Gostou do artigo? Compartilhe!

Dificuldade para compreender fala em ambientes ruidosos foi associada a alterações cerebrais

A+ A- Alterar tamanho da letra
Avalie esta notícia

A dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos foi associada a alterações cerebrais nas redes de processamento da fala e pode ser um marcador comportamental precoce de vulnerabilidade neural antes do declínio cognitivo1, sugeriu um estudo com idosos, publicado no JAMA Otolaryngology Head & Neck Surgery.

Ao longo de três anos, um desempenho basal inferior na compreensão da fala em ambientes ruidosos foi associado a um afinamento cortical mais rápido nas regiões do lóbulo parietal inferior (β = -0,002), do pré-cúneo (β = -0,001), do córtex temporal médio (β = -0,001) e do sulco temporal superior (β = -0,001), relataram Julien Zanin, PhD, da Universidade de Melbourne, na Austrália, e seus coautores.

Essas associações permaneceram significativas mesmo após o ajuste para limiares auditivos e uso de aparelhos auditivos.

“Descobrimos que a dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos estava mais intimamente relacionada a alterações estruturais no cérebro2 do que aos limiares auditivos isoladamente”, disse Zanin. “Idosos que apresentaram maior dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos demonstraram um afinamento cortical mais rápido em regiões envolvidas no processamento da fala, atenção e funções cognitivas superiores”, destacou ele.

“Essas associações permaneceram mesmo após considerar a perda auditiva periférica, sugerindo que a capacidade de compreensão da fala em ambientes ruidosos pode refletir uma vulnerabilidade neural mais ampla”, disse Zanin.

Leia sobre "Deficiência auditiva", "Distúrbios do processamento auditivo central" e "Prevenção do declínio cognitivo1".

“Não observamos declínio cognitivo1 global mensurável durante o período de acompanhamento na coorte3 do estudo, mas um desempenho inferior na compreensão da fala em ambientes ruidosos foi associado a um desempenho cognitivo4 geral inferior, sugerindo que essas alterações cerebrais podem surgir antes que o declínio seja detectado em avaliações cognitivas padrão”, acrescentou.

A perda auditiva é um importante fator de risco5 modificável para demência6. “Apesar disso, os mecanismos neurobiológicos que ligam os déficits auditivos, a integridade neural cortical e o declínio cognitivo1 ainda não são totalmente compreendidos”, observaram Zanin e seus colegas.

Diversos estudos associaram a perda auditiva à demência6, mas estes se basearam, em grande parte, em dados de audiometria7 tonal pura. Algumas evidências sugerem que déficits auditivos centrais são um marcador mais sensível do estado neurocognitivo, com a capacidade de percepção da fala em ambientes ruidosos diferenciando pessoas com cognição8 normal, comprometimento cognitivo1 leve e doença de Alzheimer9 melhor do que os limiares tradicionais de tons puros.

Pesquisas anteriores, incluindo um estudo com 82.000 participantes do UK Biobank, associaram a dificuldade em compreender a fala em ambientes ruidosos – às vezes chamada de “efeito coquetel” – à incidência10 de demência6.

“O efeito coquetel está intimamente relacionado à capacidade de percepção da fala em ambientes ruidosos: refere-se à capacidade de uma pessoa usar as informações auditivas que chegam a ambos os ouvidos para filtrar o ruído de fundo e se concentrar em um único interlocutor”, disse Zanin. “O teste que usamos neste estudo investiga aspectos do efeito coquetel, particularmente a capacidade de usar pistas espaciais e vocais para separar a fala do interlocutor de outros interlocutores.”

Confira a seguir o resumo do artigo publicado.

Capacidade de compreender fala em meio ao ruído e afinamento cortical longitudinal em redes de processamento da fala

A perda auditiva relacionada à idade é um importante fator de risco5 modificável para demência6, mas os mecanismos neurais que ligam a disfunção auditiva ao envelhecimento cerebral e ao declínio cognitivo1 ainda não estão claros. Em particular, não se sabe se a perda auditiva periférica, os déficits de processamento auditivo central ou o uso de aparelhos auditivos são os melhores preditores de alterações neurodegenerativas em idosos.

