FDA aprovou, em 13 de maio, a combinação oral de decitabina e cedazuridina (Inqovi®) com venetoclax[4] para leucemia4 mieloide aguda recém-diagnosticada em adultos com 75 anos ou mais, ou com comorbidades19 que impeçam quimioterapia5 de indução intensiva. É o primeiro regime totalmente oral aprovado para essa indicação. No estudo ASTX727-07, de braço único, com 101 pacientes, a taxa de resposta completa foi de 41,6%, com tempo mediano até resposta de 2 meses. A revisão foi conduzida no âmbito do Project Orbis, em colaboração com a Health Canada.
Leia sobre "Como evitar o câncer1" e "Tratamento do câncer1".
Infectologia
O New England Journal of Medicine publicou o estudo SCORPIO-PEP[5], que avaliou ensitrelvir como profilaxia pós-exposição à COVID-19 em contatos domiciliares. O antiviral oral foi administrado dentro de 72 horas do início dos sintomas20 do caso índice e reduziu a ocorrência de COVID-19 sintomática21 até o dia 10: 2,9% no grupo ensitrelvir versus 9,0% no placebo15, uma redução relativa de 67%. Em participantes com fatores de risco para doença grave, a redução relativa foi de 76%. O medicamento é aprovado no Japão, mas permanece investigacional para essa finalidade fora do país.
A Nature Medicine publicou o estudo SAFARI[6], ensaio fase 2, aberto e randomizado22, que comparou favipiravir e ribavirina em pacientes hospitalizados com febre9 de Lassa leve a moderada na Nigéria. Foram randomizados 41 pacientes, dos quais 36 completaram 10 dias de seguimento. O favipiravir apresentou perfil de segurança e tolerabilidade comparável ao da ribavirina, sem os efeitos hematológicos negativos associados à ribavirina. Como os desfechos primários foram farmacocinéticos e de segurança, ainda são necessários estudos maiores para confirmar eficácia clínica, especialmente em casos graves.
Nefrologia
O New England Journal of Medicine publicou a análise interina do estudo fase 3 TELIGAN[7], que avaliou telitacicepte na nefropatia8 por IgA. O ensaio randomizado22 incluiu 318 adultos com doença comprovada por biópsia23 e proteinúria24 persistente apesar do cuidado de suporte. Em 39 semanas, a relação proteína-creatinina25 urinária de 24 horas caiu 58,9% com telitacicepte e 8,8% com placebo15, com diferença relativa de 55,0% em favor do tratamento. A taxa de filtração glomerular estimada permaneceu mais estável no grupo telitacicepte, sugerindo potencial efeito nefroprotetor.
Reumatologia
Na edição impressa de 14/21 de maio do New England Journal of Medicine, o estudo fase 3 VALOR[8] avaliou brepocitinibe, inibidor oral de TYK2/JAK1, em dermatomiosite. O ensaio incluiu 241 pacientes em 90 centros e atingiu o desfecho primário: a dose de 30 mg uma vez ao dia levou a melhora 15,3 pontos maior no escore total de melhora na semana 52 em comparação ao placebo15. O benefício apareceu já nas primeiras semanas e foi acompanhado de maior redução no uso de corticosteroides. A FDA concedeu Priority Review ao brepocitinibe para dermatomiosite, com decisão regulatória prevista para o terceiro trimestre de 2026.
Em 15 de maio, a FDA aprovou Immgolis® e Immgolis Intri® (golimumabe-sldi)[9] como os primeiros biossimilares intercambiáveis ao Simponi e ao Simponi Aria. As indicações incluem artrite reumatoide26 e colite27 ulcerativa, conforme a apresentação. A aprovação amplia o acesso a uma terapia anti-TNF já utilizada em doenças inflamatórias crônicas.
Dermatologia
A Anvisa aprovou, em 11 de maio, o Yesintek (ustequinumabe)[10], biossimilar ao Stelara, para doenças inflamatórias crônicas. O medicamento é indicado para psoríase28, artrite29 psoriásica, doença de Crohn30 e colite27 ulcerativa, conforme os critérios de cada indicação. A aprovação foi baseada em comparabilidade com o produto biológico de referência, demonstrando semelhança em qualidade, segurança e eficácia.
