GLP-1s foram associados a menor risco de disseminação do câncer em quatro tipos de tumores
O uso de agonistas do receptor GLP-1 em pacientes com quatro tipos de tumores sólidos foi significativamente associado a menores taxas de progressão para doença metastática1 ao longo de um período de 5 anos, segundo uma análise de pareamento por escore de propensão.
Em pacientes com câncer2 colorretal, hepático, de mama3 ou de pulmão4 em estágios I a III, aqueles que iniciaram o uso de um medicamento GLP-1 após o diagnóstico5 de câncer2 apresentaram um risco 31% a 50% menor de progressão para o estágio IV da doença, em comparação com pacientes que iniciaram o uso de outra classe de medicamentos antidiabéticos, os inibidores da DPP-4, relatou Mark David Orland, MD, do Instituto de Câncer2 Taussig da Cleveland Clinic.
Para dois dos outros três tipos de câncer2 examinados – próstata6, pâncreas7 e rim8 – as taxas de progressão para doença metastática1 no grupo que utilizou o medicamento GLP-1 foram numericamente menores, mas as diferenças não foram estatisticamente significativas, afirmou ele em uma coletiva de imprensa antes do encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO).
Inicialmente aprovados para diabetes tipo 29 e obesidade10, os medicamentos GLP-1 agora têm indicações para doenças cardiovasculares11, doença renal12 crônica, esteatose hepática13 e outras, com cerca de 20 milhões de americanos tomando esses medicamentos de grande sucesso, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro, Zepbound).
Em pessoas com diabetes14, disse Orland, o risco de desenvolver certos tipos de tumores – cânceres que dependem de altos níveis de açúcar15 e ambientes inflamatórios – pode ser até duas vezes maior.
Mas os agentes GLP-1 nunca foram considerados apenas medicamentos para baixar a glicose16, com propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras que sugerem efeitos mais amplos, juntamente com dados pré-clínicos emergentes que indicam possível atividade antitumoral.
Saiba mais sobre "O que são metástases17", "Câncer2 de mama3" e "Câncer2 Colorretal".
Então, é hora de prescrever? Ainda não, dizem os especialistas
Embora tenham defendido a realização de estudos prospectivos, Orland e os participantes do painel disseram que é muito cedo para começar a prescrever medicamentos GLP-1 como forma de retardar a progressão da doença.
“Estes são dados instigantes que queremos explorar com muita atenção. Eles não se aplicam a todos os pacientes, a todos os tipos de câncer”, disse o presidente da ASCO, Dr. Eric Small, especialista em câncer2 de próstata6 no Centro Oncológico Abrangente Helen Diller da Universidade da Califórnia, em São Francisco. “Não estou convencido de que haja dados suficientes para o câncer2 de próstata6.”
“Ainda não”, disse a Dra. Jennifer Ligibel, do Instituto de Câncer2 Dana-Farber, em Boston. “Os medicamentos são realmente interessantes e não há dúvida de que mudaram o panorama da perda de peso, mas não acho que tenhamos informações suficientes específicas para o câncer2 ainda.”
As descobertas de inúmeros estudos populacionais sobre a relação entre agonistas do receptor GLP-1 e câncer2 continuam a se acumular, mas a maioria dos dados publicados investigou se esses agentes podem ter um efeito preventivo18 contra o câncer2, observou a moderadora da sessão, Dra. Julie Gralow, diretora médica da ASCO.
“Portanto, este estudo é um tanto singular, pois mostrou uma redução na recorrência19 metastática em pacientes já diagnosticados com câncer”, disse Gralow. “Será este um impacto direto dos agentes GLP-1 ou os usuários de GLP-1 são, de modo geral, mais engajados com a saúde20? Precisaremos de um ensaio clínico randomizado21 para comprovar a causalidade.”
A análise apresentada por Orland foi ajustada para variáveis de confusão, mas outro motivo para cautela é que o banco de dados TriNetX, utilizado no estudo, nem sempre captura todas as informações relevantes dos pacientes.
Um estudo recente que utilizou o banco de dados encontrou uma ligação entre medicamentos GLP-1 e menor mortalidade22 e risco de recorrência19 em pacientes com câncer2 de mama3, mas especialistas externos apontaram lacunas no conjunto de dados que poderiam ter influenciado os resultados, como a ausência de características do tumor23 e histórico de tratamento.