O objetivo deste estudo foi determinar se os limiares auditivos, a capacidade de compreender fala em meio ao ruído e o uso de aparelhos auditivos estão associados à atrofia11 cortical longitudinal e às trajetórias cognitivas em idosos cognitivamente normais.

Este estudo de coorte12 longitudinal baseado na população, com avaliações basais e de acompanhamento de 3 anos, foi conduzido entre idosos residentes na comunidade na Austrália. Os participantes foram selecionados do estudo Aspirin in Reducing Events in the Elderly e categorizados como tendo audição normal, perda auditiva sem auxílio ou usando aparelhos auditivos, com base na audiometria7 e no relato do próprio participante sobre o uso de aparelhos auditivos. Dados de ressonância magnética13 estrutural, auditivos e cognitivos14 foram coletados entre 2012 e 2017. Os dados foram analisados de agosto a outubro de 2025.

As exposições do estudo foram perda auditiva periférica avaliada usando limiares médios de 4 frequências da melhor orelha15; processamento auditivo central avaliado pelo desempenho binaural na compreensão de fala em meio ao ruído; e uso de aparelho auditivo, incluindo a duração do uso.

Os principais desfechos e medidas foram alteração longitudinal na espessura cortical e nos volumes cerebrais regionais derivados de imagens de ressonância magnética13 ponderadas em T1, com foco em regiões auditivas e regiões vulneráveis à doença de Alzheimer9. A cognição8 global foi avaliada usando o Mini-Exame do Estado Mental Modificado.

Um total de 312 adultos (idade média [DP], 73,5 [3,3] anos; 167 [54%] mulheres) sem demência6 na linha de base foram incluídos. Na linha de base, os grupos com perda auditiva apresentaram pior desempenho audiométrico e de compreensão de fala em meio ao ruído, mas não diferiram na cognição8 global.

Ao longo de 3 anos, observou-se atrofia11 cortical generalizada relacionada à idade, e um desempenho basal inferior na compreensão de fala em meio ao ruído foi associado a um afinamento cortical mais rápido no lóbulo parietal inferior (β = -0,002; IC 95%, -0,003 a 0,001), no pré-cúneo (β = -0,001; IC 95%, -0,002 a 0,000), no córtex temporal médio (β = -0,001; IC 95%, -0,002 a -0,001) e no sulco temporal superior (β = -0,001; IC 95%, -0,002 a 0,000), independentemente dos limiares auditivos e do uso de aparelhos auditivos.

Não houve associação estatisticamente significativa entre perda auditiva/uso de aparelho auditivo e alteração neuroestrutural longitudinal ou declínio cognitivo1.

Neste estudo de coorte12 de idosos cognitivamente normais, o comprometimento do processamento auditivo central, e não a perda auditiva periférica ou o uso de aparelho auditivo, foi associado ao afinamento cortical acelerado nas redes de processamento da fala. O desempenho na compreensão de fala em meio ao ruído pode representar um marcador comportamental precoce de vulnerabilidade neural que precede o declínio cognitivo1 mensurável.

Veja também sobre "Surdez em idosos e o risco de demência6", "Envelhecimento cerebral normal ou patológico" e "Aparelhos auditivos".

 

Fontes:
JAMA Otolaryngology – Head and Neck Surgery, publicação em 28 de maio de 2026.
MedPage Today, notícia publicada em 28 de maio de 2026.

 

NEWS.MED.BR, 2026. Dificuldade para compreender fala em ambientes ruidosos foi associada a alterações cerebrais. Disponível em: <https://news.cxpass.net/p/medical-journal/1508395/dificuldade-para-compreender-fala-em-ambientes-ruidosos-foi-associada-a-alteracoes-cerebrais.htm>. Acesso em: 21 ago. 2026.

