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Aptidão cardiorrespiratória pode estar associada à saúde mental e ao risco de demência, aponta metanálise

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Nos últimos anos, a complexa relação entre saúde1 física e bem-estar mental tem sido alvo de crescente escrutínio científico. Uma nova revisão sistemática e metanálise, publicada na revista Nature Mental Health, apresenta evidências sugestivas, embora ainda com graus variados de certeza, de que a aptidão cardiorrespiratória (ACR) pode se correlacionar inversamente com o risco de desenvolver transtornos mentais e demência2.

Este estudo consolida dados de 27 coortes prospectivas, totalizando mais de 4 milhões de indivíduos em nove países, proporcionando uma síntese abrangente de como o desempenho cardiorrespiratório pode estar associado à saúde1 cognitiva3 e emocional ao longo da vida.

Os autores analisaram estudos epidemiológicos de coorte4 para investigar os mecanismos que poderiam ligar a aptidão física à saúde1 cerebral. A ACR emerge como um potencial marcador de risco para condições neuropsiquiátricas, embora os próprios autores ressaltem que a certeza das evidências variou de muito baixa a moderada dependendo do desfecho analisado.

Entre os principais achados, adultos com alta ACR apresentaram risco reduzido de depressão (HR = 0,64), demência2 por todas as causas (HR = 0,61) e transtornos psicóticos (HR = 0,71) em comparação com aqueles com baixa ACR. Contudo, é importante destacar que a certeza da evidência foi moderada apenas para demência2, sendo muito baixa para depressão e transtornos psicóticos. Para ansiedade, não foram encontradas associações estatisticamente significativas.

Leia sobre "Tipos de exercícios físicos", "Principais transtornos mentais" e "Prevenção do declínio cognitivo5".

Os autores propõem que o exercício aeróbico pode desencadear processos neuroprotetores, como melhora do fluxo sanguíneo cerebral, aumento de fatores neurotróficos, redução da inflamação6 e modulação do eixo hipotálamo7-hipófise8-adrenal, embora esses mecanismos ainda necessitem de confirmação em estudos futuros.

As análises também indicaram uma possível relação dose-resposta, em que cada aumento de 1 MET na ACR foi associado a reduções modestas no risco de depressão e demência2. Coortes longitudinais sugerem que avaliações de condicionamento físico no início da vida podem estar associadas a desfechos de saúde1 mental décadas depois, o que reforça a relevância do condicionamento aeróbico ao longo da vida, embora a causalidade reversa não possa ser descartada, pois sintomas9 subliminares precoces também podem contribuir para a redução da ACR.

O artigo ainda discute as vias neurobiológicas potencialmente envolvidas, como o aumento da expressão do fator neurotrófico derivado do cérebro10 (BDNF), adaptações vasculares11 e melhora da barreira hematoencefálica. É importante notar que esses mecanismos são propostos como hipóteses explicativas plausíveis, e não como relações de causalidade estabelecidas.

Também vale destacar que as evidências sobre transtornos psicóticos foram derivadas exclusivamente de duas coortes masculinas de recrutas militares, limitando a generalização para mulheres e para a população geral.

A revisão reconhece importantes limitações, incluindo heterogeneidade nos métodos de avaliação da ACR, potenciais variáveis de confusão não mensuradas (como predisposições genéticas, nível socioeconômico e hábitos de vida) e a predominância de participantes brancos nas coortes analisadas, o que restringe a generalização para populações racialmente diversas.

Os autores defendem a necessidade de protocolos padronizados de mensuração da ACR, estudos com delineamentos geneticamente informados e ensaios clínicos12 randomizados para esclarecer a causalidade e otimizar intervenções voltadas à saúde1 mental.

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Aptidão cardiorrespiratória e risco de transtornos mentais e demência2: uma revisão sistemática e metanálise

A aptidão cardiorrespiratória (ACR) é um forte indicador de saúde1 física geral, mas sua relevância para a saúde1 mental e neurocognitiva ao longo da vida permanece incerta. Nesta revisão, os pesquisadores sintetizaram evidências de estudos de coorte13 que examinam as associações entre a ACR e o risco de transtornos mentais e neurocognitivos em todas as faixas etárias na população geral. Vinte e sete estudos, compreendendo 4.007.638 indivíduos, foram incluídos.