Leia sobre "Avanços recentes no tratamento do diabetes14" e "Tratamento da obesidade10: agonistas GLP-1 e novas tecnologias".
Confira a seguir o resumo do estudo apresentado no encontro anual da ASCO e publicado no Journal of Clinical Oncology.
Os agonistas do receptor GLP-1 podem atenuar a progressão do câncer2? Uma análise de pareamento por propensão em sete tumores sólidos
Os agonistas do receptor GLP-1 (ARs GLP-1) são medicamentos pleiotrópicos, inicialmente desenvolvidos para diabetes14, mas com efeitos benéficos na obesidade10 e em doenças cardiovasculares11. Dado o uso terapêutico em rápida expansão desses agentes e os dados pré-clínicos emergentes que sugerem efeitos imunomoduladores, examinou-se se a exposição a AR GLP-1 após o diagnóstico5 de câncer2 estava associada a um risco alterado de progressão para doença metastática1.
Utilizando a Rede Global de Pesquisa em Saúde20 TriNetX, identificou-se 10.225 pacientes com câncer2 em estágio I-III que iniciaram a terapia com AR GLP-1 após o diagnóstico5. Os pacientes expostos a AR GLP-1 foram pareados por propensão 1:1 com controles utilizando inibidores de DPP-4 em sete tipos de câncer2: câncer2 de pulmão4 de células24 não pequenas (CPCNP); adenocarcinomas de mama3, próstata6, pâncreas7 ou colorretal; carcinoma25 hepatocelular (CHC); e carcinoma25 de células24 renais.
O pareamento incluiu dados demográficos, IMC26, fatores glicêmicos, tabagismo, comorbidades27, frequência de rastreamento, tratamentos oncológicos e medicamentos concomitantes. O desfecho primário foi a progressão para o estágio IV da doença.
Além disso, utilizou-se dados do The Cancer2 Genome Atlas28 (TCGA) para avaliar se a expressão do receptor GLP-1 se correlacionava com a sobrevida29 global.
A coorte30 final pareada de 12.112 pacientes era composta por aproximadamente 55-60% de brancos, 20-25% de negros e 10-15% de asiáticos. O tipo de câncer2 mais comum foi o CPCNP (36%), seguido por câncer2 de mama3 (20%), câncer2 de próstata6 (17%), câncer2 colorretal (13%), carcinoma25 de células24 renais (9%), CHC (5%) e câncer2 de pâncreas7 (2%).
Ao longo de 5 anos, a exposição ao AR GLP-1 demonstrou redução na progressão metastática em 6 dos 7 tipos de câncer2, com reduções estatisticamente significativas em quatro tipos de câncer2:
- Câncer2 colorretal: 13% vs 22% (HR 0,69, IC 95% 0,54-0,88, P = 0,003)
- CHC: 19% vs 28% (HR 0,62, IC 95% 0,44-0,89, P = 0,009)
- Câncer2 de mama3: 10% vs 20% (HR 0,57, IC 95% 0,46-0,71, P <0,001)
- CPCNP: 10% vs 22% (HR 0,50, IC 95% 0,43-0,59, P <0,001)
Não foram observados sinais31 significativos de segurança ou aumento de eventos adversos em pacientes expostos ao AR GLP-1 em comparação com os controles.
Além disso, a alta expressão tumoral do receptor GLP-1 correlacionou-se com melhor sobrevida29 nos sete tumores (risco 33% menor de morte em geral [HR = 0,67, IC 95% 0,54-0,83, p <0,001]), principalmente no câncer2 de mama3 (risco 45% menor de morte [HR = 0,55, IC 95% 0,35-0,87, p = 0,011]).
Nesta grande coorte30 pareada por propensão, o início do tratamento com AR GLP-1 após o diagnóstico5 de câncer2 foi associado a uma redução drástica na progressão metastática em múltiplos tumores sólidos. Corroborando esses achados clínicos, a expressão elevada de receptor GLP-1 previu, de forma independente, uma melhor sobrevida29 global. Esses achados justificam a validação em ensaios clínicos32 randomizados e controlados prospectivos, bem como a investigação mecanística de potenciais vias antineoplásicas mediadas por ARs GLP-1.
Veja também sobre "Câncer2 de pulmão4", "Câncer2 de fígado33" e "O câncer2 renal12 e a sua evolução".
Fontes:
Journal of Clinical Oncology, Vol. 44, Nº 16 suplemento, em junho de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 21 de maio de 2026.