Pneumologia
A Anvisa também registrou, em 11 de maio, o Densurko® (depemoquimabe)[11], biológico de longa ação indicado como tratamento complementar da asma6 tipo 2 em adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com inflamação31 caracterizada por eosinofilia32. O medicamento é administrado uma vez a cada seis meses. Para rinossinusite crônica com pólipos7 nasais, a indicação é restrita a adultos sem controle adequado com terapia convencional33 e/ou cirurgia. A posologia semestral é o principal diferencial prático em relação a outros biológicos usados em doenças respiratórias eosinofílicas.
No cenário regulatório norte-americano, a FDA também aprovou o Trimbow®[12], combinação inalatória de dipropionato de beclometasona, fumarato de formoterol e glicopirrolato, para tratamento de manutenção da asma6 em adultos. A terapia reúne, em um único inalador, corticosteroide inalatório, beta2-agonista34 de longa ação e antagonista35 muscarínico de longa ação.
Endocrinologia
O Lancet publicou o estudo SURMOUNT-MAINTAIN[13], que avaliou estratégias de manutenção da perda de peso com tirzepatida. Após uma fase aberta de 60 semanas, 441 adultos com obesidade36 foram randomizados para continuar a dose máxima tolerada, reduzir para 5 mg ou trocar para placebo15 por 52 semanas. A continuidade da tirzepatida, tanto em dose máxima tolerada quanto em dose reduzida, manteve melhor a perda ponderal37 e benefícios cardiometabólicos do que a interrupção do tratamento, reforçando a necessidade de terapia sustentada no manejo crônico38 da obesidade36.
A Nature Medicine publicou o estudo BARI-STEP[14], ensaio randomizado22, duplo-cego e placebo15-controlado que avaliou semaglutida 2,4 mg em pessoas com baixa perda de peso após cirurgia bariátrica10. Na semana 68, a semaglutida foi associada a perda de peso de 18,0%, enquanto o grupo placebo15 apresentou ganho de 0,4%. Os achados indicam uma alternativa medicamentosa para pacientes11 com resposta insuficiente à cirurgia, cenário em que as opções costumam ser limitadas.
Veja também sobre "Doenças autoimunes39", "Doenças respiratórias" e "Tratamento da obesidade36: agonistas GLP-1 e novas tecnologias".
Referências
[1] FDA approves two separate indications for fam-trastuzumab deruxtecan-nxki in HER2-positive early-stage breast cancer1. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[2] FDA approves atezolizumab for adjuvant treatment of muscle invasive bladder cancer1 in patients with molecular residual disease. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[3] FDA grants accelerated approval to sonrotoclax for relapsed or refractory mantle cell lymphoma. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[4] FDA approves oral combination of decitabine and cedazuridine tablets with venetoclax for newly diagnosed acute myeloid leukemia. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[5] Ensitrelvir for Covid-19 Postexposure Prophylaxis in Household Contacts (SCORPIO-PEP). 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[6] Favipiravir for Lassa fever: an open-label, randomized controlled phase 2 trial (SAFARI). 2026. Disponível em Nature Medicine.
[7] Telitacicept for IgA Nephropathy — Interim Analysis of a Phase 3 Trial (TELIGAN). 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[8] A Phase 3 Trial of Brepocitinib in Dermatomyositis (VALOR). 2026. Disponível em New England Journal of Medicine (NEJM).
[9] FDA approves first interchangeable biosimilars to Simponi and Simponi Aria (golimumab) to treat rheumatoid arthritis and ulcerative colitis. 2026. Disponível em U.S. Food and Drug Administration (FDA).
[10] Anvisa aprova nova opção para tratamento de doenças inflamatórias crônicas. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[11] Anvisa autoriza novo medicamento biológico para doenças respiratórias. 2026. Disponível em Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
[12] U.S. FDA approves Trimbow® for maintenance treatment of asthma in adults. 2026. Disponível em Chiesi.
[13] Tirzepatide for maintenance of bodyweight reduction in people with obesity in the USA (SURMOUNT-MAINTAIN): a multicentre, double-blind, randomised, placebo15-controlled trial. 2026. Disponível em The Lancet.
[14] Semaglutide versus placebo15 in individuals with poor weight loss after bariatric surgery: a double-blinded, randomized, placebo15-controlled trial. 2026. Disponível em Nature Medicine.