Complementos

1 Cognitivo: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
2 Cérebro: Derivado do TELENCÉFALO, o cérebro é composto dos hemisférios direito e esquerdo. Cada hemisfério contém um córtex cerebral exterior e gânglios basais subcorticais. O cérebro inclui todas as partes dentro do crânio exceto MEDULA OBLONGA, PONTE e CEREBELO. As funções cerebrais incluem as atividades sensório-motora, emocional e intelectual.
3 Coorte: Grupo de indivíduos que têm algo em comum ao serem reunidos e que são observados por um determinado período de tempo para que se possa avaliar o que ocorre com eles. É importante que todos os indivíduos sejam observados por todo o período de seguimento, já que informações de uma coorte incompleta podem distorcer o verdadeiro estado das coisas. Por outro lado, o período de tempo em que os indivíduos serão observados deve ser significativo na história natural da doença em questão, para que haja tempo suficiente do risco se manifestar.
4 Desempenho cognitivo: Desempenho dos processos de aprendizagem e de aquisição de conhecimento através da percepção.
5 Fator de risco: Qualquer coisa que aumente a chance de uma pessoa desenvolver uma doença.
6 Demência: Deterioração irreversível e crônica das funções intelectuais de uma pessoa.
7 Audiometria: Método utilizado para estudar a capacidade e acuidade auditivas perante diferentes freqüências sonoras.
8 Cognição: É o conjunto dos processos mentais usados no pensamento, percepção, classificação, reconhecimento e compreensão para o julgamento através do raciocínio para o aprendizado de determinados sistemas e soluções de problemas.
9 Doença de Alzheimer: É uma doença progressiva, de causa e tratamentos ainda desconhecidos que acomete preferencialmente as pessoas idosas. É uma forma de demência. No início há pequenos esquecimentos, vistos pelos familiares como parte do processo normal de envelhecimento, que se vão agravando gradualmente. Os pacientes tornam-se confusos e por vezes agressivos, passando a apresentar alterações da personalidade, com distúrbios de conduta e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmos quando colocados frente a um espelho. Tornam-se cada vez mais dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, a comunicação inviabiliza-se e passam a necessitar de cuidados e supervisão integral, até mesmo para as atividades elementares como alimentação, higiene, vestuário, etc..
10 Incidência: Medida da freqüência em que uma doença ocorre. Número de casos novos de uma doença em um certo grupo de pessoas por um certo período de tempo.
11 Atrofia: 1. Em biologia, é a falta de desenvolvimento de corpo, órgão, tecido ou membro. 2. Em patologia, é a diminuição de peso e volume de órgão, tecido ou membro por nutrição insuficiente das células ou imobilização. 3. No sentido figurado, é uma debilitação ou perda de alguma faculdade mental ou de um dos sentidos, por exemplo, da memória em idosos.
12 Estudo de coorte: Um estudo de coorte é realizado para verificar se indivíduos expostos a um determinado fator apresentam, em relação aos indivíduos não expostos, uma maior propensão a desenvolver uma determinada doença. Um estudo de coorte é constituído, em seu início, de um grupo de indivíduos, denominada coorte, em que todos estão livres da doença sob investigação. Os indivíduos dessa coorte são classificados em expostos e não-expostos ao fator de interesse, obtendo-se assim dois grupos (ou duas coortes de comparação). Essas coortes serão observadas por um período de tempo, verificando-se quais indivíduos desenvolvem a doença em questão. Os indivíduos expostos e não-expostos devem ser comparáveis, ou seja, semelhantes quanto aos demais fatores, que não o de interesse, para que as conclusões obtidas sejam confiáveis.
13 Ressonância magnética: Exame que fornece imagens em alta definição dos órgãos internos do corpo através da utilização de um campo magnético.
14 Cognitivos: 1. Relativo ao conhecimento, à cognição. 2. Relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio. 3. Diz-se de estados e processos relativos à identificação de um saber dedutível e à resolução de tarefas e problemas determinados. 4. Diz-se dos princípios classificatórios derivados de constatações, percepções e/ou ações que norteiam a passagem das representações simbólicas à experiência, e também da organização hierárquica e da utilização no pensamento e linguagem daqueles mesmos princípios.
15 Orelha: Sistema auditivo e de equilíbrio do corpo. Consiste em três partes
Gostou do artigo? Compartilhe!