Comparada à baixa ACR, a alta ACR foi associada a um risco reduzido de depressão (hazard ratio [HR] = 0,64; intervalo de confiança [IC] de 95%, 0,56-0,74), demência2 por todas as causas (HR = 0,61; IC de 95%: 0,55-0,68) e transtornos psicóticos (HR = 0,71; IC de 95%: 0,65-0,77) em adultos.

Um aumento de um equivalente metabólico14 da tarefa (1 MET; 3,5 ml kg⁻¹ min⁻¹) no nível de ACR foi associado a menores riscos de depressão (HR = 0,95; IC 95%: 0,92-0,98) e demência2 por todas as causas (HR = 0,81; IC 95%: 0,67-0,98).

A certeza geral da evidência variou de muito baixa a moderada.

Esses achados sugerem que a ACR pode ser um marcador útil para identificar adultos com risco aumentado de depressão, demência2 e transtornos psicóticos, destacando a necessidade de mais estudos longitudinais em larga escala.

Veja também sobre "Saúde1 mental - o que é" e "Atividade física - um hábito adquirido com prazer".

 

Fonte: Nature Mental Health, publicação em 20 de março de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Aptidão cardiorrespiratória pode estar associada à saúde mental e ao risco de demência, aponta metanálise. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1502915/aptidao-cardiorrespiratoria-pode-estar-associada-a-saude-mental-e-ao-risco-de-demencia-aponta-metanalise.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Saúde: 1. Estado de equilíbrio dinâmico entre o organismo e o seu ambiente, o qual mantém as características estruturais e funcionais do organismo dentro dos limites normais para sua forma de vida e para a sua fase do ciclo vital. 2. Estado de boa disposição física e psíquica; bem-estar. 3. Brinde, saudação que se faz bebendo à saúde de alguém. 4. Força física; robustez, vigor, energia.
2 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
3 Cognitiva: 1. Relativa ao conhecimento, à cognição. 2. Relativa ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
4 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
5 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
6 Inflamação: Conjunto de processos que se desenvolvem em um tecido em resposta a uma agressão externa. Incluem fenômenos vasculares como vasodilatação, edema, desencadeamento da resposta imunológica, ativação do sistema de coagulação, etc.Quando se produz em um tecido superficial (pele, tecido celular subcutâneo) pode apresentar tumefação, aumento da temperatura local, coloração avermelhada e dor (tétrade de Celso, o cientista que primeiro descreveu as características clínicas da inflamação).
7 Hipotálamo: Parte ventral do diencéfalo extendendo-se da região do quiasma óptico à borda caudal dos corpos mamilares, formando as paredes lateral e inferior do terceiro ventrículo.
8 Hipófise:
9 Sintomas: Alterações da percepção normal que uma pessoa tem de seu próprio corpo, do seu metabolismo, de suas sensações, podendo ou não ser um indício de doença. Os sintomas são as queixas relatadas pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Sintomas são subjetivos, sujeitos à interpretação pessoal. A variabilidade descritiva dos sintomas varia em função da cultura do indivíduo, assim como da valorização que cada pessoa dá às suas próprias percepções.
10 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
11 Vasculares: Relativo aos vasos sanguíneos do organismo.
12 Ensaios clínicos: Há três fases diferentes em um ensaio clínico. A Fase 1 é o primeiro teste de um tratamento em seres humanos para determinar se ele é seguro. A Fase 2 concentra-se em saber se um tratamento é eficaz. E a Fase 3 é o teste final antes da aprovação para determinar se o tratamento tem vantagens sobre os tratamentos padrões disponíveis.
13 Estudos de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
14 Equivalente metabólico: O equivalente metabólico (MET), múltiplo da taxa metabólica basal, equivale à energia suficiente para um indivíduo se manter em repouso, representado na literatura pelo consumo de oxigênio (VO2) de aproximadamente 3,5 ml/kg/min. Quando se exprime o gasto de energia em METs, representa-se o número de vezes pelo qual o metabolismo de repouso foi multiplicado durante uma atividade. Por exemplo, pedalar a quatro METs implica em gasto calórico quatro vezes maior que o que vigora em repouso.
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